9 de jun. de 2009

Rio 40 graus

Não haveria recepção mais calorosa. Após intensos cinco meses, cheguei ao Rio de Janeiro de sobretudo na mão e 40 graus de temperatura ambiente. Era o dia mais quente do ano me dando boas-vindas ao Brasil.

O aeroporto por onde chega a maior parte dos turistas estrangeiros ao nosso país é lamentável. O calor tropical daquele dia não era contido pelo ar condicionado. Na enorme fila para conferência dos passaportes, um funcionário gritava com os estrangeiros em português. Os coitados não entendiam nada, enquanto a criatura insistia em repetir aos berros que já havia falado que era para todos estarem com o documento em mãos.

O vôo para Curitiba ainda ia demorar, então o jeito era passear no freeshop. Uma amiga que conheci na sala de embarque de Paris me pediu para passar uma parte das compras dela com os meus documentos, pois ela já havia ultrapassado o limite. Depois de ajudá-la segui em direção ao controle da alfandêga, mas no caminho me deparei com as minhas duas malas jogadas no meio do salão. O que elas estavam fazendo ali, se a Airfrance garantiu que iriam direto para Curitiba? Eu tinha mesmo desconfiado, pois teria que passar por um controle, além de que a Airfrance havia terminado o acordo com a TAM, porém eu havia insistido várias vezes na informação e o atendente me falou com todas as letras e segurança de que iria direto para o destino final. Sorte que as encontrei ali por acaso, abandonadas. Um funcionário já estava etiquetando todas para para levar à seção de bagagens esquecidas ou perdidas. Ele me disse que a Airfrance sempre informa errado, por mais que eles insistam para que informem corretamente.

O fato é que passei batido pela alfândega e um outro funcionário me ajudou a levar as malas enormes e abarrotadas até o outro terminal, em troca de uma gorjeta, é claro.

As atendentes das companhias aéreas estavam derretendo, algumas até passando mal. Em meio àquele calor insuportável, ainda tentei trocar a minha passagem para dar tempo de ir à praia, mas não deu certo. O jeito era fazer o check in e esperar quase dormindo o vôo para Curitiba.

Fim de semana na Bélgica

28.02 Era sábado. Depois de um café da manhã com direito a croissants fresquinhos com nutella, Max e Laurence me levaram à Bruges, uma cidadezinha turística da Bélgica que parece cenário de filme. Comemos batatas fritas originais e fizemos um passeio de barco por entre os vários canais da cidade.

Depois do passeio, me rendi a um chocolate quente para descongelar, pois o frio estava de matar. A noite seguimos para Louvain, cidade universitária da Bélgica e onde está uma das universidades mais antigas da Europa (e muito bonita também). Lá encontramos uma amiga de Laurence que é cadeirante e fomos jantar em um restaurante bem aconchegante, onde provei também as famosas cervejas belgas. Entre elas, uma bem feminina, de framboesa.

01.03 Domingo era dia de conhecer Bruxelas, voltar a Paris e pegar o vôo de volta ao Brasil. Pela manhã, Max me levou ao Atomium, uma espécie de símbolo-mirante de Bruxelas e depois, junto com Laurece, visitamos a praça principal, símbolos da cidade e provei as famosas e tradicionais gaufres de bruxelles.

Max e Laurece foram muito atenciosos durante o fim de semana e naquela tarde de domingo, me deixaram na estação de trem onde me despedi do lugar de onde vieram os smurfs, as batatas fritas e os melhores chocolates e cervejas do mundo.

Precisei de um mapa e tive que fazer um mega tour no aeroporto Charles de Gaulle até achar em qual terminal e andar havia deixado a minha outra mala, encontrar onde fazer os procedimentos do tax free e finalmente o check in. O vôo estava com overbooking e o pessoal da Airfrance me ofereceu 100 euros e hospedagem para que eu ficasse na lista de espera. Tentador, porém aquele era o último dia do meu visto e eu tinha que deixar a União Européia de qualquer jeito.

Foi uma longa espera. Haviam dois vôos GG indo para o Brasil naquela noite, um para o Rio e outro para São Paulo. Faltavam poltronas na sala de embarque, estavam transbordando brasileiros. Foi aí que lembrei que era domingo e o fim do feriado de Carnaval no Brasil, o que explica a quantidade absurda de conterrâneos naquele lugar.

Nunca havia voado num avião tão grande. Era de dois andares e me falaram que era o maior do mundo. Eu nunca vi tanta gente entrando num só avião. Havia um casal de Petrópolis muito simpático ao meu lado, que queria ir a Grécia no ano que vem. Dei algumas dicas, assisti a um filme e depois do jantar, dormi até a hora do café da manhã.

19 de mai. de 2009

Versailles e despedida

27.02.09 Na manhã seguinte, fui até a estação de trem, onde me comuniquei quase por mímicas com uma Senhora francesa que estava tentando me ajudar a saber onde deveria esperar o trem que só passaria rapidamente para que quem estivesse por ali embarcasse.

Chegando em Versailles, foi só seguir o fluxo de turistas até o Palácio, sede da sofisticadíssima corte francesa de Luís 15. Fila pra comprar ingresso e uma certa decepção: achei o palácio meio sem graça, exceto os gigantescos jardins que são o principal atrativo. É inacreditável a extensão desse monte de mato bem cuidado. Infelizmente era inverno e estava excessivamente frio para se expor tanto tempo ao ar livre. Andei por horas em meio aos bem recortados jardins até encontrar uma saída e voltei a Paris no fim da tarde.

Queria visitar o Cemitério do Père Lachaise, que dizem ser o mais alegre do mundo. Entre os túmulos mais freqüentados estão o de Jim Morrison, Allan Kardec, Balzac, La Fontaine, Molière, Sarah Bernhardt, Proust, Oscar Wilde, Danton, Edith Piaf, Irmãos Lumiére, Isadora Duncan, e Chopin. Infelizmente tinha acabado de fechar e eu não pude visitá-lo.

Em casa, fizemos as crepes que não comemos na quarta-feira. Romain me ensinou a receita e como jogá-las pra cima para virar as crepes de lado na frigideira. Depois de comermos muito, Romain já estava um pouco atrasado para o ensaio de teatro das sextas-feiras. Mesmo assim me levou até a estação onde eu pegaria o trem para Bruxelas. Os metrôs estavam cheios e Romain e eu ficávamos nos olhando por longos instantes, como várias vezes acontecia durante aqueles três dias. Numa plataforma da estação de Paris, nos despedimos algumas vezes e segui adiante carregando a minha mala e um peso enorme de estar deixando-o para trás. Nessa hora me dei conta que aquele menino francês havia mexido comigo.

O trem era chiquérrimo e veloz. A viagem foi rápida e um tanto triste por estar deixando a cidade Luz. Ao chegar em Bruxelas, Max estava à minha espera e me levou ao apartamento onde ele e a namorada Laurece estão morando. Eu estava tão cansada que já não enxergava nem sentia mais nada. Dormi igual um anjinho naquela noite.

A Torre Eiffel

26.02 Estava frio e nublado no dia de ver a Torre Eiffel bem de perto. Como toda s as manhãs em Paris, fiz o desjejum com os deliciosos, crocantes e macios croissants au berre que parecem derreter na boca.

A estação de metrô próxima da torre estava em manutenção, então desci na próxima e tive que caminhar um pouco, o que acabou sendo ótimo pois cheguei no melhor ponto para se observar e tirar fotografias. Apreciei os jardins e espelhos d’água do Trocadeiro e depois desci em direção à ela. Inaugurada em 1889, a Torre Eiffel foi construída para honrar o centenário da Revolução Francesa. Era para ser uma estrutura temporária, mas acabou ficando lá para sempre. Nem o céu cinza pode tirar o encanto de visualizar esse ícone mundial tão de perto.

Duas pessoas surgiram com o cartaz "free hugs" e eu não perdi a oportunidade de receber um abraço de graça de anônimos bem embaixo da torre de ferro mais conhecida do mundo. Não estava muito empolgada, mas entrei na fila pra ver a vista de lá de cima. Havia brasileiros por todos os lados, atrás e na frente. Tinha até um com medo de altura e só ia subir até o primeiro nível. Estava acostumada a encontrar brasileiros em todo o lugar, porém em Paris a quantidade era exagerada. A sensação que tive foi que estava no Brasil, onde se podia encontrar alguns franceses.

A vista lá do ponto mais alto estava prejudicada pela neblina, como já havia sido avisado antes de subir. Dentro de uma estrutura protegida, deu pra ver Paris em 360 graus e fugir do frio. Após uma longa contemplação por todos os ângulos da cidade Luz, encarei uma extensa fila para descer daquele lugar cheio de gente.

Saí caminhando sem noção de direção e nem exatamente para onde gostaria de ir. Fui perguntando para as pessoas onde ficavam os museus, até que encontrei um que não tinha nada a ver com o que eu queria visitar. Foi então que encontrei o Rio Sena e tive uma prazerosa e longa caminhada ao seu lado, vislumbrada com a beleza daquele conjunto harmonioso de pontes, avenidas e construções antigas que se exibiam ao meu redor.

Depois de uma considerável pernada, avistei à margem esquerda do Rio Sena o museé d'Orsay, que originalmente era uma estação ferroviária. O museu é muito bem organizado e com arte para todos os gostos, cujo destaque são as obras de Van Gogh, Monet e Degas. Estava exausta quando saí de lá e recebi uma mensagem de Romain no celular. Combinamos de nos encontrar em frente ao hotel de ville em meia hora.

Mal sabia eu que mais uma longa caminhada estava a minha espera. Já estava anoitecendo quando cruzei a ponte para chegar ao outro lado do rio e seguir as placas até o ponto de encontro. Eu fiquei pensando por que um Hotel tinha virado ponto turístico e se tornado merecedor de placas indicativas pela cidade.

Chegando lá, Romain me explicou que o tal "Hotel De Ville" era nada mais que a prefeitura de Paris, um centro administrativo e onde está o escritório do prefeito. A construção é de ficar sem ar. Rica em detalhes, linda e imponente. Logo à sua frente havia uma pista de patinação no gelo, onde várias pessoas se divertiam. Romain sugeriu que fossemos patinar juntos. A única vez que fiz isso foi dentro de um shopping center e foi uma experiência um tanto catastrófica. Romain prometeu que me ensinaria e eu até tinha gostado da idéia, imaginando suas mãos segurando as minhas e nós dois patinando juntos como numa cena de um filme francês até eu cair em cima dele. E ali no chão gelado, sentindo seu corpo sobre o meu, não resistiria ao seu olhar de poesia, ele me daria um beijo e começaria uma grande história de amor. Mas uma dor latejante me fez voltar a realidade. Depois de tantos dias consecutivos andando como Forrest Gump, a exaustão das minhas pernas me impediu de entrar na pista.

Então seguimos ao Centre Georges Pompidou, um complexo fundado em 1977, que abriga museu, biblioteca, teatros, entre outros espaços culturais. O projeto, desenhado por dois arquitetos italianos, foi considerado extremamente arrojado e bastante criticado pela sua arquitetura high-tech, observada nas grandes tubulações aparentes como dutos de ar condicionado, nas escadas rolantes externas e no sistema estrutural em aço por sua semelhança aos sistemas industriais. É um grande contraste com o resto da cidade. Achei que Paris precisava mesmo de algo assim para quebrar um pouco a paisagem antiga e preservada.

Naquela noite Romain me levou também a lugares menos turísticos e foi ótimo conhecer este lado de Paris menos tumultuado. Chegamos a uma rua com alguns bares e restaurantes um pouco alternativos, onde jantamos à francesa. Na volta, dois franceses do interior puxaram assunto com Romain e acharam que eu era a esposa dele.

Voltamos pra casa. O elevador do qual já falei, é bem pequeno, então nós ficávamos bem próximos um do outro e eu podia sentir a respiração de Romain até chegar ao quinto andar. Amanhã era meu último dia em Paris. Romain sentou-se ao meu lado e me explicou detalhadamente como chegar na RER, onde pega-se o trem até Versailles.

Aux Champs-Elysées

25.02 Ramain trabalha numa produtora de vídeos. Segundo ele, passa o dia editando aquelas pegadinhas sem graça de televisão. Saí de casa depois que ele já havia saído. Peguei um metrô até o Arco do Triunfo e fui caminhando pelo champs-elysées, o boulevard mais chique e caro de Paris.

Estava uma deliciosa manhã de sol e uma energia sem igual tomou conta de mim enquanto caminhava por aquelas ruas. Cheguei na Place de La Concorde, onde o rei Luis 16 e sua mulher, Maria Antonieta, foram guilhotinados. A praça tinha a belíssima Igreja da Madeleine ao fundo. De lá, segui pelo Jardim das Tulheries, onde já existiu um imponente palácio, derrubado durante a Revolução Francesa. No verão, as Tulheries abriga um parque de diversões e vira uma badalada área de lazer. Mas como era inverno, o lugar era perfeito para sentar, sentir o sol, ver os pássaros e relaxar cercada de uma bela paisagem de tranqüilidade em meio à loucura da cidade grande.

No fim das Tulheries avistei uma pirâmide toda de vidro. Era o Louvre, que tem uma coleção de 300 mil obras de arte e é o maior e um dos mais antigos museus do mundo. A pirâmide faz um contraste gritante com o antigo Palais do Louvre, sede da corte francesa desde o século 13. Passei horas lá dentro, sem deixar de passar pela Vênus de Milo, a Vitória de Samotrácia e o retrato mais famoso e disputado do mundo, La Gioconda, ou Monalisa, de Leonardo da Vinci. O Código de Hamurabi, que instituiu a lei do "olho-por-olho" na Mesopotâmia antiga, também é bem interessante. A imensidão do lugar é incalculável, tornando impossível ver tudo com calma.

Depois da exaustiva visita ao Louvre, fui caminhando até a belíssima arquitetura da Ópera de Paris e dei uma passadinha no famoso shopping Lafayette.

Antes do pôr-do-sol, subi o Montmartre, um dos lugares mais poéticos de Paris. Lá do alto, pude apreciar a vie en rose (a vida cor-de-rosa) do anoitecer, ouvindo música e sentada nas escadarias da Sacre Coeur, uma linda basílica que tem uma vista privilegiada da cidade.




Já estava escuro quando fui andando até Pigalle, berço de cabarés e prostíbulos. Hoje abriga sex-shops, danceterias, bistrôs, bares de strip-tease e casas noturnas como o famoso Moulin Rouge.

De lá, metrô direto para casa, onde Ramain organizou um encontro com alguns couchsurfers. Preparou purê de batatas com carne para o jantar, mas apenas uma convidada compareceu. Muito simpática, Juliet é quase uma controladora de vôos. Nunca tinha conhecido alguém com uma profissão assim e fiquei impressionada com algumas informações sobre os perigos de voar.

Ouvindo bossa nova brasileira, tomamos vinho branco e provamos ouzo que eu trouxe da Grécia. Ramain mostrou as fotos da viagem à Colombia e tocou violão. Talentoso, ele compôs uma música improvisada só para mim, enquanto o seu olhar insistente de poeta Don Juan dava ritmo à melodia. Quase derreti. Estou encantada com a língua francesa, principalmente quando Ra main fala "Sandrine" com o sotaque correto da origem do meu nome. Juliet voltou pra casa de bicicleta e nós assistimos a Little Miss Sunshine antes de dormir.

6 de abr. de 2009

Coincidências em Paris

24.03 Já na sala de embarque para Paris, notei que havia um casal de brasileiros, que acabaram sentando nas poltronas atrás de mim. Ele era diretor da Vivo e o motivo da viagem era uma feira de telecomunicações. Segundo eles, sempre aproveitam para emendar um turismo. Sua esposa também era muito simpática e querida, eu diria que passei o início do vôo virada para trás. Me mostraram as fotos da viagem à Espanha com direito a legenda oral, enquanto o avião decolava.

Chegando ao aeroporto Charlles de Gaulle, fui atrás de uma left luggage room, onde deixei uma das minhas malas hospedada durante cinco dias a preço de hotel cinco estrelas. Em meio àquela imensidão de terminais e andares, comprei passagens de trem para Bruxellas e outra para o centro de Paris.

Não sabia em qual trem deveria entrar. Várias estações apareciam nas telas, mas são tantas nessa cidade que era impossível descobrir onde estava a minha. Perguntei a uma menina, que estava tão perdida quanto eu. Até que uma voz do além disse para entrar naquele em que a porta estava quase fechando. Ufa. Agora o desafio era descobrir onde tinha que descer. Perguntei a uma moça loura que sentava à minha frente e que foi muito gentil em me mostrar todo o caminho no mapa. Logo o trem lotou e eu percebi que estava atrasada para encontrar com Ramain, meu último anfitrião do couchsurfing. Enviei uma mensagem e combinamos de nos encontrar na estação de Convention uma hora mais tarde. Dois brasileiros de Minas estavam no trem e fizeram questão de me ajudar a levar a mala para fora.

Lá estava eu, na estação central de Paris com uma mala enorme e pesada, tentando descobrir pra que lado deveria seguir. Feliz e contente, segui em direção às escadas rolantes, mas elas não estavam funcionando. Perguntei a um rapaz se aquele era o único acesso, ele confirmou e me ajudou a carregar aquele chumbo de rodinhas escada acima. Uma boa primeira impressão da cidade Luz.

As estações de metrô de Paris são cheias de degraus por toda a parte, o que dificulta a legião de pessoas que carregam suas malas pra cima e pra baixo nessa cidade que é um dos maiores destinos turísticos do mundo. Estava cansada quando cheguei à estação Convention, onde Ramain iria me encontrar.

Em passos receosos, foi se aproximando um jovem rapaz magro, de óculos e barba rala. Apesar do seu senso de humor, Ramain está sempre sério, cada sorriso que você provoca nele é uma conquista que logo se apaga. Andamos algumas quadras até chegar na sua casa. A região é nobre e o elevador do prédio é igual àqueles de filme europeu. O apartamento é bem confortável. Ramain voltou a morar com a mãe e a irmã. O pai mora na região metropolitana, onde eles tem outra casa. Mas nesses dias em que ficaria lá, ele estava sozinho, pois a família estava viajando. Tinha o quarto da irmã dele só para mim, mas claro que ela não tinha a menor idéia de que uma brasileira estava hospedada lá.

Ramain me levou então para o primeiro passeio em Paris. Fomos até Quartier Latin, onde está a a Sorbonne, uma das mais antigas e respeitadas universidades do mundo. Foi da Sorbonne que os estudantes franceses coordenaram as Barricadas em 1968, que mudaram todo o sistema educacional francês, derrubaram o presidente Charles de Gaulle e inspiraram estudantes de todo o mundo pela causa revolucionária.

Para o jantar, um restaurante típico. Pedi um fondue de queijo e Ramain o tradicional menu francês, no qual veio salada de entrada, carne como prato principal e uma sobremesa que dividimos. Logo depois, fomos até a Notre Dame, uma das mais antigas catedrais francesas em estilo gótico, cuja arquitetura externa elegi a mais linda de todas que vi até hoje. Bem em frente, na praça Parvis, encontra-se uma placa de bronze que representa o ponto zero a partir do qual todas as distâncias das estradas nacionais francesas são calculadas. Ramain brincou que estávamos no centro do mundo.

Logo ao lado, a vista noturna e encantadora do rio Sena. Para voltar para casa, passamos pela Fontana Saint Michel. Chegamos à estação de metrô, onde os trens saem de 2 em 2 minutos, quando escuto uma voz feminina chamando "Sandrine! Sandrine!". Não era possível haver alguém conhecido em Paris, àquela hora, naquela mesma estação - pensei. Era Elaine, Rogério (meu primo e padrinho) e os três filhos. Coincidência é pouco. Pegamos o mesmo trem.

27 de mar. de 2009

Is time to say goodbye

23.02.09 Segunda-feira e meu último dia na Upstream. Depois do almoço, Natia me levou ao segundo andar para fazer um tour pela DDB e me despedir das meninas da yoga. Não tinha como ser diferente: foi dia de dizer tchau para todo mundo que esteve presentes nestes últimos meses.

Peguei o ônibus pela última vez, me despedindo daquela paisagem que deixaria de fazer parte da minha rotina. Como o metrô entrou em obras, Claudia e Fabiana pegaram o mesmo e nos depedimos ali mesmo, em movimento. Fiquei arrumando as malas até não aguentar mais e me render a minha última noite de sono em Atenas.

24.02.09 Mesmo sentando em cima da mala várias vezes, tive que deixar algumas coisas por lá. Saí correndo com duas bagagens gigantes, mais duas bolsas até descobrir que o ônibus do aeroporto não para naquele ponto. Então peguei um táxi morrendo de calor, porque vestia todos os casacos possíveis (pois não caberiam em outro lugar) e segui rumo a Paris.

Vicenza Venezia Murano Burano Milano Athina

20.02.09 - Dormi muito pouco esta noite. Fui de mala e cuia pegar o trem para Veneza, onde deixei minhas coisas no locker da estação.

Iniciei meu segundo e último dia por lá seguindo em direção ao gueto, situado em Cannaregio, um dos bairros mais modestos e cuja residência foi imposta e reservada aos judeus antigamente. De lá, um longo caminho até chegar ao ponto de saída do vaporetti, barco que vai até a ilha de Murano, a qual durante algum tempo chegou a ser a maior produtora de cristal da Europa. De lá, mais um vaporetti até Burano, ilha conhecida por suas casinhas coloridas. Hora de voltar a Veneza e pegar o trem para Milano. Só o passeio pela Lagoa Veneziana já vale a pena.

Eu estava exausta e tinha dormido muito pouco, mas os gatíssimos que frequentavam aquele trem eram de tirar o sono. Fortes, grandes, morenos, de olhos claros e estilosos, não faltam adjetivos para descrever um italiano de verdade.

Claudia tinha enviado uma mensagem de manhã cedo, dizendo que minha mãe estava preocupada, pois não havia dado notícias. Como o meu celular não enviava mais nada, e ia demorar até chegar em Milão, vesti minha máscara de cara-de-pau e pedi um celular aleatório emprestado para dizer que estava tudo bem.

Cheguei à segunda maior cidade da Itália completamente perdida. Queria ver o Duomo, então desci de mala escada abaixo até achar o metrô. Antes de saber exatamente onde estava e para onde ir, encontrei quatro brasileiros, que me ajudaram a comprar o ticket da máquina, enquanto encontramos mais dois conterrâneos. Coincidentemente, todos iam pegar a mesma linha e estavam indo para o mesmo lado. Até tiramos uma foto verde-amarela dentro do metrô.

Chegando na estação, a Catedral ia se impondo a cada degrau que subia. A arquitetura externa é estonteante. Mal deu tempo de posicionar a máquina fotográfica e um jovem italiano se ofereceu para tirar uma foto. Ficamos conversando e ele me levou para dar uma volta até o Castello Sforzesco, e como um bom cavalheiro, foi levando a minha mala. Ele estava na missa no Duomo com os amigos, mas como ele tem taquicardia, teve que dar uma saída pra tomar um ar.

Caminhamos pelas ruas de Milão, enquanto ele me contava, com seu inglês esforçado, que é de Udine, na região de Vêneto (lembro que passei por lá de trem). Era perceptível o amor que ele tinha à sua cidade, só estava em Milão por causa da faculdade. Ele dizia que Udine era o máximo, que em Udine ele podia ver as estrelas no céu.

Voltamos para o fim da missa. Me despedi e saí correndo para pegar o metrô de volta ao zentrale station e brincar de procurar o lugar de onde sai o shuttle para o aeroporto de malpensa. Já dentro do ônibus, chegou um senhor perguntando se alguém falava alemão e como ninguém deu sinal de vida, falei que podia ajudar. Ele trazia uma mulher e a sentou próxima de mim, pediu que eu a ajudasse pois o vôo dela era bem mais tarde. Praticamente gritou várias coisas pra moça, o que me fez pensar que devia ser uma filha mimada e reprimida de uma conservadora e tradicional família alemã.

22.02.09 Assim que chegamos ao aeroporto de Malpensa, descobri que a tal moça na verdade tinha 42 anos, uma linda filha de 15, é cantora profissional e estava na Itália a trabalho. Ela só falava alemão e eu tive que pegar uma pá e uma inchada bem grande pra desenterrar essa língua da minha cabeça.

O Terminal 2 do aeroporto estava praticamente lotado de pessoas dormindo. Já tinha visto a dica no site (sleepingatairports.com) que o Malpensa é ótimo para dormir, pois os bancos não tem aquele apoio para os braços, então você pode deitar com todo o conforto. Pelo jeito todo mundo já sabia disso, porque era meia noite e a gente simplesmente não encontrava um lugar para sentar. Entre jovens e velhos esparramados em sono profundo naqueles bancos, encontramos uma região um pouquinho mais afastada que tinha lugar. Haviam pessoas jogando baralho, escutando música, conversando e até mesmo roncando alto. Tirei o sapato, fiz do casaco travesseiro, peguei o lençol, tapa-olhos, ipod, agarrei minha bolsa como se eu tivesse 5 anos e ela fosse meu ursinho de pelúcia predileto e tentei dormir. Consegui tirar um cochilo, entre os barulhos aleatórios que um brinquedo infantil soltava a cada meia hora. Até tentaram tirar da tomada, mas não teve jeito. Devia ser quase 3 horas da manhã, quando ouvi vozes na língua portuguesa. Era Adilson e André, dois brasileiros muito queridos que também estavam indo para Atenas.

Ficamos conversando até abrir a cafeteria. Adilson mora em Torino, dá aulas de informática numa escola e André estuda medicina no interior de São Paulo, estava fazendo um estágio na Europa e naquele momento estava só viajando. Eles são da mesma cidade e se conhecem desde pequenos. Estavam indo a Atenas a turismo e dei todas as dicas possíveis da Grécia. Fizemos o checkin na easyjet, companhia aérea de baixo custo que eu estava experimentando pela primeira vez.

É bem engraçado porque não tem poltrona marcada então todo mundo sai correndo pra pegar lugar. Eles geralmente fazem overbooking, então quem chegar por último corre o risco de ter que esperar o próximo vôo. E convenhamos que quem dormiu no aeroporto pra pegar o vôo das 6h45 da manhã não ia querer perdê-lo de jeito nenhum. Mas o mais engraçado é que todo mundo presta atenção nas orientações de segurança em caso de emergência. Deve ser o medo de voar com essas companhias aéreas. Entre as poltronas mais esprimidas que já experimentei e que sequer reclinam, dormi a viagem inteira. Pelo menos não corri o risco de perder o serviço de bordo, que nesse vôo é claro que também não tinha.

Cheguei em casa quase 11h da manhã, por causa da diferença de fuso horário. Dormi o dia inteiro. Como era meu último fim de semana em Atenas, resolvemos sair. Eu ainda estava morta da viagem, e fomos parar num fim de mundo onde havia uma festa brasileira carnavalesca. Desistimos da idéia de entrar e fomos num bar em Glyfada, com direito a blackout e barraco.

22.02 No dia seguinte, encontrei Anastacia e Despoina no Mamaka's, uma taverna contemporânea e caríssima que fica em Keramikos. O futuro Primeiro Ministro da Grécia estava na mesa ao lado e veio cumprimentpa-las, pelo que elas falaram agora ele é da oposição. Depois de saborear diversos pratos típicos gregos, partimos a pé para um lugar só de sobremesas típicas com sorvete. Deliciosamente doce. Voltei pra casa no fim da tarde, ainda muito cansada e com a missão de colocar uma casa em duas malas.

12 de mar. de 2009

É carnaval em Veneza

19.02.09 Massimo é uma pessoa difícil de descrever. Sua casa e sua vida são constantemente compartilhadas com couchsurfers de todo o mundo. É um vício que começou há 5 meses (ele está próximo de completar seu centésimo hóspede) sem prazo para terminar. Praticamente todo dia tem algum viajante de alguma parte do mundo hospedado em sua casa, quando não 7 pessoas ao mesmo tempo (o recorde, segundo ele). Ele não despreza ninguém, se for necessário, coloca um colchão no chão da cozinha e está tudo resolvido. Seu altruísmo e habilidade em compartilhar sua rotina de trabalho com tantas pessoas diferentes me surpreenderam, assim como a confiança que deposita em todos esses seres desconhecidos que vem parar na porta da sua casa. Por falar em porta, ele tem várias cópias das chaves que deixa com todos os hóspedes, além de vários mapas da região, pilhas de toalhas, pacotes enormes de papel higiênico e sabonete à disposição, tudo bem organizado para nos recepcionar da melhor forma possível.

Acordo cedo para pegar o trem e agradeço ao Universo por estar chegando ao carnaval mais famoso da Europa. Eu mal podia acreditar que estava naquela cidadezinha que tanto ouvi falar, tão poética quanto turística, exibindo o charme de seus numerosos canais, que fazem qualquer um se perder entre paisagens tão lindas quanto melancólicas.

O carnaval de Veneza é conhecido pela beleza das máscaras. É uma delícia se entregar em suas ruelas, contemplando cada detalhe pitoresco que se revela diferentemente belo a cada ângulo. O Sol parecia contente em iluminar aquela cidade e fui caminhando com uma energia sem igual até a Piazza San Marco. Visitei a Basilica di San Marco, e bem ao lado, entrei no Palazzo Ducale, símbolo da cidade de Veneza e uma obra-prima do gótico-veneziano. O palácio atual, construído entre 1309 e 1424, foi a residência do Doge de Veneza e contém os escritórios de várias instituições políticas, entre eles a sala del Maggior Consiglio, que é a principal e é illuminada através de sete grandes janelas ovais. Dentro de suas enormes dimensões de 53 metros de comprimento por 25 de largura (que faz dela uma das mais vastas da Europa) eram realizadas as reuniões do Maggior Consiglio, assembleia soberana do Estado veneziano, onde até 2000 membros compareciam. Além da "Escada de Ouro", projetada por um famoso arquiteto e escultor do Renascimento italiano, os tetos também me surpreenderam, mais uma vez.

Bem próximo ao Palácio, subi na Campanile di San Marco, onde pude apreciar toda a bela Veneza e as ilhas próximas de cima, num visual de encher os olhos naquele dia ensolarado. Em seguida, continuei minha caminhada despretensiosa, explorando cada parte desse lugar mágico, até chegar ao museu Peggy Guggenheim. Colecionadora e sobrinha de Salomon R. Guggenheim, (fundador do museu em Nova York que leva o seu nome - por isso a semelhança), Peggy adquiriu obras dos artistas contemporâneos mais importantes, entre eles Pablo Picasso e Vasili Kandinsky, e hoje é um dos mais importantes museus na Itália, cuja coleção envolve cubismo, surrealismo e expressionismo.

Depois de andar por quase toda Veneza, resolvi seguir o cronograma de eventos carnavalescos que estava acontecendo por todos os cantos. Depois de mais uma longa e prazerosa caminhada, cheguei em uma Piazza, onde pude provar quentão e uma espécie de sonho típico veneziano for free, e de lá saí correndo até a Piazza San Marco novamente, onde havia apresentações de música, teatro e outras atrãções. Já estava escuro quando continuei a completar a segunda volta a pé por toda a Veneza em um dia, correndo desta vez até Dorsoduro, onde havia uma apresentação artística muito interessante, que mistura dança, teatro, acrobacia, pernas de pau e muito fogo. Provei o famoso spirit, drink com martini, e curti um pouco da festa com DJ até o horário do último trem de volta a Vicenza. Para chegar até a estação, fui caminhando junto a uma menina que mora em Veneza e que foi super gentil em me orientar até lá.

No trem havia uma turma de intercambistas que estudavam em Padova, entre eles uma albanesa que estava muito bêbada e não parava de repetir "life is long but life is short as well", que fazia todos rirem.

Cheguei em Vicenza um pouco antes da meia noite sem a menor idéia de como voltar para casa a pé, já que não havia mais ônibus. Estava muito frio, e saí andando na direção que julguei correta, e para minha sorte grande, havia uma menina andando naquela cidadezinha pacata, especialmente neste horário. Pedi informação, e com mais um pouco de sorte, ela falava um ótimo inglês. Ela ama idiomas e trabalha com tradução. Notou que eu estava perdida e fomos juntas conversando. Que sorte - mais uma vez - ela estava indo na mesma direção que eu e tive que andar apenas uma ruazinha sozinha até reconhecer a casa de Massimo.

Chegando "em casa", Massimo havia acabado de jantar com um mexicano e uma sueca que chegaram hoje e estavam me esperando para preparar uma caipirinha, acompanhada de um drink preparado com a melhor tequila mexicana. Ficamos conversando até as 3h da manhã e me despedi de Massimo, pois no dia seguinte iria mais vê-lo.

11 de mar. de 2009

A Torre de Pisa

18.02.09 Troquei a idéia de ir ao outlet das famosas grifes italianas (até porque minha mala não suportaria) e resolvi ir para Pisa. Me despedi de Davide e peguei um ônibus até a estação de trem. O próximo sairia em 5 minutos, o que me impediu de deixar a mala no locker antes de embarcar. Não há sensação igual à liberdade de fazer o que você quer, ir pra onde você tem vontade e fazer do seu destino um spaghetti a carbonara, como se a Itália fosse um grande cardápio de massas.

Saí correndo para pegar o trem com aquela mala enorme, sentei próxima à porta e a um simpático, porém um tanto retraído, casal de ingleses. Chegando na estação, saí em busca da left luggage room e tentei achar o ônibus que me levaria até a Torre. Até achei o ônibus, mas não o lugar para comprar o ticket e eu não estava com a menor vontade de voltar a estação. Então resolvi utilizar meu "rebuscado" italiano com a mulher da padaria da esquina para pedir direções a pé até lá.

Estava um lindo dia de Sol, o que tornou meu passeio por Pisa ainda mais agradável. Passei por uma praça, uma ponte e algumas ruas com pequenos comércios, onde tomei meu café-da-manhã quase em horário de almoço. Mais adiante, comprei um par de luvas e continuei em busca da torre torta mais famosa do mundo. Já não sabia mais se estava indo na direção certa, e em certa altura perguntei a uma Senhora, que apresentava certa dificuldade para andar e um par de óculos de sol um tanto demodé, aonde ficava a dita cuja. Ela me agarrou pelo braço e deu meia volta, desviando-se do seu caminho original. Atravessamos a rua e ela apontou gentilmente para o lado esquerdo, como quem vai mostrar onde está escondido o doce para uma criança: lá estava ela, a Torre de Pisa.

A visão da torre torta, destacando-se entre outras pequenas construções da cidade, foi mágica. Já que tinha ido até lá - pensei - era obrigada a subir, até porque não há nada mais o que fazer por lá. Depois de 292 degraus, estava no topo, o que foi um tanto sem graça, porque lá de cima não dá pra perceber que, de fato, é torto.

Volto andando novamente, porém por outro caminho. Perguntei a um estudante italiano (Pisa é uma cidade universitária) qual o melhor jeito de voltar à estação e ficamos conversando até que nossos caminhos se divergessem.

Chegando em Firenze, pego o próximo trem a Vicenza, onde chegaria por volta das 19h. Liguei para Massimo, meu próximo host do couchsurfing, que gentilmente me buscou na estação. Ele também fala português, pois já morou em Portugal e preparou com capricho para o jantar polenta com carne moida e mushrooms. Bebemos vinho e conversamos até tarde.

Um dia (de chuva) em Firenze

17.02.09 Como Davide trabalha, preciso sair de casa antes de ele sair e voltar depois que ele já estiver em casa, pois não tenho as chaves.

Depois de belos dias de sol, infelizmente estava chovendo no dia de visitar Florença. Peguei o guarda-chuva e um ônibus até a Piazza San Marco, onde tomei um capuccino com panini para acumular energia para um longo dia que estava apenas começando.

Primeiro, uma pequena fila na Galleria dell'Accademia, onde está uma das esculturas mais famosas de Michelangelo - David. O trabalho retrata o herói bíblico com realismo anatômico impressionante e é considerada uma das mais importantes obras do Renascimento e do próprio autor. A escultura é enorme, mede 5,17 m e Michelangelo levou três anos para ser concluida (de 1501 a 1504). O artista foi inovador nesta obra, pois retrata David não após a batalha contra Golias (como outros antes dele fizeram), mas no momento anterior a ela, quando ele está se preparando para enfrentar uma força que todos julgavam ser impossível de derrotar. É o máximo dar uma encarada olho-a-olho na expressão daquele imenso David no meio da galeria.

De lá parti para o Duomo, uma bela catedral, cujo teto (ai esses tetos) são também de impressionar, além do visual externo. De lá, uma fila não muito extensa, porém demorada para entrar na Galleria degli Uffizi, um palácio que abriga um dos mais famosos museus do mundo.

A Uffizi é grande e dividida em salas e ambientes, cerca de cinqüenta, algumas dedicadas aos maiores artistas do Renascimento, como Leonardo da Vinci e Rafael, salas com arte clássica da Roma antiga. A verdade é que tomei um chá de museu e arte renascentista em Florença, o que me levou a exaustão, até porque não é o tipo de arte que aprecio, apesar de ter me encantado com as telas ‘’Primavera’’ e ‘’O Nascimento de Venus’’ de Boticelli. Depois de alimentar meus olhos, eu merecia um crepe de chocolate antes de continuar a explorar essa simpática cidadezinha da Toscana chamada Firenze.

Passei pela Basílica Santa Croce, onde meu guarda-chuva virou do avesso de tanto vento, atravessei a Ponte Vecchio e subi até a Piazza Michelangelo, de onde se tem a mais bela vista de Florença. Já estava escurecendo quando entrei no Pitti Palace e tinha muito pouco tempo para ver tudo antes de fechar. De fato, fui a última a sair, junto a mais um casal, sendo perseguida pelos funcionários do Museu, que iam trancando as portas de cada ambiente que deixávamos para trás, além do alarme que começou a tocar.

Fui a Piazza S. Spirito jantar uma pasta carbonara acompanhada de vinho branco e já era tarde quando vi a mensagem de Davide perguntando se eu queria chegar antes de ele sair pro jantar de trabalho. Só o que me restava era esperar, então resolvi seguir a dica da Sara, uma amiga italiana, e fui ao pop art bar que se localiza na mesma praça.

Era um pouco tarde quando Davide me avisou que já estava em casa, e já não havia mais ônibus até a casa dele. Peguei um que ia até SMN (a estação de trem) e de lá fiquei perguntando para vários motoristas, mas nem eles sabiam que ônibus tinha nesse horário nem onde pegar. Então arrisquei um para a Piazza San Marco, rezando para que de lá ainda houvesse alguma saída. Assim que desci do ônibus, apareceu o 67 que eu tinha visto no mapa ou simplesmente tive o feeling de que poderia passar por perto, e fiquei entre perguntar ou tentar esperar pelo ônibus certo que não ia chegar nunca. A porta estava quase se fechando quando gritei o nome de uma rua próxima a de Davide, com meu forjado sotaque italiano. O motorista entendeu que era um outro lugar e disse que não passava lá, mas para minha sorte, um senhor nos interrompeu. Repetiu claramente o nome e disse que neste horário, só este ônibus passava por perto. Doce anjo que caiu do céu. Pulei dentro do ônibus, mostrei o mapa a ele para me ajudar a descobrir aonde deveria descer. Com um pouco mais de sorte, ele ia parar no mesmo ponto que eu e me mostrou o caminho com toda a boa vontade do mundo. Grazie mille. Chegando em casa, mostrei as fotos para Davide, tomei banho e capotei.

A primeira vez a gente nunca esquece

16.02.09

Último dia em Roma. Já está dando saudade. Logo cedo, entrei na fila do Museu do Vaticano, que hoje estava aberto, e o que posso dizer é que esse lugar é único. O que mais me impressionou foram os tetos, eu praticamente andava olhando pra cima. Depois de um longo percurso lá dentro, finalmente chega-se ao gran finale: a capela sistina. Imagine fazer de quatro paredes e principalmente o teto, quase que várias telas gigantescas, é um lugar inteiramente feito de arte. A capela foi construída entre 1475 e 1483, e as paredes e o teto são todos decorados com diversos afrescos, que remetem ao Velho e ao Novo Testamento. As pinturas mais famosas são de Michelangelo, como as que retratam o Juízo Final.

Depois da cansativa visita ao Musei Vaticani, voltei a maior Basilica do mundo, a de San Pietro, dessa vez para ver as tumbas. É um tanto mórbido ver as numerosas tumbas de Papas entre os quais João Paolo II, e fiquei imaginando que a última coisa que eu gostaria depois de morrer é ser enterrado dentro de uma sala fechada, sendo perturbado por milhares de turistas barulhentos, cujo inspetor não parava de pedir silêncio o tempo todo.

Saindo de lá, segui a via Conzolazione até chegar ao Castelo de Sant'Angelo e à ponte degli angeli. Pausa pra um gelato originalmente italiano e mais uma vez encontrei a mesma família brasileira, que aliás já tinha visto hoje na fila da Basílica. Fui direto pra "casa", terminei de arrumar a mala e parti para Termini para pegar o trem rumo a Firenze.

A viagem seguia tranqüila, exceto pelo fato de eu estar um pouco ansiosa pelo o que iria encontrar pela frente. Resolvi experimentar o couchsurfing, uma espécie de site de relacionamento entre viajantes do mundo inteiro. Quem tem um sofá, uma cama ou um colchão sobrando e tem vontade de conhecer pessoas de todo o lugar do planeta, simplesmente oferecem a sua casa para alguém que eles nunca viram na vida se hospedar. Para um brasileiro pode soar estranho, considerando a desconfiança e a violência que impera no nosso país, mas na Europa está bem na moda eu não imaginava como essas pessoas que estavam a minha espera poderiam me surpreender.

Foi chegando em Florença que o "inspetor" de tickets de trem apareceu e percebeu que uma menina de cabelos vermelhos que viajava sozinha para algum lugar distante dentro de seus fones plugados nos ouvidos tinha esquecido de validar a passagem antes de embarcar. Amadorismo puro, mas eles devem estar acostumados a esses turistas desavisados. Eu dei uma de chinesa, e como ele não falava inglês e eu não falo italiano, ele não deu lá muita importância. O fato é que haviam outras duas meninas italianas por perto, que estavam loucas pra arranjar um motivo para conversar comigo e descobrir daonde eu era. Achado o pretexto, uma delas falava muito bem inglês e ficamos conversando até eu comentar que meu celular não estava funcionando mais e eu precisava entrar em contato com o meu primeiro host do couchsurfing.

As meninas foram mais do que legais e gentis, ligaram para Davide, discutiram qual era o melhor caminho para eu chegar na casa dele, me deram várias dicas e chegando na estação, uma delas saiu correndo pra lá e pra cá até descobrir onde era o ponto do ônibus que eu deveria pegar. Os italianos me surpreendem cada vez mais com a sua fraternidade e gentileza característica. A sensação que tenho é que quando um italiano conhece uma pessoa, ele a adota, nem que seja só por aquele momento e age como se você fosse da mesma família.

Paguei incríveis 2 euros pelo ticket do ônibus e desci com a minha mala na escuridão das 11 horas de uma noite de segunda-feira em Florença, em uma rua completamente inanimada. Segui as direções enviadas pelo site, dei mais alguns passos e encontrei a casa de Davide.

Toquei a campainha. Alguns segundos de silêncio. A porta se abriu. Eu estava num estreito corredor que dava para uma escada à direita. Subi dois lances com certo esforço por causa da mala, até chegar numa porta semi-aberta. Deve ser aqui - pensei. Entre exatos três segundos que antecedem o movimento da porta, confesso que a ansiedade e o medo vieram a tona e eu não sabia mais o que estava fazendo ali. A porta finalmente se abriu e um sujeito um pouco baixinho, magro e com um certo ar melancólico apareceu. Era Davide me desejando boas-vindas e perguntando como foi a minha viagem, num bom português.

Davide é o italiano mais brasileiro que já conheci, ele já morou no Nordeste do nosso país por 5 meses e realmente impressiona com o domínio da língua, das gírias, sem perder, é claro, o sotaque italiano.

Mas algo me fez estremecer. Logo que entrei na sua casa, olho à direita, e ao lado da televisão, havia uma arma. Era uma arma de verdade. E não era nem pequena. Estava ali, do lado do mais comum eletrodoméstico, tão largada quanto um controle remoto. Pensei em perguntar sobre o motivo de aquilo estar ali, mas achei melhor não comentar.

Davide estava cozinhando uma pasta ao pesto para nós, enquanto fui tomar um banho. Percebi então que haviam duas manchas vermelhas, uma na parede e outra no chão do chuveiro. Não deu pra evitar que as cenas de Psicose viessem a minha mente. Peguei um pedaço de papel para ver se estava "fresco". Foi então que percebi que as janelas eram pintadas de vermelho, e provavelmente aquilo era apenas tinta que pingou e ficou por ali mesmo. De qualquer forma, o chuveiro era ótimo, afinal, era finalmente um chuveiro de verdade.

A pasta estava muito boa, mas o vinho com um sabor um pouco estranho. A arma de fogo ainda me incomodava, eu nem conseguia mais olhar para ela, como se isso fosse fazê-la deixar de existir.

Davide é também artista, pinta quadros e uma das telas estava exposta na sala, acima da mesa de jantar. Um simples buraco de fechadura retratado em contraste entre claro e escuro, o que me fez traçar um perfil psicológico um tanto assustador, imaginando que ele poderia trazer hóspedes do mundo inteiro simplesmente para alimentar um possível voyeurismo.

Apesar das minhas suposições talvez injustas, alimentadas por aquele objeto assassino compartilhando o ambiente, tivemos uma noite bem agradável. Davide me mostrou uns vídeos brasileiros no youtube muito engraçados (quando eu ia imaginar que um italiano ia me mostrar algo como "Tapa na Pantera"?) Alguns eu nunca tinha visto, incluindo a última entrevista do Raul Seixas no Programa do Jô Soares, clipes do Cazuza e outras relíquias como mamonas assassinas no Domingão do Faustão. Ele me mostrou também boas músicas italianas e depois chegou a hora de dormir. Como Davide estava a procura de um roomate, eu tinha um quarto só para mim, a cama era bem confortável e o cansaço era tanto que nada me impediu de ter uma boa noite de sono.

O Papa é pop

15.02.09

Mal saí da estação de Otaviano, encontrei a família brasileira que conhecemos no Coliseu e foi assim que fiquei sabendo que, em pleno domingo, o museu que eu queria ir estava fechado. Então parti para o Vaticano, onde finalmente arranjei um mapa de Roma e fiquei ali sentada sob o sol nas escadas, tentando traçar o melhor caminho do dia. Um menino conversava com uma Senhora em inglês, e logo reconheci seu sotaque brasileiro. O gaúcho estava mais perdido do que eu, mas foi gentil em tirar uma foto.

Encarei a fila da missa de domingo na Basílica San Pietro e subi até a cúpula, sem saber que uma vista incrível estava a minha espera. Nunca passei por tantos degraus na vida. Chegando ao topo, só havia uma corda para se apoiar na subida em espiral, mas o que os olhos vêem não deixam mentir que vale a pena o esforço. Por estar na cúpula apreciando a bela Roma de cima, acabei perdendo o que muita gente estava esperando pra ver: o Papa dando "ciao" pela janela.

Combinei de encontrar com a Gi em Termini novamente e de lá fomos a Fontana di Trevi, que mesmo poluída de gente, me encantou naquela linda tarde de sol. Não encontro palavra melhor para descrever: é simplesmente lindo. Joguei a moedinha de praxe e fiz tantos desejos quanto quis, pois tentei perguntar como era a tradição á três pessoas diferentes, mas só havia turista ou chinês que não falava qualquer língua compreensível e ficavam me olhando, pensando o que essa doida está querendo perguntar.

De lá, chegamos ao Quirinale, a residência do Presidente, cargo abaixo do Primeiro Ministro, porém é onde ocorre a clichê troca da guarda para turista ver. Foi bem engraçado, mas no fim acabei chorando só de ouvir a banda tocar.

Mais uma caminhada até o Pantheon, “templo de todos os deuses”, a construção antiga mais conservada de Roma. No topo, uma abertura redonda é a única passagem de luz. Quando chove, um sistema de aberturas no piso canaliza a água pra rua. A arquitetura e engenharia dos romanos são mesmo surpreendentes.

Passamos novamente, porém à luz do dia, pela Piazza Navona, onde tirei uma foto com a nossa querida bandeira verde-amarela na frente da embaixada. Fui então surpreendida por um mar de turistas não-brasileiros empolgados que me viram tirando a foto e resolveram, calorosamente, juntar-se a mim. Tanta gente que mal dá pra me achar na fotografia.

Então caminhamos até a minha praça preferida, a Piazza del Popolo (popolo = povo). Ela é grande, espaçosa e tem estátuas de leões entre os chafarizes. Já era noite quando pegamos o metrô para a Piazza Spagna, que não tem nada demais, e resolvemos fazer mais uma visita a Pizzaria Baffeto.

10 de mar. de 2009

Uma real luta de gladiadores

14.02.09

O apartamento de Natia é muito bem-localizado numa região nobre de Roma e está apenas a uma estação de metrô de Otaviano, pertinho do Vaticano. Paulo foi muito gentil em me levar até a estação, que aliás era bem perto de casa, mas como ele não fala inglês e eu não falo italiano, a única alternativa era mostrar pessoalmente.

Combinei de encontrar com a Gisele em Termini, que está em Roma há apenas uma semana e também quer conhecer todos os pontos turísticos. Ela vai permanecer durante dois meses pois está fazendo um estágio em medicina, então pudemos aproveitar o fim de semana juntas. Como ela estava atrasada, fui comprar minha passagem para Firenze e depois almoçamos e acabei provando um McNapoli bem meia-boca.

De Termini pegamos um ônibus até a Piazza Venezia e fomos andando até o Colosseo, onde tivemos a sorte de presenciar uma real luta de gladiadores. Há varios senhores fantasiados de "Júlio César" para tirar foto ali por perto e um turista albino começou a implicar com um deles. Como não falavam a mesma língua, ficavam se encarando e soltando "murros" tipo: "UMM" cara-a-cara, face-a-face, e a fila do coliseu inteira já estava observando para ver no que ia dar. E não deu outra: partiram para a agressão física e outro "Júlio César" se meteu no meio, soco pra lá, multidão se afastando, nariz sangrando e nenhum segurança ou policial por perto pra acabar com a brincadeira.

Nosso guia falou que o incidente não fazia parte do tour e pediu que entrássemos logo, pois dessa vez a Gi e eu pagamos mais para pular a fila e ter alguém explicando tudo. E pela primeira vez valeu a pena, pois o guia contou histórias e fatos bem interessantes. Segundo ele, se há um lugar no mundo em que mais mortes ocorreram e sangue foi jorrado, este lugar é o Coliseu.

O mais famoso símbolo do Império Romano, o Coliseu era um enorme anfiteatro reservado para combates entre gladiadores ou opondo esses guerreiros contra animais selvagens. Sua construção foi iniciada no ano 72 d.C. e as obras levaram oito anos para serem concluídas. Os primeiros combates disputados para comemorar a conclusão do Coliseu duraram cerca de 100 dias e se estima que, só nesse período, centenas de gladiadores e cerca de 5 mil animais ferozes morreram em sua arena de 85 por 53 metros. As lutas levavam o público ao delírio. Suas arquibancadas, construídas a partir de 3 metros do solo, acomodavam mais de 50 mil pessoas. Um camarote bem próximo à arena era destinado ao imperador de Roma, que era reverenciado pelos gladiadores antes dos espetáculos com uma saudação que se tornaria famosa: "Salve, César! Aqueles que vão morrer te saúdam".

Durante a Idade Média, o mármore e o bronze de sua estrutura foram sendo saqueados aos poucos (o que é bem perceptível) e usados para ornamentar igrejas e monumentos católicos. Algumas peças de mármore foram empregadas até na construção da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

É incrível olhar pra arena e imaginar o que representava esse espetáculo naquela época. Imagine-se vivendo, há tanto tempo atrás, sem comunicação, sem fácil acesso a outros lugares do mundo, e poder ir de graça assistir a centenas de animais ferozes, como leões, panteras, leopardos e elefantes vindos da África e outras partes (animais que jamais haviam visto) sendo primitivamente mortos por gladiadores ou seres humanos reais sendo engolidos por um deles na sua frente. Como disse o guia em relação ao entretenimento, "naquele tempo a realidade se sobrepunha a imaginação e hoje a imaginação está acima da realidade". Um fato bem interessante, é que os animais podiam "aparecer" nos duelos a qualquer momento por um esquema de elevadores que surgiam em alguns pontos da arena.

Logo depois da overdose de informações, conhecemos uma família brasileira, cuja filha mora em Berlim. Muito simpáticos, acabei encontrando-os por acaso quatro vezes em Roma, durante meus singelos 3 dias na cidade.

Roma é belissima e sua grandiosidade, história e beleza me surpreenderam. Ficamos de encontrar Luca e Eleonora, pois faziam questão de nos mostrar um pouco da cidade. Encontramos com eles e seguimos pela via del Fori Imperiale, passando pelas ruínas da Roma Antiga, o circo massimo, onde eram realizadas as corridas de cavalo, boca verita, cujas cópias todo mundo já viu em algum shopping center (aquela cara de pedra que a gente coloca a mão dentro e a máquina "lê" o seu futuro), teatro marcello, ghetto e o Portico di Ottavio.

Depois, pausa para descongelar os dedos e saborear um doce crepe de nutella. Em seguida, caminhamos até o badalado Campo di Fiori e mais além, uma trégua de descanso em plena missa na Igreja Santa Maria Maggiore. De lá, entramos num restaurante árabe, do qual acabamos desistindo da idéia de ficar, mas que serviu de ponto de encontro para o Daniel. Fomos andando até a Piazza Argentina para irmos a um restaurante muito bom, tão bom que tivemos que ficar na lista de espera - do lado de fora - congelando.

Eleonora é muito querida e fez questão de deixar cada um em casa, mesmo de ônibus. Sábado a noite e Valentine's Day: os italianos estavam enlouquecidos dentro daquele meio de transporte coletivo. Era um barulho misturado com alegria, todo mundo interagindo, gritando, rindo e falando alto - um ônibus tipicamente italiano.

Quem tem boca vai a Roma

Sandro foi muito gentil em me buscar no aeroporto, em plena sexta-feira a noite, no trânsito maluco de Roma. Ele é italiano, mora em Florianópolis e é amigo de Natia, a italiana que trabalha comigo na Grécia e que foi também muito gentil em me oferecer a casa dela, mesmo não estando lá.

Quando chegamos ao apartamento, Paulo, o irmão da Natia que deveria estar a minha espera, havia saído. Fomos até o restaurante em que ele estava para buscar as chaves e voltamos. A minha pequena mala pesada de uma semana na Itália foi carregada pra cima e pra baixo. Acho que o Sandro não imaginava que alguém que ele mal conhecia daria tanto trabalho.

Sandro então me levou a melhor pizzaria de Roma, chama-se Bafetto, que significa "bigodinho". Difícil foi encontrar um lugar para estacionar. Roma, assim como Atenas oferece esse desafio constante a quem se atreve a ter um automóvel. Encontramos lá dois amigos italianos, Luca e Eleonora, o namorado brasileiro Daniel, e a amiga dele Gisele, que depois de 10 anos sem se ver no Brasil, foram se reencontrar em Roma.

Provei a pizza capricciosa, com direito a ovo frito e alcachofra, acompanhado de cerveja italiana. A massa é bem fina e ainda assim consistente, da prá dobrar e comer como se fosse calzone, enquanto a combinação absurda e suculenta do recheio escorre a cada mordida: é uma delícia.

De lá, logo ao lado, entramos num barzinho brasileiro chamado clan br. Tomei uma caipirinha clássica e depois encaramos o frio do inverno mais rigoroso da Itália dos últimos anos. Passamos pela Piazza Navona, onde tem o belíssimo edifício da embaixada brasileira. A sensação térmica era de doer os ossos, não conseguir sequer falar direito e só pensar em chegar logo a um lugar cuja temperatura permita a sobrevivência humana.

23 de fev. de 2009

Última semana

mSegunda-feira saí novamente à caça de roupinhas de bebê, dessa vez por encomenda, para uma amiga da minha irmã. Depois passei na casa da Cláudia, pedimos pizza e ganhei de presente 4 litros de azeite de oliva especialíssimo para levar ao Brasil.

Terça dia de supermercado e quarta-feira fui com a Claudia ao "Bodies exhibition", que esteve em São Paulo em 2007 e chegou em Atenas em fevereiro. A exposição é única e bem mais interessante do que os cadáveres que a gente vê na escola. De uma forma bem organizada e explicativa, podemos ver tudo o que tem dentro da gente: ossos, órgaos e músculos reais em diversas fatias, camadas e ângulos possíveis. Além disso, o sistema nervoso, como o sangue corre pelo corpo e os danos causados a determinadas partes por doenças ou hábitos específicos. Há uma seção que você pode pular se quiser, mas que não dispensei: a de fetos reais, etapas por etapas da gestação. Também não abri mão de tocar em um fígado e um cerébro humano, que estava a disposição de quem quisesse experimentar a textura do que está muito abaixo da nossa pele.

Quinta-feira arrumei as malas, pois no dia seguinte sairia direto do trabalho para o aeroporto rumo a Itália.

9 de fev. de 2009

Domingo

Domingo fui a Plaka novamente comprar os últimos souvenirs e depois encontrei com Michal. Comi um crepe de chocolate maravilhoso e ficamos conversando, assistindo ao anoitecer da Acrópole.

Nos despedimos e fui a Keramikos encontrar com Natia, minha amiga da Yoga e sua amiga Despina, que há quatro meses faz aula de português com um professor baiano e está indo passar 22 dias no Brasil depois do Natal deste ano. Ela me surpreendeu com o ótimo português, faz aula de capoeira e já fez aula de samba, além de se interessar por candomblé e orixá. Em resumo, Despina é mais brasileira do que eu.

Foi uma noite muito agradável e divertida. Conversamos quase o tempo todo em português, pois Natia fala um pouco de espanhol e italiano, então ela entendia bastante coisa. Bebemos vinho e petiscamos um enroladinho de frango com pimentão e molho agridoce saborosíssimo.

Salve o Korinthos

Patrik já havia voltado para Praga na semana passada, e essa sexta-feira foi o último dia de Michal. Agora Claudia e eu teremos a sala inteira só para nós, sabe se lá até quando.

Sábado peguei um trem para Korinthos, cidade que foi autônoma e soberana durante o período arcaico da história da Grécia. Desde aqueles tempos, Corinto era bem desenvolvida comercialmente devido à localização. Depois de anos de guerras de resistência ao domínio persa e de lutas entre os gregos pela hegemonia na península, Corinto, assim como as demais cidades independentes da Grécia, veio a fazer parte do Império Macedônio de Alexandre, o Grande, perdendo parte da autonomia antes existente.

A cidade é bem interessante, parece uma mini Atenas com cara de praia. Peguei um táxi até o sítio arqueológico, mas era tarde demais. Já estava fechado. Pelo menos deu pra ver de longe e já visitei tantas ruínas nesse país, que acredito que não vai fazer grande diferença.

Voltei ao centro e fui andando até uma praça, onde também fica o porto da cidade. Apreciei a paisagem e peguei um ônibus até o Canal de Corinto, que liga o Golfo de Corinto com o Mar Egeu. Ele passa pelo istmo de Corinto e separa a península do Peloponeso da parte principal da Grécia, tornando o Peloponeso uma ilha.

O canal possui 6.3 km de comprimento, e foi construído entre 1881 e 1893. Torna a locomoção de barcos pequenos na região mais fácil, pois assim elas não precisam dar a volta em cerca de 400 km, em torno do Peloponeso. Porém, por ter apenas 21 metros de largura, é muito estreita para cargueiros internacionais. Por isso, o canal atualmente é usado mais por barcos turísticos.

A primeira tentativa de construir um canal nessa região foi realizada pelo Imperador romano Nero, no ano de 67. Ele ordenou a 6 mil escravos que escavassem a região usando pás. No ano seguinte, Nero morreu, e seu sucessor, Galba, abandonou o projeto, por ser caro demais.

*** I Coríntios e II Coríntios
O cristianismo em Corinto é citado no Novo Testamento da Bíblia como uma das cidades visitadas pelo apóstolo Paulo em suas viagens missionárias. Paulo quando esteve lá, em sua segunda viagem missionária (At. 18:1-18), estabeleceu nela uma igreja e mais tarde escreveu duas epístolas aos cristãos dessa congregação cristã, dando-lhes vários conselhos pastorais.

*** Salve o Corinthians
Devido ao fato de Corinto ser sede dos Jogos Ístmicos, ela recebeu uma fama "esportiva", sendo homenageada em 1882 no nome do Corinthians, um clube renomado do futebol da Inglaterra no fim do século XIX e começo do XX, que significa "Coríntio", habitante de Corinto, em inglês. Devido a língua inglesa, freqüentemente a imprensa se referia aos jogadores do Corinthian, aos "Corinthians", que se tornou mais usado que o nome real do time.
Esse clube, em 1910, fez uma viagem ao redor do mundo para popularizar o futebol, indo inclusive ao Brasil, onde derrotou os grandes times do país na época, influenciando os operários que fundavam um novo clube de futebol em São Paulo, que seria chamado de Corinthians Paulista.

Great and bad news

Essa semana recebi a melhor notícia do ano: vou ser tia. E com o privilégio de ser a primeira a saber da novidade depois do papai, é claro. Não resisti e no dia seguinte já estava comprando
roupinhas para o bebê.

Sábado de chuva. Encontrei com Claudia e Vassili em Syntagma e fomos ao museu de Cyclades, onde encontramos a Bruna. Estava havendo uma exposição interessantíssima sobre cenas do cotidiano da Antigüidade, além da coleção permanente de arte das regiões cyclades.

Em seguida fomos almoçar em Kolonaki, numa pasteria deliciosa. Depois de vinho branco e spaghetti de salmão, resolvemos ir ao Planetário assistir às 7 maravilhas do mundo. A Bruna então foi para casa e nós emendamos um Festival de piano, onde a amiga de Vassilis estava se apresentando, junto a um saxofonista. De lá fui direto para a despedida da Sara e só cheguei em casa as 4 da manhã.

Domingo passei a tarde em Plaka gastando dinheiro com souvenirs e à noite recebi uma notícia muito triste: não poderei mais matar as saudades do meu cachorro. Aos 12 anos, Whisky nos deixou, mas também deixará ótimas lembranças, momentos únicos e sem dúvida, muita saudade.

26 de jan. de 2009

Delphos e Arachova

Sexta-feira dormi cedo para acordar no sábado às 5h30 da manhã e seguir, finalmente, rumo a Delphos. Cheguei na rodoviária às 7h25 (sendo que o ônibus partia as 7h30) e o atendente disse que este horário já estava lotado e o próximo era só às 10h30. Mais uma vez, mal podia acreditar. Que difícil ir a Delphos - pensei. Fiquei insistindo e conversando com a criatura, até que ele disse que eu poderia ir sem poltrona. "Can I go without seat? Great!" - enquanto comprava a passagem, um menino bonitinho se aproximou do balcão. Parte do seu violão escapava da mochila, e com uma voz interessante e num bom inglês pediu que trocassem a passagem dele. O senhor da rodoviária me sorriu: "You're lucky, you'll get his ticket". Perfeito. Embarquei no ônibus e sentei na poltrona 39, de onde só levantei depois de 3 horas e meia de uma soneca consistente.

Chegando em Delphi, garanti a passagem de volta e atravessei a rua para apreciar a bela paisagem do lago entre as montanhas. Segui em direção ao sítio arqueológico e, no caminho, parei para tomar café da manhã num hotel: toast e chocolate quente para esquentar.

Primeiro visitei o museu, pequeno e moderno, que exibe algumas peças interessantes. Sempre me impressiono com a arte desta época. Esculturas e peças artísticas muito bem acabadas, rica em detalhes e expressivas, datadas de até 450a.C. Depois, subi pelo sítio arqueológico, me deliciando entre as ruínas, a história e a paisagem.

Delfos era reverenciado por todo o mundo grego como o o centro do universo. Em épocas antigas, era o local de um famoso oráculo, que ficava dentro de um templo dedicado ao deus Apolo e predizia o futuro baseado na água ondulante e no sussurro das folhas das árvores. Este oráculo exerceu uma influência considerável e foi consultado antes de todos os empreendimentos principais como guerras e fundação das colônias. Era também altamente respeitada em países semi-helênicos como Macedônia, Lídia, Cária e Egito. O rei Creso da Lídia consultou Delfos antes de atacar a Pérsia e recebeu a resposta: "Se você o fizer, destruirá um grande império". Creso achou a resposta favorável, atacou e foi completamente derrotado (resultando, naturalmente, a destruição de seu próprio império).

Alegadamente o oráculo também proclamou Sócrates o homem mais sábio na Grécia, ao que Sócrates respondeu que, se assim era, isso devia-se a ser o único que estava ciente da sua própria ignorância. A afirmação está relacionada com um dos lemas mais famosos de Delfos, que Sócrates disse ter aprendido lá, γνωθι σεαυτον (gnothi seauton, "conhece-te a ti próprio"). Um outro lema famoso de Delfos é μηδεν αγαν (meden agan, "nada em excesso").

A maior parte das ruínas que lá sobrevivem datam dos séculos VI a IV a.C. O templo de Apolo era rodeado de várias capelas, chamadas de tesouros, pois guardavam os ex-votos e as oferendas das cidades-estado gregas, para comemorar vitórias dedicadas ao deus, ou para agradecer benefícios. De todos, o mais importante é o Tesouro de Atenas, hoje o único restaurado, construído para comemorar a vitória na Batalha de Maratona.

Como resultado destas valiosas doações, Delfos tornou-se um centro de grande riqueza e influência, e funcionava na prática como o banco da Grécia antiga. Mais tarde suas riquezas foram apanhadas por sucessivos conquistadores, sendo uma das causas do declínio da cultura grega.

Subindo mais um pouco, cheguei ao teatro, instalado na parte superior do complexo, que oferece uma vista panorâmica do vale de Delfos e de todo o santuário e podia receber até 5 mil pessoas.

Por fim, o estádio. Localizado na parte superior da encosta, ele foi construído originalmente no século V a.C. e podia acolher até 6.500 espectadores.

Depois de descer todo o sítio arqueológico, andei mais um pouco pela estrada até encontrar o santuário de Atena Pronaia, que foi erguido entre 380 e 360 a.C. e fica próximo ao gymnasium.

Já eram 3 horas da tarde quando voltei ao centro de Delfos para saborear um crepe salgado, vislumbrando a bela vista das montanhas. Em seguida, cheguei à "rodoviária" e perguntei se podia usar meu ticket para pegar o ônibus anterior, parar em Arachova e depois seguir de lá para Atenas mais tarde. O Senhor disse ok e por sorte, o ônibus chegou em 2 minutos.

Arachova é uma cidadezinha turística, devido a proximidade com Delfos e à presença de uma estação de esqui, muito bem freqüentada no inverno. Tem cerca de 4 mil habitantes e está numa altitude de 968 metros. Caminhei pelas ruazinhas, entre dezenas de lojas de ski, roupas, mercearias e artefatos turísticos até avistar as casas construídas nas montanhas. Um lugar muito agradável, aconchegante e perfeito para a estação mais fria do ano.

Pedi um waffle com sorvete e cobertura de chocolate num restaurante e peguei o ônibus de volta a Atenas as 18h30. Ao invés de ir direto pra casa, resolvi andar por Gazi, tomar uma taça de vinho branco e ver o movimento. Definitivamente, depois de andar o dia inteiro, simplesmente mereci mais um domingo acompanhada de filme e spaghetti.

Sales, goodbye and sunset

Quinta-feira começaram os descontos de até 70% nas lojas. Fui direto ao shopping depois do trabalho.

Sexta-feira teve a despedida de Andrej, o romeno psicopata, na casa dos tchecos.

Provei um licor tradicional da Rep. Tcheca, preparado a partir de 40 ervas, cujo sabor não era dos mais agradáveis e ficamos conversando ate as 5h da manhã, horário que eu me rendi a uma soneca no quarto de hóspedes. Entre a rápida aparição da romena Dana e o namorado grego, chegou também Alex, o venezuelano que trabalhava conosco, que já morou nos EUA e México, além da Grécia, e acabou de lançar um livro de crônicas de um imigrante.

Sábado fui às compras novamente, dessa vez no centro, e voltei pra casa cheia de sacolas.

Domingo decidi aproveitar o bom tempo e ir a Sounion, ver o Templo de Poseidon e o pôr-do-sol mais lindo da Grécia. Quando cheguei na estação de Monastiraki, a linha verde estava em manutenção. Tive que voltar a Omonia e de la fazer conexao ate a estacao de Viktoria e adivinhar pra qual direção tinha que andar até chegar na estação de ônibus que vai pra Sounion. Chegando lá, o senhor me falou que o onibus estava saindo naquele exato momento. Sai correndo loucamente, pois o proximo provavelmente so sairia em 2 horas.

O ônibus percorre um caminho encantador pelo litoral, passando por todas as praias e baías. Depois de 2 horas, cheguei à península onde localiza-se um dos templos gregos mais bem conservados, erguido em homenagem à Poseidon para proteger as águas gregas. De fato, os gregos sabiam escolher, há tanto tempo atrás, os lugares mais incríveis para construir esses templos: um paraíso para fotógrafos ou simples apreciadores da história, da natureza e da vida.

12 de jan. de 2009

Seja bem-vindo, 2009!

Segunda-feira encontrei com George novamente, e como terça aqui foi feriado assistimos DVD com pipoca. Quarta-feira, quando cheguei em casa nem acreditei que estava tudo arrumadinho e limpo, a faxineira me fez mais uma visita. O legal é que nunca avisam que ela vem, então é sempre uma surpresa.

Sábado foi o dia da festa de aniversário, name day e despedida da Oana, redatora romena. Na Grécia, assim como em vários países da Europa, eles comemoram o dia do nome, geralmente originado do calendário católico ou ortodoxo. Por isso que aqui todo mundo tem o mesmo nome, Giannis, Panayotis, Nikos, e por aí vai, são nomes de santos ou bíblicos. E tem que ser lembrado e comemorado que nem aniversário, então todo mundo tem motivo pra festejar pelo menos duas vezes ao ano. Como esta foi a última semana do Rodrigo, a festinha também serviu pra despedida dele. Depois, acabei indo com Patrik e a namorada tcheca até um lugar bem tosco, mas engraçado, com música árabe e mulheres dançando dança do ventre. Fiquei lá até o horário do primeiro ônibus, pois não estava afim de pegar um táxi.

8 de jan. de 2009

Kronia Pola

Acordei para trabalhar no último dia do ano, quando de repente toca a campainha de casa. Quem poderia ser a essa hora? - pensei. Abri a porta e dois garotinhos me olhavam, prontos para começar a cantar qualquer música de natal e tocar o tradicional triângulo que suas mãos seguravam. Já havia visto várias crianças realizando esta tradição em todos os lugares na véspera de natal, sendo que depois da cantoria temos que dar algumas moedinhas. No dia 24, Claudia e eu haviamos dado alguns euros a 2 crianças e depois as acompanhamos indo até uma senhora e entregando todo o dinheiro. Claro que sempre tem alguém se aproveitando da tradição e da boa fé alheia. Então desta vez dispensei e disse que não tinha tempo pois estava atrasada. Os meninos ficaram me olhando com cara de assustados, provavelmente porque inglês pra eles, é grego.

Último dia do ano e pra variar ainda não sabia o que ia fazer para celebrar a virada. Michal me convidou para a festa "tcheca" de fim de ano na casa deles, pois alguns amigos da Rep. Tcheca estavam hospedados lá. Mas acabei indo para a casa da Bruna, onde também estava a Mariana, e de lá fomos a uma festa num hotel muito charmoso chamado Athens Life Gallery. Geralmente o que tem de melhor em Atenas no reveillon são as festas em hotéis. A festa era só para convidados e a entrada custava 70 euros, open bar.

Chegando lá, parecia que eu estava no paraíso: nunca na minha vida vi tantos homens lindos por metro quadrado. Todos muito elegantes e bem vestidos, em perfeita harmonia com a sofisticação do ambiente. Champagne, vinho, vodka, whisky a vontade e alguns petiscos como frango e camarões empanados completavam a festa. Lá conheci a Marcia, que é assessora do Roupa Nova no Brasil e estava de férias em Atenas. Claro que comemoramos a virada as 4h da manhã, no horário em que o Brasil inteiro estava estourando a champagne e assistindo aos fogos de artifício. No fim da festa, todos já sabiam que éramos brasileiras, até o garçom do café da manhã que veio nos informar que o breakfast custava 30 euros.

Dormimos todas na casa da Bruna, por volta das 9h da manhã e acordamos no primeiro dia de 2009 com a ressaca usual, combatida por uma macarronada ao alho e óleo, preparado pela Bruna. Já era noite quando saímos de lá e fui direto pra casa para me regenerar.

Na sexta-feira ainda tive que trabalhar e mais tarde encontrei George, que conheci na festa do reveillon. No sábado, encontrei a Sara e seus amigos italianos em Monastiraki e fomos a um pub alternativo. De lá, acabamos indo para um baladinha minúscula, smoky e horrorosa, que nos fez ir embora rapidinho.

Domingo, dia de ficar de molho, cozinhar spaguetti e assistir filmes baixados na internet. Estou ficando especialista em macarronadas com poucos ingredientes.

*** uma contradição descoberta ***
Mover a cabeça no sentido lateral, de um lado para outro, em quase todos os países do ocidente, significa "não". Na Grécia, (assim como na Bulgária, Irã e Turquia), significa, por incrível que pareça, "sim". E quando querem dizer "não", eles levantam a cabeça - parece até desconfiança ou uma intimação: "vai encarar?".

Meteora

Estava completamente entediada depois de ficar em casa dois dias seguidos. Não pude planejar nenhuma viagem para aproveitar o feriado, pois não tinha certeza se conseguiria a extensão do visto. Então no sábado, acordei de madrugada e fui até a rodoviária com destino a Delphi. Como peguei um ônibus na direção errada e um taxista queria me surrupiar 15 euros para me levar até lá, acabei chegando as 7h35, cinco minutos depois do ônibus para Delphi ter partido. Para minha alegria, o próximo era só as 10h30. Resolvi então comprar uma passagem para Meteora, que saía 9h30.

Depois de duas horas mofando na rodoviária, mais 5 horas de viagem até Trikala, onde teria que pegar outro ônibus até Kalambaka. Ironicamente, este ônibus tinha acabado de sair, e o próximo era só depois de 2 horas. Um casal de espanhóis que estavam no mesmo ônibus também iam a Meteora, então mofamos juntos na estação de Trikala. Juan é professor de filosofia e Carmen restauradora de obras de arte.

Mais 50 minutos de viagem até Kalambaka, estava nevando e quase escurecendo. A neve estava super molhada e fomos atrás de um hotel. Eu não estava nada preparada, pois havia planejado apenas passar o dia em outra cidade e voltar para casa. Total programa de índio, pensei. A mulher, que não falava inglês, queria me cobrar 40 euros pelo quarto. Perguntei se ela conhecia outro hotel mais barato. Então ela disse que tinha quartos menores por 25 euros. Negociei sem o café da manhã, e paguei 20 euros.

Cinco e meia da tarde e eu não sabia o que inventar naquela cidadezinha pequena, nevando sem parar. Meu quarto do hotel nem TV tinha e eu havia dormido o dia inteiro, viajando até lá. Peguei meu guarda-chuva e fui afundando meu tênis até o centrinho, mas só encontrava terceira idade e famílias em todos os lugares. Até que finalmente encontrei uma praça com uns barzinhos ajeitados e gente jovem. Pedi um chocolate quente, e fiquei observando o comportamento alheio. De lá resolvi ir comer alguma coisa, mas como ainda estava cedo, resolvi procurar algum outro lugar antes de ir para o hotel. Encontrei um outro bar, com uma boa música e cheio de jovens, até novos demais. Sentei numa mesa e pedi uma taça de vinho branco. Estava realmente curtindo a minha companhia naquele lugar até que alguém veio conversar comigo. Miris é de Kalambaka e designer de móveis de madeira. Foi interessante conversar com um grego de uma cidade pequena, totalmente diferente de Atenas.

Acordei cedo no domingo para finalmente conhecer Meteora, o segundo maior complexo de mosteiros ortodoxos da Grécia, que é parte de Kalambaka. Fui em busca de qualquer lugar aberto para comer alguma coisa e a mulher da padaria disse que havia ônibus para Meteora em 15 minutos. Fiz o checkout do hotel e fiquei esperando na praça, enquanto conversava com um casal de canadenses que também pretendia subir. Descobrimos que ônibus só tem no verão, então voltei ao hotel e esperei os espanhóis para pegarmos um táxi até lá. Estava tudo coberto de muita neve e não parava de nevar. Quanto mais subíamos, mais surpreendentes as paisagens se revelavam. A cada curva, um novo ângulo, uma visão deslumbrante e a certeza de que valeu a pena ter ido até lá.

O taxista nos deixou próximos ao maior mosteiro. Eles foram construídos no topo de rochas enormes de arenito, o maior pico tem 549 metros. Como é baixa temporada, tivemos que esperar que alguém abrisse a porta para entrarmos. Depois de subir centenas de degraus escorregadios cobertos de neve, entramos no mosteiro e visitamos os museus.

Na volta, fomos descendo a pé e me despedi de Juan e Carmen, pois eles iam visitar outro mosteiro e eu infelizmente não tinha mais tempo e tinha que voltar a Kalambaka para pegar o ônibus de volta a Atenas. Continuei descendo a pé apreciando toda a beleza que se exibia diante dos meus olhos até que um carro parou para me pedir informação e acabei pedindo uma carona. Logo eles pararam no próximo mosteiro e eu continuei caminhando a pé. Resolvi pedir carona para outro carro e uma senhora muito gentil e sua cachorrinha linda me levaram de volta até Kalambaka.

Morrendo de fome, fui atrás de um souvakli e saí a procura da mini rodoviária da cidadezinha para ir até Trikala. Quando entrei no ônibus, Miris ligou para tomarmos um café, mas eu já estava a caminho de casa. Por causa do congestionamento, cheguei em Atenas apenas por volta das 20h.

7 de jan. de 2009

Kala Kristogenna

Terça-feira tivemos uma aula especial de yoga de encerramento do ano. No final, cada uma ganhou uma vela e uma mensagem escrita em um pedaço de papel. Com as luzes apagadas, nos reunimos em um círculo para convergir as energias e cada uma acendia a sua vela para ler a mensagem. Como estava tudo em grego, todas gentilmente traduziram para que eu compreendesse.

Trabalhamos até a véspera de Natal, dia que ganhei o meu presente do Papai Noel: a extensão do meu visto. Nos liberaram um pouco mais cedo e pude dar um pulo no Carrefour, insuportavelmente lotado. A caixa do supermercado batia o pé no chão incessantemente, assim como não parava de reclamar qualquer coisa em grego e voz alta. Nitidamente ela estava descontente em trabalhar na véspera de Natal. Quando fui devolver o carrinho do supermercado, não havia mais nenhum para que eu pudesse engatar e resgatar a moeda de 1 euro que usei para liberá-lo. Por sorte, percebi que um casal estava procurando por um e ofereci o meu, em troca de outra moeda, claro.

Fui pra casa dormir, sem a menor idéia do que faria na véspera de Natal. Mais tarde, encontrei com Claudia e Vassili na estação de Sygrou-fix para irmos jantar num restaurante grego, cujo cardápio é típico da ilha de Creta. Pela primeira vez, realizei a "ceia" pontualmente à meia noite, ao sabor de carne de coelho e vinho branco.

Depois, fomos até o apartamento do cônsul, encontrar a Mariana e a Bruna que estavam lá jantando, onde também conheci Irene, turca que trabalha com as meninas e Paris, brasileiro filho do consul, que é pintor e faz doutorado em belas artes na Espanha. O consul tocava muito bem piano e a sua esposa é adorável.

Claudia e Vassilis voltaram para casa, pois viajariam a Paris no dia seguinte, enquanto a Bruna conseguiu convencer um taxista a levar 5 pessoas no táxi, então fomos todos para uma baladinha chamada circus. Não estava lá aquela maravilha, então fomos para Gazi. Estava dolorosamente frio e como já estava tarde, nada estava muito cheio. Acabamos ficando num lugar um tanto alternativo, e de lá fomos embora. Enquanto Bruna e Mariana pegaram um táxi, Irene, Paris e eu resolvemos esperar o metrô abrir. Entramos em uma balada bem próxima da estação, só para sentar num lugar quente e agradável. Estava super vazio, mas a música boa. Cheguei em casa ás 7h da manhã.

2 de jan. de 2009

Kifissia, despedida e bouzokia

Sábado de sol. Fui encontrar Rodrigo em Kifissia, onde ele mora, e finalmente conhecer o bairro chique de Atenas. Saindo da estação de metrô, o vento frio me dava boas-vindas à região mais alta da cidade.

Rodrigo me mostrou as casas lindas e enormes de Kifissia e seguimos em frente até me deparar com uma espécie de Shopping Crystal a céu aberto. Várias lojas de variadas grifes preenchiam algumas quadras com suas próprias construções especialmente arquitetadas. Um luxo, cujo preço nas vitrines eram de doer os olhos - 490 euros por um par de sapatinhos, por exemplo.

Fomos então tomar um café numa Panificadora tradicional de Kifissia, existente desde 1898. Rodrigo experimentou o adocicadíssimo baklava e eu provei um doce de nome estranho, galactoboureko. Conversamos até o sol se pôr e, como não havia almoçado, não resisti à um crepe de queijo e presunto no caminho. Passamos no supermercado, onde pude achar miojo (item básico de sobrevivência) e Rodrigo me apresentou à Retsina, vinho grego resinado que é feito há pelo menos 2000 anos. Levei uma pequena garrafa e fomos até a estação de metrô. Como as lojas ainda estavam abertas por causa do horário especial de Natal, aproveitei para dar uma paradinha em Maroussi para comprar umas coisinhas.

Voltei pra casa para me arrumar e ir à depedida do Tonino, o redator italiano que mora com Rodrigo e também trabalha na Upstream. Encontrei com a Sara na estação de Keramikos. Fomos a pé até uma taverna, onde encontramos o resto do pessoal. Entre gregos e italianos, comemos e bebemos até 2 horas da manhã e finalizamos com uma rodada de raki, uma espécie de cachaça grega que sempre é oferecida em qualquer lugar que você vai. Emendamos para uma baladinha chamada antropo, cuja "porta" do banheiro unissex era aberta e fechada por um zíper gigante. O lugar estava lotado, e cada vez que tentava passar pelas pessoas dizendo "excuse me", me paravam pra perguntar de onde eu era e assim acabei conversando com várias pessoas. Depois de se empolgar com a rodada de raki, Rodrigo acabou encontrando um sofá na balada. Assim que conseguimos acordá-lo, fomos todos embora no mesmo táxi.

Domingo acordei jurando que nunca mais vou beber raki. Á noite, encontrei Sara e Rodrigo em Keramikos para irmos a bouzoukia, marcar presença na festa de fim de ano da empresa. O lugar era imenso e luxuoso, as pessoas extremamente bem arrumadas e tínhamos algumas mesas reservadas próximo ao palco, além de whisky, vodka e vinho à vontade. O show iniciou de forma inusitada, ao som de músicas de formatura na voz de personagens bizarramente caracterizados, junto com acrobacias no solo e no ar ao estilo cirque du soleil, que ocupavam muito bem todo o espaço da bouzokia.

Na segunda parte, começou o tão esperado show do cantor Antonius Remos, celebridade grega, pelo qual a mulherada vai ao delírio. Neste momento, pude presenciar o tradicional ato de jogar flores, que veio substituir o antigo costume de jogar pratos e copos, que era um tanto perigoso. A bandeja de flores que algumas gregas extremamente maquiadas carregavam, circulando entre as mesas, custava 15 euros, e os ali presentes compravam dezenas, felizes e contentes, incluindo homens, para simplesmente "tacar" as pétalas no cantor. Só na Grécia.