Acordei as 5h da manhã. Ainda estava escuro quando saí de casa para pegar o segundo metrô do dia para o aeroporto, às 6h07.
Viagem longa de 04 horas e fuso horário de 02 horas. Por isso, quando cheguei em Stansted, em Londres ainda eram 9h30. Para passar pela imigração, existem zilhões de guichês para passaportes de UK ou União Européia. E lá no fim do saguão, há um mísero guichê sinalizado por uma placa um tanto preconceituosa, "Rest of the world".
Preenchi o formulário e me dirigi ao atendente. Mostrei meu passaporte e ele começou a fazer milhares de perguntas. Tive que mostrar todo o meu dinheiro, documentos e passagens de volta. Como ele viu que eu ia ficar 3 meses na Europa, perguntou se eu não trabalhava no Brasil. Então falei que não estava mais trabalhando, e isso foi o suficiente pra ele achar que eu não podia entrar em Londres. Depois, ainda achou estranho a minha amiga ter me dado a carta convite de estadia com todos os documentos dela, sendo que eu não a conheço de longa data.
Pediu para eu sentar e vi que ele comentou com o superior: "She is only with this bag, but she has quit her job in Brazil to travel". Me chamou, disse que eu seria revistada e entrevistada e depois veriam o que iriam fazer comigo (com a maior cara de desdém). Então lá fui eu pra salinha da imigração.
Chegando lá, entrei numa outra salinha, onde um funcionário de uma empresa terceirizada pela imigração me deu um folheto em inglês para ler. Entre outras informações, eu li que tinha direito a um telefonema de até 2 minutos, que se fosse vegetariana, havia refeições para vegetarianos, que se eu não gostasse da forma como fosse tratada eu podia reclamar, etc. Na hora meus olhos ficaram úmidos e eu pensei, acho que estou sendo presa. Foi o que perguntei a ele: "Am I being arrested?". Daí ele me explicou que "não era bem assim", que eu não tinha feito nada de errado, mas no fim das contas era a mesma coisa, pois eu estava detida, assim como todos os meus documentos e não podia sair daqueles metros quadrados até que me autorizassem.
O primeiro procedimento foi tirar uma foto, e ele ainda disse "smile". Pouco tempo depois, sairam 4 fotos da minha cara sorridente. Então, como não havia nenhuma mulher no momento, ele me revistou com um aparelho de detector de metais. Em seguida, tirou tudo da minha carteira, contou todo o meu dinheiro, anotou tudo e tive que assinar. Depois, revistou toda a minha mochila com as suas luvas de borracha, item por item, inclusive minhas calcinhas e absorventes. A parte boa é que ele acabou encontrando o meu roteiro de viagem, com todos os pontos turísticos de Londres, assinalados e organizados por dia. Ele perguntou se podia levar o papel para a imigração ver, eu falei "sure!". Depois enfiou tudo dentro de qualquer jeito, e me levou para tirar as impressões digitais. Dedo por dedo de cada mão, depois todos os dedos juntos. Nunca tirei tanta impressão digital na minha vida. Lavei as mãos, ele trancou minha mochila na grade de bagagens detidas e me deu uns papéis da imigração. Um deles estava assinalado que eu tinha sido detida por dar informações insuficientes para ser aprovada a entrar no pais, de acordo com o parágrafo X, ou presa por ter infringido o parágrafo Y. Só não sei aonde estavam esses benditos parágrafos. Enfim, implorei para que fizessem tudo o mais rápido possível, pois tinha que voltar a Atenas no dia seguinte e estava perdendo o pouco tempo que tinha para conhecer Londres. Ele disse que ia levar tempo, pelo menos umas duas horas e podiam me deixar lá até 24h. Assustador. Como não tinha nada pra fazer naquela sala entendiante e sem janelas, aceitei um sanduíche de atum e tomei água para me acalmar um pouco. Usei meu telefonema para avisar a Ana Flávia que eu ia me atrasar (se é que eu ia entrar), pois ela já estava me esperando na estação de Liverpool Street.
Haviam dois portugueses também detidos, segundo eles, porque acharam que as fotos da ID deles eram falsas. Achavam que eles não eram portugueses, mesmo eles falando o português de Portugal, comendo vogais freneticamente. Tadinhos, estavam lá desde ontem e ainda choravam. Eles tinham passagem de volta para Porto naquele dia e nem assim queriam deixá-los ir, pois teriam que voltar para Milão, de onde vieram. Dormiram lá na sala, sendo que só havia 1 pseudo colchonete finíssimo, enquanto tinha um outro ser também lá capotado que estava dormindo nas poltronas desde ontem. Tentei animá-los um pouquinho, e ver o lado legal da situação (ok, difícil, já que eles estavam lá há muito tempo.) O fato é que eu me enchi de uma energia positiva e um otimismo extremo tomou conta de mim. Fiquei tranqüila, mesmo com os portugueses me falando: "não é por nada não, mas acho que você vai dormir aqui hoje".
Mais de meia hora depois, chegou a moça da imigração para fazer a entrevista. Todos os funcionários da imigração daquele aeroporto eram negros, enquanto os da empresa terceirizada eram todos brancos e gordos. Enfim, voltei à salinha. Ela pediu para que eu sentasse na cadeira perto da parede, e assim ficamos na diagonal. Percebi que era uma estratégia psicológica de posicionamento, como nos interrogatórios de filme.
Tive que mostrar novamente todo o meu dinheiro e cartão de crédito, e foi anotado mais uma vez a quantidade de dinheiro que eu tinha. Ela então começou a me perguntar tudo o que se pode imaginar e mais um pouco. Desde a minha profissão, do meu trabalho no Brasil, o que os meus pais fazem, onde está minha família, se tenho namorado, nome e sobrenome de quem eu conhecia em Londres, daonde conhecia, como conheci, quando conheci, por que só um dia em Londres. Enfim, é tanta pergunta que fica difícil lembrar. Como tinham alguns contatos de telefone no meu papel do roteiro, ela me perguntou quem era cada uma das pessoas que tinha ali anotado. E tudo o que eu falava, ela escrevia. Ainda bem que ela era gente boa, e modéstia a parte, eu dei uma entrevista que merecia no mínimo um bloco do Programa do Jô. Meus olhos brilhavam quando eu dizia que tinha vontade de conhecer o mundo inteiro e que viajar era importante para o meu trabalho no Brasil, pois trabalho com criatividade e preciso ver coisas novas, respirar outros ares, para ter novas idéias e que é isso que me faz sentir viva. Notei que ela se empolgava junto e simpatizou comigo. Me senti o máximo com as minhas respostas pomposas. No final, perguntou se eu tinha algo a acrescentar, então disse que estava com todas as passagens de volta compradas, inclusive do Brasil, e que estava tudo certo. Ela anotou tudo e foi falar com o big boss para dar o veredicto final. Implorei mais uma vez para que me desse a resposta o mais rápido possível, porque meu tempo estava passando. Eu frisava isso sempre que possível durante a entrevista. Se ela me perguntava quem era Fulana, eu dizia "minha amiga grega, que também está aqui, e que vou tentar encontrá-la. Se eu tiver tempo, claro". E de vez em quando olhava no relógio também.
*** Um trecho da entrevista ***
- Why are you going to London?
- To know the city, for tourism.
- But to know what?
- London!!! You know!
- But what in London?
- What everybody wants to see in london, the touristic points.
- Ok, so tell me the touristic points.
E lá fui eu falar alguns pontos turisticos que, por acaso, lembrava o nome.
Alguns minutos depois, a mulher da imigração voltou, pois depois do mega interrogatório, ela ainda tinha esquecido de perguntar algumas coisas. Voltamos à salinha. Ela questionou à respeito dos outros vistos que tinham no meu passaporte. O que eu fui fazer nos Estados Unidos e na Argentina e por quanto tempo fiquei em cada lugar. Expliquei tudo certinho e fiquei ainda mais feliz, por ter ganho mais pontos a meu favor. Estava praticamente certa de que iriam me liberar.
Enquanto aguardava, resolvi ir ao banheiro. Depois que saí, sentei para ler uma revista e percebi que tinha uma plaquinha em cima da porta, avisando que tinha câmera lá dentro do banheiro. Era só o que faltava.
Fiquei conversando com os portugueses para passar o tempo. É torturante ficar trancafiada naquela salinha, enquanto Londres está lá fora te esperando e você tem muito pouco tempo. E também frustrante e desgastante ter que passar por tudo isso para conhecer uma cidade. Depois, chegaram mais dois coreanos para nos fazer companhia.
Aproximadamente meia hora mais tarde, a mulher da imigração voltou à sala com uma cara de enterro. Na hora pensei que ia ter que voltar para Atenas. Mas ela me chamou e disse que tinham me autorizado a entrar em Londres. Fiquei super feliz e agradeci. O cara da empresa terceirizada fez um comentário do tipo "você vai pagar um café pra ela?". Como não tinha entendido direito a brincadeira, resolvi também fazer uma piadinha "ah! tenho que pagar pelo café e o sanduíche também?" Eles só deram risada. Fiquei tão empolgada que já estava saindo. O cara quis me matar. Tinha que assinar um papel antes. Assinei e perguntei se eles iam guardar minhas fotos e impressoes digitais. Ele respondeu "infelizmente temos que fazer isso", num tom sarcástico. Ok. Três horas depois de chegar no aeroporto, finalmente saí pela porta empolgadíssima, com um visto de 6 meses carimbado para UK. Logo me dei conta que esqueci de pegar a mochila. Voltei lá e pedi para desaprisionarem a minha companheira. Saí correndo rumo ao trem expresso para o centro. Mais 45 minutos e eu estava na estação de Liverpool Street. Estava frio e chovendo. Eu já não lembrava mais o que era chuva. Liguei para a Ana, que estava com a irmã dela, a Carol, e nos encontramos perto do telefone público.
A Ana já tinha um guarda-chuva para mim, então seguimos rumo ao nosso roteiro frenético "como conhecer London em 1 dia e meio". Fomos ao London Bridge e Tower of London caminhando ao lado do rio Tâmisa, até chegar a St. Pauls Cathedral, que é linda, mas infelizmente a hora que queríamos entrar estavam fechando. Eu diria que em menos de 2 minutos a mulher conseguiu tirar todo mundo de lá.
Depois fomos a Trafalgar Square, onde estava tendo um show, onde centenas de pessoas erguiam bandeirinhas. Visitamos a National Gallery, onde quadros incríveis estão expostos datados a partir do ano de 1500 e pouco. Eu realmente nunca tinha visto telas tão interessantes, enormes e retratando momentos especiais, com uma técnica indescritível para a época, uma perfeição que não se encontra na arte atual. Jogo de luzes, expressões faciais, dimensão, vestimentas e texturas que pareciam reais. Eu realmente não esperava encontrar um conjunto de qualidades tão visíveis e bem preservadas, além de que é incrível pensar no quanto a Europa era evoluída nesse sentido, enquanto o Brasil ainda estava sendo descoberto.
Começou a escurecer depois das 16h. Já era noite quando fomos ao Big Ben, Westminster Abbey, Parlament e London Eye, que ficam próximos um do outro. O bom de London é que todo mundo fala inglês e eu posso entender o que está escrito em todos os lugares, além de que tem bastante gente bonita. Estava precisando ver paisagens não-gregas e sair um pouco da minha vida de analfabeta de Atenas. Muitas fotos e frio depois, fomos a Picadilly, que é quase uma Times Square de NY. Várias lojas, telões publicitários iluminados, muitos turistas (como em toda Londres) e vários pubs e restaurantes mais adiante. Escolhemos um lugar para sentar e jantar. Comi um jack potato de frango e um muffin de blueberry para matar a saudade. Estávamos exaustas. Falei com a Paula, que conheci em Creta, e ela foi nos encontrar em Picadilly. Fomos a um pub tomar uma cerveja, e voltamos para casa próximo de meia noite. Por causa do fuso, era como se fossem 2 horas da manhã, e ainda tinha acordado as 5h. Dá pra imaginar o estado de putrefação. Pegamos 3 ônibus para chegar em Kingston, onde a Ana mora (na grande Londres). Estava um frio de arrepiar. Conheci parte do pessoal que mora com ela, tomamos banho e capotamos.