Último dia em Roma. Já está dando saudade. Logo cedo, entrei na fila do Museu do Vaticano, que hoje estava aberto, e o que posso dizer é que esse lugar é único. O que mais me impressionou foram os tetos, eu praticamente andava olhando pra cima. Depois de um longo percurso lá dentro, finalmente chega-se ao gran finale: a capela sistina. Imagine fazer de quatro paredes e principalmente o teto, quase que várias telas gigantescas, é um lugar inteiramente feito de arte. A capela foi construída entre 1475 e 1483, e as paredes e o teto são todos decorados com diversos afrescos, que remetem ao Velho e ao Novo Testamento. As pinturas mais famosas são de Michelangelo, como as que retratam o Juízo Final.
Depois da cansativa visita ao Musei Vaticani, voltei a maior Basilica do mundo, a de San Pietro, dessa vez para ver as tumbas. É um tanto mórbido ver as numerosas tumbas de Papas entre os quais João Paolo II, e fiquei imaginando que a última coisa que eu gostaria depois de morrer é ser enterrado dentro de uma sala fechada, sendo perturbado por milhares de turistas barulhentos, cujo inspetor não parava de pedir silêncio o tempo todo.
Saindo de lá, segui a via Conzolazione até chegar ao Castelo de Sant'Angelo e à ponte degli angeli. Pausa pra um gelato originalmente italiano e mais uma vez encontrei a mesma família brasileira, que aliás já tinha visto hoje na fila da Basílica. Fui direto pra "casa", terminei de arrumar a mala e parti para Termini para pegar o trem rumo a Firenze.
A viagem seguia tranqüila, exceto pelo fato de eu estar um pouco ansiosa pelo o que iria encontrar pela frente. Resolvi experimentar o couchsurfing, uma espécie de site de relacionamento entre viajantes do mundo inteiro. Quem tem um sofá, uma cama ou um colchão sobrando e tem vontade de conhecer pessoas de todo o lugar do planeta, simplesmente oferecem a sua casa para alguém que eles nunca viram na vida se hospedar. Para um brasileiro pode soar estranho, considerando a desconfiança e a violência que impera no nosso país, mas na Europa está bem na moda eu não imaginava como essas pessoas que estavam a minha espera poderiam me surpreender.
Foi chegando em Florença que o "inspetor" de tickets de trem apareceu e percebeu que uma menina de cabelos vermelhos que viajava sozinha para algum lugar distante dentro de seus fones plugados nos ouvidos tinha esquecido de validar a passagem antes de embarcar. Amadorismo puro, mas eles devem estar acostumados a esses turistas desavisados. Eu dei uma de chinesa, e como ele não falava inglês e eu não falo italiano, ele não deu lá muita importância. O fato é que haviam outras duas meninas italianas por perto, que estavam loucas pra arranjar um motivo para conversar comigo e descobrir daonde eu era. Achado o pretexto, uma delas falava muito bem inglês e ficamos conversando até eu comentar que meu celular não estava funcionando mais e eu precisava entrar em contato com o meu primeiro host do couchsurfing.
As meninas foram mais do que legais e gentis, ligaram para Davide, discutiram qual era o melhor caminho para eu chegar na casa dele, me deram várias dicas e chegando na estação, uma delas saiu correndo pra lá e pra cá até descobrir onde era o ponto do ônibus que eu deveria pegar. Os italianos me surpreendem cada vez mais com a sua fraternidade e gentileza característica. A sensação que tenho é que quando um italiano conhece uma pessoa, ele a adota, nem que seja só por aquele momento e age como se você fosse da mesma família.
Paguei incríveis 2 euros pelo ticket do ônibus e desci com a minha mala na escuridão das 11 horas de uma noite de segunda-feira em Florença, em uma rua completamente inanimada. Segui as direções enviadas pelo site, dei mais alguns passos e encontrei a casa de Davide.
Toquei a campainha. Alguns segundos de silêncio. A porta se abriu. Eu estava num estreito corredor que dava para uma escada à direita. Subi dois lances com certo esforço por causa da mala, até chegar numa porta semi-aberta. Deve ser aqui - pensei. Entre exatos três segundos que antecedem o movimento da porta, confesso que a ansiedade e o medo vieram a tona e eu não sabia mais o que estava fazendo ali. A porta finalmente se abriu e um sujeito um pouco baixinho, magro e com um certo ar melancólico apareceu. Era Davide me desejando boas-vindas e perguntando como foi a minha viagem, num bom português.
Davide é o italiano mais brasileiro que já conheci, ele já morou no Nordeste do nosso país por 5 meses e realmente impressiona com o domínio da língua, das gírias, sem perder, é claro, o sotaque italiano.
Mas algo me fez estremecer. Logo que entrei na sua casa, olho à direita, e ao lado da televisão, havia uma arma. Era uma arma de verdade. E não era nem pequena. Estava ali, do lado do mais comum eletrodoméstico, tão largada quanto um controle remoto. Pensei em perguntar sobre o motivo de aquilo estar ali, mas achei melhor não comentar.
Davide estava cozinhando uma pasta ao pesto para nós, enquanto fui tomar um banho. Percebi então que haviam duas manchas vermelhas, uma na parede e outra no chão do chuveiro. Não deu pra evitar que as cenas de Psicose viessem a minha mente. Peguei um pedaço de papel para ver se estava "fresco". Foi então que percebi que as janelas eram pintadas de vermelho, e provavelmente aquilo era apenas tinta que pingou e ficou por ali mesmo. De qualquer forma, o chuveiro era ótimo, afinal, era finalmente um chuveiro de verdade.
A pasta estava muito boa, mas o vinho com um sabor um pouco estranho. A arma de fogo ainda me incomodava, eu nem conseguia mais olhar para ela, como se isso fosse fazê-la deixar de existir.
Davide é também artista, pinta quadros e uma das telas estava exposta na sala, acima da mesa de jantar. Um simples buraco de fechadura retratado em contraste entre claro e escuro, o que me fez traçar um perfil psicológico um tanto assustador, imaginando que ele poderia trazer hóspedes do mundo inteiro simplesmente para alimentar um possível voyeurismo.
Apesar das minhas suposições talvez injustas, alimentadas por aquele objeto assassino compartilhando o ambiente, tivemos uma noite bem agradável. Davide me mostrou uns vídeos brasileiros no youtube muito engraçados (quando eu ia imaginar que um italiano ia me mostrar algo como "Tapa na Pantera"?) Alguns eu nunca tinha visto, incluindo a última entrevista do Raul Seixas no Programa do Jô Soares, clipes do Cazuza e outras relíquias como mamonas assassinas no Domingão do Faustão. Ele me mostrou também boas músicas italianas e depois chegou a hora de dormir. Como Davide estava a procura de um roomate, eu tinha um quarto só para mim, a cama era bem confortável e o cansaço era tanto que nada me impediu de ter uma boa noite de sono.
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