11 de nov. de 2010

Fin de semana en Barcelona

O local do seminário era próximo a Praça da Espanya e do Museu de Arte Contemporânea. Foram mais de oito horas com David Icke, das dez da manhã até nove e meia da noite, com alguns intervalos de quinze minutos e um intervalo um pouco maior na parte da tarde - quando aproveitei para caminhar pela região e visitar o Caixa Forum, um local cultural fantástico e gratuito, cheio de exposições interessantes.

A noite, Ton convidou-me para jantar em um restaurante chamado "la paradeta" - uma espécie de imitação de mercado onde você escolhe entre lulas, mariscos, peixes e camarões que ficam ali expostos, alguns ainda vivos - e pede para preparar do jeito que você quiser. Sentamos e esperamos chamar o número de nossa mesa para buscar os pratos prontos, acompanhados de vinho branco espanhol.

Como troquei o sábado de Sol em Barcelona por um dia inteiro dentro de uma sala escura com David Icke, tinha apenas domingo para conhecer a cidade de fato. Acordei cedo e peguei o metrô em Barceloneta rumo ao Parc Guell. Como Barcelona tem uma notável inclinação, me senti quase escalando as ruas para chegar até lá, mas valeu a pena: não esperava encontrar um parque tão lindo de cair o queixo. Explorei todos os caminhos, e me deixei encantar pelos jardins e obras de Gaudi. Por todos os lados do parque, encontram-se músicos tocando diferentes instrumentos que reproduzem as mais belas músicas do mundo que contagiam os ouvidos e tocam o coração de qualquer ser humano. Comprei um cachecol no meio do caminho e já era meio dia quando saí de lá.

Caminhei até La Pedreira, onde pode-se visitar o museu, o terraço e um apartamento. Fiquei impressionadíssima com a ousadia, irreverência e a genialidade de Gaudi. Todo arquiteto deveria conhecer os trabalhos dele de perto. Depois, Casa Batló e de lá segui caminhando até a belíssima Sagrada Família, a obra prima de Gaudi que ainda está em construção e não tem data para ser concluída. O Templo imponente é uma obra de arte gigante formada de várias esculturas combinadas cuja quantidade e graciosidade de detalhes na imensidão da construção é de brilhar os olhos. Infelizmente o Papa estava em Barcelona naquele domingo para consagrar a Sagrada Família pela primeira vez, então não era permitido entrar dentro do Templo. Só se falava nisso na cidade. O Papa não foi muito bem-vindo, havia protestos por todos os lados, das sacadas dos apartamentos até esculturas de areia na praia, pois muita gente não concorda com o sistema da Igreja. Ele foi "calorosamente" recebido por um beijo coletivo gay em protesto contra sua posição em relação à homossexualidade.

De lá peguei um metrô, funicular e um teleférico até o Castell de Montjuic, um forte antigo de onde se tem uma vista incrível de Barcelona. Voltei caminhando, me perdi entre algumas ruas até encontrar uma estação de metrô e chegar em Barceloneta. Caminhei por toda a orla da praia, de ponta a ponta, e fiquei encantada com a infra-estrutura litorânea e das marinas contornadas por veleiros e restaurantes. A certa altura, já não sabia mais pra qual lado era a Marina onde estava hospedada. Fui até o hotel que tem formato de veleiro iluminado dos cartões postais, onde ajudaram a me localizar. No caminho, Ton ligou para jantarmos com mais dois couchsurfers que chegaram, uma americana e um canadense. Na hora que pulei pra dentro do barco, meu anel caiu do dedo e não consegui mais achar. Não sei se foi porque emagreci depois de caminhar feito Forrest Gump o dia inteiro sem parar, mas o fato é que foi muito estranho o anel que nunca cai do dedo cair justamente na hora que estava entrando no barco. Ton e o canadense tentaram me ajudar com a lanterna, mas não teve jeito de encontrar. Deve ter caido na água. Logo em seguida, Ruy enviou uma mensagem dizendo que estava livre para fazermos uma sessão de massagem, mas tive que deixar para depois do jantar.

Fomos super mimados por Ton com pizza, salada agridoce exatamente do jeito que adoro, abacates e tomates regados a vinho tinto espanhol, além de cheesecake e bolo de chocolate de sobremesa. Delícia. Estava super cansada, os músculos das minhas pernas estavam entrando em colapso quando começou a chover forte e acabei cancelando a sessão de massagem.

Segunda-feira de manhã fui até a praia ao amanhecer e tentar encontrar o apartamento de Ruy para nos despedir, mas como entendi o numero da casa errado, acabei não encontrando e tive que ir para o aeroporto.

Uma tristeza tomou conta na sala de embarque, essa viagem a Barcelona parece ter embaralhado todas as minhas cartas. Uma vida inteira parecia rodopiar dentro da minha cabeça. Com sorte, tinha duas poltronas livres ao meu lado e dormi o vôo inteiro.

Ao aterrissar nas terras gregas, achei engraçado o cheiro forte e típico de sarcófago que tem Atenas. Meu cérebro estava tão desorientado, que quando fui comprar uma água no quiosque perto de casa, vi que estava falando espanhol.

Uma felicidade me inundou em estar de volta. Incrivelmente já estava com saudades do clima mais agradável e até de ouvir grego. Nunca foi tão bom chegar em casa. Lar, dulce lar.

9 de nov. de 2010

Bienvenidos a Espana

Sexta-feira foi dia de lavar roupa, organizar a casa e a mochila para partir rumo a Barcelona. Sinto todas as células do corpo vibrarem toda vez que entro em um aeroporto. Adoro o ambiente cheio de pessoas de todos os cantos do planeta se misturando e brincando de se deslocar a milhas de distância no globo terrestre com esses pesados aviões que voam velozes pelo ar.

Duas horas e meia dentro do avião. Foi um tanto entediante porque não levei nenhum livro pra ler e companhia aérea barata não serve lanche pra distrair a gente. Ao invés disso, oferecem um variado cardápio e o vôo fica parecendo uma lanchonete barulhenta, entre pessoas escolhendo o que comer, pagando e recebendo o troco.

No meio do vôo, me dei conta que esqueci de trazer o PIN code do chip do celular. Na europa, se você desliga o celular, é necessário um código para ligá-lo novamente. Como desliguei por causa do avião, o resultado é que eu estava sem meio de comunicação móvel em Barcelona. Por sorte, tinha anotado o número de Ton, que iria me hospedar através do couchsurfing, num papel.

Chegando ao aeroporto, a primeira coisa que fiz foi ajustar o relógio de acordo com o horário local e usar as três tentativas que tenho direito de tentar adivinhar a senha até bloquear o celular. Tive então que comprar um chip da Espanha. Fiquei espantada com a atmosfera de Barcelona - cheio de jovens e pessoas felizes. "Aqui as pessoas sorriem!" - pensei. Estava mesmo precisando de um break da população idosa grega e me rodear de espíritos mais tranqüilos e expressões faciais leves.

Peguei o trem até Passeig de Gracia e fiquei tão feliz em poder entender o que as pessoas conversavam ao redor que meu cérebro parecia querer prestar atenção em todas as conversas ao mesmo tempo. Também podia ler o que estava escrito em todos os lugares sem esforço. Como é bom lembrar que existe outra realidade além da vida de analfabeta em Atenas.

Saindo da estação, dei de cara com a encantadora Casa Batló de Gaudi. Passei pela praça de Catalunya, caminhei por Las Ramblas, visitei o Mercado de la Boqueria e fui até a Marina Port Vell, onde ficaria hospedada no barco de Ton. Como ele tinha um jantar, deixou a chave na portaria e passou as instruções pelo telefone.

Por incrível que pareça, me vi falando grego na Espanha. Toda vez que queria pedir licença, acabava falando "signomi", e até para dizer sim, estava dizendo "né". Quanto tentava hablar espanhol, o inglês atrapalhava.

Já estava escuro quando cheguei na Marina. Senti-me na cena de um filme policial ao ter que encontrar o barco de Ton em meio a tantos veleiros ancorados e pular dentro de um barco vazio para encontrar a chave escondida e então finalmente entrar. Encontrei a cabine que esperava por mim com um saco de dormir, descansei um pouco e fui até o vestiário, onde estão os banheiros, duchas, máquinas de lavar e secar. Tudo super organizado, limpo e seguro. O acesso ao trapiche e ao vestiário é feito através de um cartão magnético.

Um dos motivos que me levou a Barcelona foi reencontrar Ruy, um grande amigo que conheci na Grécia há quase dois anos e desde então não mais nos vimos. Como não tinha mais o número dele pois estava no chip bloqueado, fui até Orange Claris - o bar em que ele estava tocando aquela noite. Na frente do bar, uma placa indicava em letras escritas a giz "Ruy Mendes en concierto". Haviam poucas pessoas no local, e Ruy estava entretido com os últimos preparativos antes de começar. Quando me viu, lançou o olhar para longe no infinito como quem viajou a um outro mundo por alguns milésimos de segundo. Cumprimentamo-nos com um longo e caloroso abraço. Logo o show começou e fiquei ali sentada só saboreando a delícia que é a voz de Ruy cantando e tocando as músicas mais lindas que existem. Algumas pessoas que passavam pela calçada eram atraídas pelas canções e aos poucos o bar foi ficando mais cheio. A certa altura, Ruy disse que a próxima música seria para mim e começou a cantar Emoções, de Roberto Carlos. Foi lindo, ali olhando para ele, e as mesmas emoções sentindo. Ele comentou que David Icke estava em Barcelona para um seminário no dia seguinte que duraria o dia inteiro e acabei achando uma boa idéia ir também.

2 de nov. de 2010

Fitness week

Assistir a Marathona inspira qualquer um a entrar em forma. Segunda-feira fui pra academia e para minha surpresa, descobri que está tendo aula de pilates duas vezes por semana. Super empolguei.

Depois de chegar em casa, quando estava pronta para ir ao banho, repentinamente as luzes se apagaram mais uma vez. Não acreditava. Liguei para Chiara, minha vizinha, para verificar se o apartamento dela também estava sem eletricidade, e ela não atendeu o telefone. Bati na porta, e nada. Então liguei pra Klea, a proprietária, e ela disse que estaria indo até lá em quinze minutos.

Foi um pouco aterrorisador ficar sozinha no escuro naquele apartamento, porque tem acontecido muitos incidentes naquele prédio e confesso que as vezes a vizinha dá medo. Além de que a construção é super antiga e considerando a longínqua história da Grécia e algumas experiências que tive recentemente, estava começando a imaginar um monte de coisa até que enfim, Klea chegou. Batemos na porta de Chiara mais uma vez, e nada. Ela resolveu abrir o apartamento com a chave reserva e Chiara então deu sinal de vida. Disse que já ia abrir a porta, pois estava dormindo. O estranho é que eu sei que ela nunca dorme antes das duas horas da manhã. Perguntei se também estava sem luz e ela confirmou. Klea então percebeu que o disjuntor que aquece a água estava ligado, e que segundo ela, sempre devemos desligar depois de vinte minutos. Completou dizendo que sempre que vai lá o aquecimento do apartamento dela está ligado e começou a ficar realmente brava. A situação foi um tanto constrangedora. De qualquer forma, Klea chamou o serviço e em alguns minutos as luzes se acenderam.

Logo em seguida, Gloria, que mora no primeiro andar, ligou. Como era quase meia noite e eu já estava quase dormindo, achei que algo havia acontecido, mas ela só pediu a chave da lavanderia emprestada. Quando foi buscar, disse que também precisava de sabão em pó. Fazia tempo que não me achava a pessoa mais normal do mundo, ao me dar conta do quão sem noção é minha vizinhança. A meia noite de uma segunda-feira definitivamente não é o horário mais adequado pra pegar uma chave e sabão em pó emprestado.

Terça feira foi aniversário da chefinha e ela trouxe docinhos maravilhosos para nós. Se tem uma coisa que os gregos sabem fazer é essas sobremesas super fofas enfeitadas dentro de um copinho. Comi uma espécie de mousse ou tiramissu, de acariciar as papilas gustativas. Além do doce, ela também me deu dois dias de folga para esta semana e resolvi aproveitar para viajar.

George ligou, dizendo que ficou uma semana sem o celular, pois esqueceu lá em Kalamos, na casa do professor de yoga e ficamos de combinar alguma coisa para o fim de semana.

A energia está mais leve desde que fiquei sabendo que Chiara não será mais minha vizinha. Ela está se mudando para o apartamento em que Omar estava, assim como Milena também está de mudança para o mesmo prédio, no apartamento que Lucci morava, pois não estava dando certo compartilhar o teto com a libanesa.

Na quarta-feira a mangueira do chuveiro lá de casa quebrou e tive que fazer milagre para tomar banho. No dia seguinte, ganhei um chuveiro novinho em folha. Essa semana foi de academia, pilates e yoga todo dia. Estou encantada com a abrangência dos efeitos de exercícios físicos e me dei conta do quanto é essencial encontrar uma atividade que se gosta e de não ficar parada.

1 de nov. de 2010

Marathona 2500 anos

Marquei um compromisso comigo na sexta-feira a noite. Adoro minha companhia. Acordei no sábado no exato momento que meu corpo desejava e depois de um desjejum com os saborosos iogurte e mel gregos, fui até o hospital público de Evangelismos tentar tomar vacina contra febre amarela. O hospital parecia bem vazio e um tanto desorganizado, com um monte de médicos e enfermeiras com aquela cara fechada de infelicidade típica grega. Fiquei um pouco assustada com a primeira sala que você encontra quando entra no hospital, chamada "Ressuscitation Room". No fim das contas, eles não tinham a vacina lá e me deram o endereço de outro lugar que abre apenas durante a semana.

Claudia ligou e fui encontrá-la perto de casa, passeamos pelo centro e acabei comprando um vestido. Depois encontramos Vassilis numa taverna em Omonia, que tem mais de cem anos e continua conservada como era desde aquela época. Com ares rústicos, a taverna fica no subsolo e é bem pequena, adorei o ambiente. Claudia disse que frequentam o local há quatros anos e foi a primeira vez que o dono da taverna sentou pra conversar. Ele queria saber de onde eu era e disse que simpatizou comigo. Quis tirar uma foto e pediu pra gente imprimir e levar pra ele depois. Super fofo. Ele explicou que só ele já está lá há mais de cinquenta anos, e que a administração da taverna foi passada de geração em geração.

Fomos pra casa e mais tarde nos encontramos para ir ao aniversário da Mariana. Fazia tempo que não ia em festa na casa de alguém, com tanto capricho em todos os mínimos detalhes. Com direito a bolo, brigadeiro, beijinho, cachorro quente, canapés de atum, salmão defumado, tudo feito por ela e mais uma amiga brasileira que também estava de aniversário. Luz de balada na sala, dj e uma porção de velas espalhadas pelo ambiente. Quando os brasileiros chegaram, fizeram a festa. Foi super animado, matei a saudade de dançar forró com um lindo brasileiro que me fez derreter e flutuar só de encostar, além de perceber que ainda estou longe de dançar decentemente.

Domingo os sinos da igreja ajudaram o despertador a me acordar. Liguei para Cláudia e ela ainda estava dormindo. Saímos correndo para assitir a Maratona histórica que estava fazendo aniversário de 2500 anos. De acordo com a história, no ano de 490 a.C., o soldado e atleta Filípides foi escolhido para correr da cidade de Marathonas até Athenas (cerca de 42km) para avisar que os gregos ganharam a batalha contra os persas na Primeira Guerra Médica. Ele correu a distância o mais rápido que pode, e ao chegar, conseguiu dizer apenas "vencemos", e caiu morto pelo esforço. Por isso a Maratona de Atenas é feita com o percurso original, onde os participantes saem de Marathonas e chegam no estádio de mármore Panathinaikos em Atenas.

A cidade estava cheia de turistas este fim de semana, e os hoteis todos lotados. Cerca de doze mil pessoas correram. Tínhamos pensado em nos inscrever, mas por causa do aniversário da Mari e de nosso preparo físico vergonhosamente sem resistência acabamos desistindo. Vassilis e seu irmão participaram do trecho de 5 km, assim como o Primeiro Ministro da Grécia. Tivemos que correr junto com a galera pra conseguir chegar no estádio a tempo de tirar a foto dele chegando. Foi emocionante assistir a chegada. Como sempre, um queniano venceu. Teve dois brasileiros entre os primeiros colocados. Ficamos cerca de quatro horas assistindo a multidão atravessando a linha de chegada, sentindo o frescor do clima em contraste com o calor dos raios solares que vinham do céu azul. Em meio a multidão, aparecemos na televisão que transmitia o evento ao vivo. Entre os não tão bem preparados, faltando alguns metros para a chegada, um participante teve que parar pra vomitar. O corpo de outro corredor entrou em colapso e paralizou, fazendo-o cair no chão. Outros dois participantes que vinham em seguida tentaram ajudá-lo e ele então fez todo mundo parar pra ver e aplaudi-lo completando a prova engatinhando até o final. Alguns correram fantasiados de espartanos, outros de Deus grego, e até mamães atletas completaram a prova empurrando o carrinho com seus bebês. Foi muito lindo de ver.

Depois fomos até a casa da Claudia para buscar o título de eleitor, com uma paradinha para um sorvete. Vassilis nos levou até a embaixada, onde ela fez valer seu voto, mas não pude votar, pois só é permitido para residentes. Brasileiros em trânsito não tem direito.

Eram quatro horas da tarde e ainda haviam pessoas correndo pela cidade, quando fomos almoçar no TGI Friday's, onde superei meu trauma e pela primeira vez tive uma boa experiência. Salada com laranjas, twist fries e matei saudades de tortillas ao estilo tex mex. Voltamos pra casa da Claudia, onde fiz sessão de shiatsu no Vassilis, depois de correr os 5 km na marathona. Foi lindo ver a cara de bebê que ele ficou depois da terapia. O casal gentilmente me deixou em casa com 5L de azeite de oliva extra virgem de presente e uma sensação de ter corrido 42 km depois de um domingo intenso.

Goodbye Omar

Depois que Lucci voltou para Tanzânia, Omar entrou em depressão a ponto de não conseguir levantar da cama cedo para ir trabalhar e decidiu que vai voltar para Arábia Saudita. Saímos para jantar depois do trabalho na segunda-feira. Terça foi dia de academia e supermercado e na quarta-feira fomos jantar novamente em Monastiraki, desta vez com o pessoal do trabalho. Choveu torrencialmente como nunca havia visto em Atenas. O tempo aqui está estranhíssimo e já esfriou bastante. As meninas então foram embora, e seguimos a um dos barzinhos na frente de casa para encontrar Emmanuel, que chegou mais tarde.

No feriado de quinta-feira, acordei com o barulho dos adoráveis sinos da igreja e depois ao som de fogos de artíficio ou tiros, difícil definir. Até Gloria, que mora no primeiro andar, enviou uma mensagem preocupada com os barulhos. Liguei a TV pela segunda vez em dois meses para ver se estava acontecendo alguma coisa, mas só vi a enchente em Thessaloniki. Provavelmente era só uma forma de celebração do feriado, nos desfiles em Syntagma. Passei o dia em casa lavando roupa, cozinhando, arrumando a casa e vendo filme. Como no dia seguinte Omar estaria partindo, nos encontramos todos a noite em um restaurante americano em Kolonaki para a última despedida

26 de out. de 2010

Goodbye Lucci

Lucci está estranho desde quinta-feira. Apesar de estar louco para voltar pra Tanzânia, acho que está sentindo em nos deixar no sábado. Para falar a verdade, desde quinta-feira a noite estou sentindo uma energia densa nessa cidade. Há uma forte tensão no ar e acho que estou absorvendo a típica agonia grega.

Sempre que observo ao redor cada olhar que cruza, cada ser que passa ou senta ao meu lado no ônibus ou metrô, o que vejo é uma população rude de músculos faciais tensos, sobrancelhas franzidas de infelicidade crônica e de aborrecimento na alma. O clima está atipicamente cinza e úmido e estou sentindo-me cheia de pisar nessas calçadas e de respirar a atmosfera pesada de Atenas.

Sexta-feira fomos a um restaurate africano para a despedida de Lucci. Sugestão do nigeriano Emmanuel. O restaurante fica numa região um tanto 'negra' e foi uma experiência encantadora. Nos sentimos de fato na África. Algumas comidas eram excessivamente apimentadas e tinha gosto de ração, outras não tinha idéia do que era mas eram uma delícia e matei a saudade de comer batata doce. Aprendi a comer até arroz com a mão, um hábito que faz você se sentir meio bicho, mas parece acentuar o sabor da comida. Para isso, existe uma bacia com água para lavar as mãos antes de comer. Para beber, um líquido fermentado que sai da palmeira, que diz curar até malária. Puro é até gostoso, mas misturado com cerveja, tem gosto de kefir. Chiara foi a grande revelação da noite com seu jeito peculiar de ser. A dança árabe de Omar rendeu muitas risadas e Emmanuel nos deu uma canja de dança africana.

Sábado de manhã explorei algumas ruas próximas de casa e descobri milhares de lojas e joalherias. Não resisti a uma bolsa que estava na vitrine e não acreditei quando Lucci ligou dizendo que perdeu o vôo. Estava inconsolável. Bem que havia falado a ele de manhã que tinha a sensação de que iríamos nos ver em breve. Nos encontramos à noite na casa da Milena e ele teve que escalar a sacada do apartamento dele pra entrar e dormir, porque a chave havia ficado lá dentro. Felizmente, conseguiu pegar o vôo no domingo, um dia um tanto melancólico, no qual tudo que consegui fazer foi dar uma volta por Akropoli.

19 de out. de 2010

Deixa a chuva cair que quero me molhar

A semana começou com banho de chuva. Nunca imaginei que um dia as nuvens de Atenas poderiam molhar tanto. Ainda bem que havia levado um par de havaianas, o que me preservou de passar o dia com a meia molhada nos pés. Para compensar, a segunda-feira foi também de sauna. Não sei o que acontece no escritório, mas os homens morrem de frio enquanto as mulheres suam. Como Lucci está acostumado à linha do equador e é ele quem senta próximo aos botões do ar condicionado, a temperatura absurdamente já chegou a ser configurada a 27 graus C. Sou a única chata que tem a ousadia de levantar todo dia e toda hora pra ligar o ar ou reduzir a temperatura e ficar ouvindo as reclamações masculinas. Só podem ser malucos, sendo que estamos em dezoito pessoas na sala com todas as janelas e portas fechadas, sem a menor circulação de ar. Chiara disse que eles estão certos em querer morrer logo, mas que ela prefere esperar até 2012. Aliás, não sei o que há com esse povo, que acha que só porque é outono tem que se encher de casaco e cachecol, sendo que nem está tão frio.

Descobri que toda segunda e quarta tem aula de aeróbica na academia. Descobri também que meu sobrenome deveria ser Swarowska. Parece marca de vodka, mas de acordo com Milena, tanto na Rússia quanto Polônia, o sobrenome das mulheres sempre termina com "ka".

Terça-feira carreguei Gloria, Omar e Lucci pra aula de dança grega para iniciantes na Universidade de Atenas. As aulas são de graça e como era tudo em grego, foi um tanto engraçado acompanhar. Não imaginei que teria tanta gente, cerca de setenta pessoas estavam lá contribuindo para mais uma sauna coletiva e tivemos que fazer uma espécie de caracol (em dois círculos) para que todos coubessem na sala. Foi divertido mas a dança em si é meio sem graça.

Spa em Edipsos

Descobri que dá pra ver a Akropolis da janela do prédio onde moro. Claudia convidou para ir ao cinema assistir a "Eat, pray, love" na sexta-feira, antes que saia de cartaz, mas estava comprometida com minha cama, pois no dia seguinte teria que acordar as cinco e meia da manhã. Gloria e eu combinamos de ir até Edipsos, uma cidadezinha de seis mil habitantes na ilha de Evia, famosa por seus banhos de águas termais terapêuticas e curativas.

Acordamos no escuro. Algumas pessoas ainda frequentavam os barzinhos quando pegamos o ônibus em Syntagma até a rodoviária, de onde partimos para uma viagem de três horas. No caminho, um ferry cheio de cabelos brancos. Bem que nos disseram que era um programa de terceira idade.

Chegando lá, exploramos o tranqüilo e silencioso vilarejo, os hotéis e spas na maioria fechados por causa da baixa estação, até encontrar uma praia, com um cheiro estranho que vinha junto com o vapor da água fervente que brotava do fundo da terra. Um Senhor que estava ali sentado comentou que quando era jovem, junto com os amigos, cozinhava ovos naquela água.

Trocamos de roupa e mergulhamos no mar gelado, onde caçamos os locais de onde vinha água quente. O adorável Senhor que ali contemplava aquela paisagem abençoada, tem noventa e dois anos de idade. Comentou que Edipsos ainda é uma cidade bastante clássica, comparada com o resto da Grécia e contou sobre a tradição de "comprar" marido para as filhas, em troca de uma casa ou pedaço de terra, que ainda existe por aqui. Ele disse que teve que encontrar um marido para cada uma das três irmãs para que então ele pudesse se casar. Perguntei como ficava o amor nessa história e ele disse "Esqueça. Isso é coisa dos filmes". Sua esposa estava nadando, enquanto perguntei se ele a amava e ele simplesmente respondeu "Amor? Bom... estamos casados há mais de cinquenta anos...." Então perguntei se algum dia havia se apaixonado na vida e ele disse que não. Depois que nos despedimos, foi nadar junto a sua esposa, ambos felizes da vida.

Falando em amor, essa semana tive uma verdadeira aula sobre o tema. Durante um almoço, o nigeriano Emannuel estava falando sobre a visão africana do casamento. Segundo ele, lá é permitida a poligamia, mas como acaba não dando muito certo e precisa ter muito dinheiro pra isso, a maioria opta pela monogamia. Disse que lá, antes de namorar, a amizade é essencial para se conhecer melhor e não se namora alguém sem pensar em se casar com ela. Casamento é coisa séria e é pra sempre. Você nunca deve deixar sua esposa ou esposo, por que não é bom para seus filhos. Por isso é uma decisão que deve ser tomada com muita consciência, pois é a pessoa que você está escolhendo para formar sua família. Segundo ele, a fidelidade é uma questão apenas de caráter e que é perfeitamente possível se manter fiel a sua esposa, bem como nunca deixar de amá-la, assim como não se deixa de amar uma mãe, um pai ou uma irmã. É preciso pensar e agir como duas pessoas, o que sempre vai implicar em renúncias e concessões.

Então me dei conta do significado do que ele e este senhor de noventa e dois anos de idade estavam dizendo. Percebi o quão egoísta é a maioria dos relacionamentos, condicionados por novelas, filmes de hollywood e revistas de comportamento. Vejo que muitas pessoas simplesmente vivem a projetar seus ideais num objeto de desejo ao qual se apaixonam. Amam esta ilusão e criam expectativas, o primeiro passo para a decepção. Sofrem até encontrar outro objeto de paixão onde podem projetar tudo novamente, sem nunca sair deste ciclo doentio. Percebi que toda paixão é obsessão e passageira e está muito longe da atemporalidade do amor. Entendi o que é o amor ágape, doador e incondicional, descrito na Bíblia como aquele que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". A língua portuguesa não faz esta distinção como faz a língua grega, descrevendo três tipos de amor - ágape, eros e philia.

Gloria e eu almoçamos num restaurante muito simpático, onde um rapaz nascido em Edipsos nos presenteou com um raro atencioso atendimento. Ele está passando um tempo lá para juntar dinheiro e em novembro está voltando para a Thailandia, onde fez curso de massagem. Fiquei super empolgada para fazer o mesmo, e trocamos e-mail de contato. Depois de um banho de mar, nada como saborear beringelas gratinadas com bechamel e um delicioso pão caseiro feito com capricho saindo do forno. Sentamos então à beira-mar, onde Gloria tomou um café e acabamos sendo filmadas para a campanha eleitoral do candidato à Prefeito de Edipsos, que nos cumprimentou em frente à câmera e nós respondemos "Yassas!".

Caminhamos mais um pouco e demos de cara com as piscinas naturais de pedra com as águas termais que tanto estávamos procurando. Ficamos tão empolgadas que não pensamos duas vezes em trocar de roupa e se atirar naquela água naturalmente quente, cheia de minerais e propriedades terapêuticas: a materialização de um banho de amor, perdão e gratidão, com vista para o mar. Não se recomenda ficar mais do que meia hora imersa nessas águas ou no máximo uma hora por dia.

Passeamos, caminhamos e apreciamos toda aquela paisagem pacífica e acolhedora. É uma delícia se entregar às singelas ruas de graciosidade que são as vilas gregas, com todas as suas peculiaridades. Provamos docinhos e gelados caseiros e resolvemos pegar o último ônibus de volta a Atenas. Mais três horas depois, estávamos chegando em casa, quando antes de atravessar a rua, ao esperar o carro que vinha passar, me deparei com quem estava dentro dele: Claudia e Vassilis. Coincidência absurda. Estavam indo ao cinema, que é ali perto, enquanto Gloria e eu estávamos tão cansadas, que nem a insônia dela causada pelo jet lag conseguiu resistir.

Acordei no domingo com uma sensação de descanso nunca antes experimentada, mas não consegui sair de casa o dia inteiro. Talvez as águas de Edipsos tenham também trazido à tona algumas emoções que estavam escondidas.

13 de out. de 2010

Coffee Week

Segunda-feira Milena e eu resolvemos nos arriscar na cozinha e preparar um frappe grego gelado cheio de espuma, que acabou ficando gelado demais. De tarde, preparamos a versão quente e até que ficou gostoso, e me diverti durante a semana tentando criar diversas maneiras de preparar café com a máquina de fazer espuma. No fim das contas, acabei voltando ao tradicional italiano filtrado com o creme que deixa a gente sem fome até a hora do almoço.

O elevador do prédio onde moro estragou na terça-feira. Foi ótimo para descobrir o quanto estou fora de forma ao subir cinco andares, o qual era o impulso que precisava para começar a frequentar a academia essa semana. É incrível o efeito energizante de uma dose de exercícios físicos e yoga, além do efeito colateral das endorfinas, que me deixaram no humor de chegar em casa tarde e cozinhar um panelão de risotto de abobrinhas, arrumar a casa e lavar as roupas.

Esta foi também a semana de ajudar Gloria a se localizar por aqui. Finalmente encontrei alguém que é mais calma e caminha mais devagar do que eu. Quarta-feira fizemos sessão de shiatsu e acho que ganhei uma paciente semanal.

11 de out. de 2010

Almoço de domingo

George, o menino que conheci no Seminário de Yoga, me convidou para participar de um almoço de família no domingo. Nos encontramos na estação de Penteli e andamos até um café para encontrar a irmã dele e mais uma amiga. De lá, fomos até a casa deles, onde conheci sua adorável e receptível família, reunidos na sala de estar cujas janelas enormes de vidro são propositalmente despidas de cortinas para exibir a paisagem das árvores, plantas e flores.

O avô de George é egípcio, assim como Milu, a mãe, que também morou na Palestina. O pai é libanês e disse que se eu quiser ir a Beirute, já tenho lugar para ficar. Uma das senhoras mais lindas que já conheci também estava lá, ela é libanesa mas mora há muito tempo em Atenas e é amiga íntima da família. A primeira coisa que a irmã de George me perguntou foi meu signo e ascendente. Milu estava vendo o futuro do trabalho do marido na xícara de café quando cheguei.

Contei que havia recém-comprado um ticket para o Cairo e o avô de George ficou super feliz de falar sobre o país dele e deu algumas dicas do Egito. Milu cozinha muito bem e tem todo o cuidado para que a comida seja naturalmente preparada e com pouca gordura. O almoço estava delicioso, fui servida de pasta de tahini com beringela, tabule, penne ao molho de champignon, penne ao molho de tomate, grãos de feijão e couve-flor com amêndoas, além de pão sírio e um pão saborosíssimo e fresquinho feito por George. De sobremesa, foi improvisada uma vela no bolo de banana delicioso que George também cozinhou e cantaram parabéns pelo meu aniversário. O "Baba" de George (achei super fofo chamar o pai de "baba") me presenteou com um lindo colar de Yamén, um país que eu nem sabia que existia e que fica embaixo da Arábia Saudita.

Estava de fato sentindo falta de um ambiente familiar. Foi uma tarde prazerosa, me senti tão em casa que até tirei um cochilo depois do almoço com a família no sofá. Peguei um livro emprestado da biblioteca de Milu e George empacotou uma fatia do bolo de banana pra levar. Chegando em casa, uma versão quase irreconhecível da música cantava Jorge Ben... "pois você passa e não me olha, mas eu olho pra você... você não me diz nada, mas eu digo pra você" .

Just living

Esta semana terminei de ler "O Caminho do Guerreiro Pacífico", de Dan Milman. Felizmente ninguém notou a menina que chorava dentro metrô, lendo as últimas páginas de um livro.

Sexta-feira foi o dia de uma nova redatora aterrissar em terras atenienses. Gloria nasceu no Canadá, tem descendência coreana e mora nos Eua, em San Francisco, CA. Vai morar no mesmo prédio que eu e fui incumbida de ajudá-la com algumas questões que envolvem qualquer marinheiro de primeira viagem na Grécia.

Depois do trabalho, Omar foi comigo ao supermercado e ajudou a levar as compras até em casa. Claudia ligou e fomos encontrá-la para tomar um café, cuja tv exibia o segundo big brother da Grécia, onde uma bahiana participa para queimar o filme das brasileiras. Mais tarde, Milena e Lucci apareceram e fomos para um pequeno barzinho na frente de casa, onde encontramos sofás super confortáveis para conversar até uma hora da manhã. Ao ir embora, alguém próximo a porta me chamou. Não podia acreditar: era Lina, uma ex-colega de trabalho da última vez que estava em Atenas. Ela não fazia a menor idéia de que eu tinha voltado à Grécia. Foi uma grande coincidência.

Só bebi um chocolate quente mas cheguei em casa tão feliz quanto alguém que bebeu um litro de vodka. Certos momentos não tem explicação. A simplicidade de determinadas circunstâncias não são para se entender, mas simplesmente para se viver. Adormeci embriagada de gratidão por cada minuto e por todas as pessoas lindas com que a vida nos presenteia.

O tempo esfriou drasticamente nos últimos dias. Não é típico estar tão frio em outubro, acredito que em alguns dias a temperatura deve subir um pouco. Sábado, depois do almoço, bati na porta de Gloria, mas ela ainda estava dormindo. Omar apareceu lá em casa para buscar a sacola do supermercado, depois de comprar uma jaqueta na Zara. Lucci ligou todo empolgado porque tinha finalmente cortado o cabelo. Depois foi a vez de Gloria me tirar da cama e fomos até o restaurante embaixo de casa para jantar. Ficamos lá conversando por horas e horas. Gloria é super legal, de astral calmo e bem informada. Ela é budista e fiquei muito feliz por ter encontrado uma companheira de yoga e meditação, alguém para trocar idéias e ter conversas agradáveis. Já era nove e meia da noite quando Lucci ligou para nos encontrarmos na casa de Milena, que estava recebendo um casal de amigos polacos. Ela está morando no mesmo enorme apartamento que os tchecos moravam, com um lindo jardim cheio de flores fragrantes na entrada. Quando Gloria e eu chegamos lá, tinham nada mais nada menos que oito polacas no quarto dela, que nem mesmo Milena estava esperando. Uma redatora do Líbano chegou este fim de semana e vai dividir o apartamento com ela, mas não a vimos, pois estava dormindo.

Tomamos sopa instantânea da Polônia e um pouco de vinho grego que sai de uma caixa de papelão através de uma torneirinha. Foi legal pois Gloria teve a oportunidade de conhecer os novos colegas antes do primeiro dia de trabalho e demos muita risada. Tenho certeza que vou sentir falta deles quando partir. Percebi que estou falando inglês que nem grego, com o mesmo ritmo e trejeitos típicos.

6 de out. de 2010

Signomi

Segunda-feira não ouvi o despertador e saí correndo de casa. Entrando na estação de metrô, ouço uma mulher chamando "Luláááá!", "Luláááááá!". Olhei para trás e ela apontava o dedo na minha direção, mas como não a conhecia e meu nome não é "Lulá" não dei bola e continuei em frente. Ela aumentou a velocidade das passadas e não parava de chamar "Luláááá!" até que finalmente me alcançou e me cutucou. Olhei para trás, ela olhou para mim, disse um monte de coisa em grego e foi embora. Eu só entendi a primeira palavra que era 'signomi' e que significa 'desculpe'. Provavelmente me confundiu com outra pessoa, apesar de achar bem difícil existir alguém parecida por aqui. Estou tentando entender o que foi isso até agora.

Chegando ao trabalho, ficamos sabendo que haveria uma reunião geral com o Presidente da empresa. Foi interessante para estudar linguagem corporal e comportamento humano, pois a reunião foi toda em grego e nós redatores não entendemos lhufas.

Segunda-feira também foi aniversário do cunhado e terça-feira, o sobrinho completou um ano de vida e nos presenteou com um vídeo em que ele fala "mã-mãe!" pela primeira vez. Mais tarde, derreti que nem manteiga quando ele disse "tchau!" pra tia na webcam.

30 de set. de 2010

Weird weekend

Sábado dormi até o celular tocar. Era Lucci me acordando para irmos às compras. Combinamos de nos encontrar em Syntagma, de onde o levaria para a loja da Louis Vuitton que ele tanto queria.

Ao sair de casa, fechei a porta e me dei conta que a chave ficou do lado de dentro. Não conseguia acreditar no que tinha feito, porque aqui todas as portas trancam automaticamente e não poderia mais entrar em casa. Imediatamente liguei para Klea, a proprietária. Ela riu e disse que não é a primeira vez que isso acontece neste apartamento.

Ao entrar com Lucci na loja da Louis Vuitton, me senti num circo. Achei graça nos preços dos produtos, nos vendedores formalmente fantasiados dentro do ar condicionado, com seus discursos e coreografias "sofisticados", cujos gestos e palavras minuciosamente selecionados escondem o medo de não receber a comissão das vendas no fim do mês. Como qualquer loja de "grife", o cenário é artificialmente luxuoso e calculado para alimentar a ilusão de seus clientes de que são seres humanos especiais e exclusivos. Mais engraçado, só as pessoas mentalmente manipuladas que pagam fortunas para andar na rua com uma logomarca estampada no corpo, sem se dar conta que estão apenas tentando suprir suas carências e necessidades inventadas e condicionadas de consumir status, com o pretexto de que estão comprando apenas "qualidade".

Depois do circo Louis Vuitton, deixei Lucci na Zara e fui encontrar com Klea para que ela abrisse o apartamento com a chave reserva. Porém, a chave estava virada no lado de dentro, e não teve jeito de abrir. Disse que teríamos que chamar um chaveiro e que ia custar em torno de 100 euros, principalmente porque era sábado e ninguém mais estava trabalhando. Já tinha idéia de que era caro, pois na vez passada que estava em Atenas meu vizinho perdeu a chave e disse que custaria 200 euros para fazer outra.

Ela chegou a sugerir que dormisse na casa de alguma amiga e deixasse isso para segunda-feira, mas não achei uma boa idéia. Então fomos atrás de um chaveiro, com Klea e seus dois filhos pequenos no carrinho, mas todos estavam fechados. Então ela ligou para um que já conhecia e disse que eu era prima do marido dela para que ele cobrasse menos pelo serviço.

Em quinze minutos ele chegou. Foi só desparafusar a tranca, empurrar a chave que estava dentro até cair no chão e usar a chave reserva para abrir. O serviço todo levou um minuto, o tempo de Omar ligar e dizer a ele para esperar em Syntagma. O chaveiro ficou me olhando enquanto eu olhava para ele, porque como ele não fala inglês, eu estava tentando só falar grego para que colasse a idéia de que o marido de Klea era meu primo. Então ele disse "Krímata!" - que significa "dinheiro", e aquele minuto me custou inacreditáveis 40 euros. Bom, poderia ter sido pior. Encontrei com Omar e fomos resgatar Lucci na Zara, que estava carregando duas sacolas enormes e pagando a conta de 400 euros. Omar comprou um perfume e fomos deixar as sacolas de compras lá em casa.

Aproveitei para fazer uma sessão de shiatsu em Lucci, como presente de aniversário, conforme havia prometido, enquanto Omar rezava voltado para a Meca perto da janela. Depois foi a vez dele de receber massagem.

Tinha acabado de esquentar a água para tomar banho e sairmos para jantar quando repentinamente a energia elétrica caiu. Neste momento, Chiara, minha vizinha, estava no skype desesperada porque estava atrasada para uma festa e a luz caiu bem na hora em que secava o cabelo. Omar respondeu por mim, chamando-a para vir até minha porta, mas não tinha a menor idéia de que os meninos estavam lá. Chegou xingando Deus e o mundo quando deu de cara com Omar, e logo em seguida, Lucci surgiu por detrás da parede. Ela ficou mais assustada do que já estava. Perguntei se tinha ouvido algum barulho de queda no disjuntor, mas disse que não e voltou ao apartamento dela.

Importunei novamente Klea e ela pediu pra que fosse até o painel do apartamento de Chiara verificar se todos os pinos estavam voltados para cima. Batia na porta e ela não respondia. De vez em quando ouvia "só um momento!" - e nada de abrir a porta. Dez minutos depois, Klea ligou novamente e disse que ainda não tinha conseguido entrar no apartamento de Chiara. Como pode alguém demorar tanto tempo para vestir uma roupa e abrir a porta? Mais alguns minutos e painel verificado depois, Klea estava indo até lá. Como o técnico estava longe de Atenas, fui com ela até uma espécie de sótão nebuloso que tem em todos os prédios aqui, para verificar os geradores. O local é um cenário perfeito para cena de filme de terror. Klea então chamou o serviço público e depois de me arrumar no escuro, finalmente saímos para jantar.

Encontramos Milena em Syntagma e andamos até Monastiraki. Jantamos num restaurante próximo a Akropoli, à mesa kebab, vinho branco e muita risada. Omar foi muito gentil em pagar a conta como presente aos aniversariantes da semana.
Já era meia noite quando resolvemos ir andando até Psiri, onde o tanzaniano e a polaca beberam várias tequilas. Muçulmano não bebe, mas até Omar bebeu tequila. Eu acabei não resistindo e tomei uma também. Depois partimos para Gazi, entramos em algumas baladinhas e Lucciano não parava de beber. Reclamou a semana inteira que a Grécia inteira fuma e quando vi estava com um cigarro na mão, me chamando de "Santorini". Num dos lugares que entramos, estava tocando Britney Spears e havia aproximadamente dez jovens gregos em catarse coletiva brincando de fazer montinho num sofá e Lucci, é claro, queria se juntar a eles.

Partimos para outro lugar, onde Milena encontrou um mineiro, ele e outro amigo brasileiro moram em Barcelona. Omar já tinha ido embora e Lucci estava trôpego de bêbado. Pedi informações de como voltar pra casa e por sorte um casal super gente boa ofereceu uma carona. Tive que levar Lucci junto. Quis matá-lo quando vi que vomitou na pia do meu banheiro cheiroso, sendo que não se pode jogar nada que não seja puramente líquido nela ou terei sérios problemas com entupimentos. A criatura acabou dormindo lá em casa e não conseguiu levantar da cama até final da tarde de tanta ressaca. Para completar, de manhã cedo o sino da igreja deu sessenta badaladas estridentes, em três séries de vinte que latejavam na minha cabeça. Estava quase conseguindo dormir novamente, quando um alarme que parecia de incêndio gritava incessantemente. Fiquei preocupada pois não sabia de onde vinha, levantei e segui o som até descobrir que era do despertador do celular de Lucci. Quis máta-lo (2).

Saí para almoçar e trouxe um suco de laranja ao ressaquiado, apertei alguns pontos de Lucci para tratar fígado, náuseas e dor de cabeça. Ainda bem que Omar apareceu lá em casa mais tarde para buscar as sacolas e carregou Lucci junto. A primeira coisa que fiz foi faxina no apartamento para purificar as energias deste fim de semana atípico. Depois falei com a família na webcam e só de ver o sobrinho através de som, imagem e movimento, já ganhei o domingo. Fiquei feliz por não estar no Brasil neste dia e não ter que decidir em quem votar nas eleições.

Neste fim de semana teve festa da indepedência da Nigéria. Não sabia que tanto Nigéria quanto Tanzânia só conquistaram sua independência há aproximadamente singelos 50 anos atrás.

Picuinhas

Mais uma redatora chegou essa semana. Sempre tive curiosidade em conhecer alguém da Polônia, por causa da origem familiar, e fiquei ainda mais contente quando descobri que Milena, além de polaca, também fala português. Ela morou em Portugal durante seis meses, onde namorou um brasileiro. Sabe falar uma porção de palavrões e dei risada quando ela disse que gosta de ouvir Mauricio Manieri. Assim como o romeno e o africano, também veio me falar da novela "O Clone". O pessoal aqui sabe mais das novelas brasileiras do que eu. Sempre tiram sarro, dizendo que não sou brasileira. Estou espantada com a abrangência "global" da "rede globo".

Se tem uma novela que não acaba nunca, é a da máquina de lavar. Ela foi recém-tirada da caixa e estava funcionando muito bem até a italiana usá-la. Já fiz várias tentativas, li e reli o manual e as roupas continuam saindo super ultra enxarcadas lá de dentro e desta vez não tem sacada em casa.

Além do transporte público, parece que aqui os caminhões de transporte também entram em greve e por isso ficamos alguns dias sem água mineral no escritório. Certo dia, voltando do trabalho, vi vários policiais por toda a parte e um grupo enorme de pessoas reunidas pertinho de casa em protesto, carregando faixas, liderado por alguém que falava alguma coisa em grego no auto falante.

Happy Birthday

Vinte e sete de setembro. Dia de esquecer o celular em casa e comemorar o aniversário trabalhando loucamente até 10h30 da noite. Lucci ia me levar para jantar, mas como o trabalho me deixou estupidamente ocupada até tarde, ficou para outra ocasião. Mesmo assim o dia foi divertido. Recebi alguns tímidos "Happy birthdays" e raros abraços. Esse hábito de abraçar não parece ser a praia dos europeus. Para entrar na onda da tradição grega de dar doces em ocasiões especiais, trouxe dois quilos de sonho de valsa do Brasil que distribuí para o pessoal, entre faxineiras, guardas, colegas, gerentes e chefes.

Essa é a semana dos aniversários. Lucci faz 25 anos na quinta-feira e Vicky, uma colega que trabalha em outra empresa aqui do prédio e de vez em quando almoça conosco, faz aniversário na sexta-feira. "Xronia polla"!

Yoga e meditação

Quase não acreditei quando recebi a notícia de que vamos ter yoga de graça no trabalho, e dessa vez o professor não fala grego. Ele nasceu na Suíça, foi criado na Alemanha e agora mora em Kalamos, a meia hora de Atenas. Quinta-feira tive a primeira aula e foi simplesmente a mais incrível aula de Hatha e Krya yoga que já experimentei. A sensação que tive foi de que estava finalmente entrando em contato com a Yoga pura, completamente diferente do que se encontra em qualquer esquina. Ele comentou que no dia seguinte haveria um seminário de meditação que duraria todo o fim de semana.

O investimento era alto mas a programação se encaixava perfeitamente com o que eu estava precisando. Sexta-feira antes do trabalho arrumei rapidamente algumas coisas na mochila, pois caso realmente fosse ao Seminário teria que ir direto do trabalho para Kalamos. Liguei para o professor, arranjei uma carona e pedi para sair uma hora mais cedo para encontrar com o simpático Gol vermelho dentro do qual três pessoas muito especiais aguardavam para juntos irmos até o Seminário.
Foram sete horas diárias de prática de yoga e meditação, iniciando as seis horas da manhã, intercaladas por refeições naturais, acompanhada de paz, ar puro e pessoas queridas. Especialmente George, um menino lindo que foi super gentil e atencioso comigo durante todo o fim de semana e emprestou seu moleton e meias para aquecer uma colega completamente desprevinida para o frio de Kalamos. Marcel, o professor, é uma daquelas figuras difíceis de descrever. Ele tem mais de cinquenta anos e é pura energia, objetividade, serenidade e sabedoria. Em apenas alguns dias de prática exaustiva e com a colaboração do método intenso de Marcel, já pude notar alguns dos benefícios e fiquei surpresa com o que o corpo é capaz de fazer. Sem dúvida, o melhor plano de saúde que conheço é praticar Yoga.

Foi um tanto estranho voltar a Atenas no domingo a noite e perceber quão maluca é a realidade atual das grandes cidades. Ainda dentro do metrô, as pessoas pareciam me olhar de um jeito diferente, como se notassem toda a energia positiva acumulada no fim de semana.

Shopping

Quarta-feira fui às compras depois do trabalho. Lucci foi me encontrar no supermercado e logo em seguida Omar também apareceu. Imagine um árabe, um tanzaniano e uma brasileira num supermercado grego. Foi no mínimo divertido. Lucci me ajudou a escolher as laranjas e pegamos todos o mesmo ônibus pra voltar pra casa. Esses meninos são dotados de um senso de humor e corações lindos. Sou muito grata por tê-los perto todos os dias.

23 de set. de 2010

Hakuna Matata

Lucci estava me contando que o filme do Rei Leão foi inspirado na Tanzânia, não só os cenários como também a tão famosa frase "Hakuna Matata", que significa "no worries" em swahili, a língua oficial do país. Aqui vai o link para quem quiser lembrar esta adorável canção: http://www.youtube.com/watch?v=ejEVczA8PLU
Achei o máximo ter um amigo que fala a língua do Rei Leão. O filme é realmente cheio de músicas tão lindas quanto suas mensagens, como de "we are one" - http://youtu.be/glDGAo9SIqs

As you go through life you'll see
There is so much that we
Don't understand

And the only thing we know
Is things don't always go
The way we planned

But you'll see every day
That we'll never turn away
When it seems all your dreams come undone

We will stand by your side
Filled with hope and filled with pride
We are more than we are
We are one

If there's so much I must be
Can I still just be me
The way I am?

Can I trust in my own heart
Or am I just one part
Of some big plan?

Even those who are gone
Are with us as we go on
Your journey has only begun

Tears of pain, tears of joy
One thing nothing can destroy
Is our pride, deep inside
We are one

We are one, you and I
We are like the earth and sky
One family under the sun

All the wisdom to lead
All the courage that you need
You will find when you see
We are one

21 de set. de 2010

Agistri II

Posso dizer que tive o melhor despertar de toda minha vida. A naturalidade com que o Sol atravessava a cortina e iluminava as paredes brancas daquela manhã macia, cuja paz era delicadamente colorida pelo som dos pássaros, compunha junto ao silêncio a mais pura melodia para chamar um novo dia. Foi quando me dei conta da poluição sonora a que estou expondo os ouvidos diariamente ao viver no centro da turbulenta Atenas.

Depois de mais um banho abençoado, do desjejum na sacada e de desejar bom dia aos donos do lugar, paguei a conta, agradeci, devolvi a chave e fui até a igrejinha de Skala para saber do ônibus que me levaria para o outro lado da ilha. Mais sincronizado, impossível. Por sorte, ele estava ali parado à espera da última passageira a embarcar.

Ao chegar no porto, um grupo enorme da terceira idade invadiu o ônibus. Uma senhorinha muito simpática sentou ao meu lado e disse que todo o grupo também estava indo até Aponissos. Ela foi professora de francês e entendia inglês mais do que falava, mas se esforçava muito para se comunicar.

Agistri é uma ilha que esbanja verde comparada às outras ilhas gregas. Aponissos é o ponto final do ônibus e dali mais alguns passos, mal dá para acreditar no que se vê. Uma enorme piscina natural cristalina e transparente que convida o olhar a nadar livremente por entre as tonalidades e nuances daquela paisagem exuberante. Precisei de vários minutos para contemplar tamanha perfeição da natureza até enfim mergulhar naquelas cores irresistíveis. Em Aponissos não existe outra opção além de ficar imersa na transparência de suas águas até cansar os cinco sentidos de tanta beleza ao redor.

Como era de esperar, tive a companhia de várias senhorinhas e senhores simpáticos, inclusive um deles veio gentilmente até mim oferecer torradas. Muitas lanchas param ao redor de Aponissos para tomar banho no local. Encontrei uma espécie de prancha, onde fiquei mais de uma hora estirada sob as águas e me diverti numa espécie de mini piscina suspensa onde é possível ficar sentada, sentindo-se parte de toda aquela criação divina.

Depois de algumas horas de imersão, alimentei o corpo com uma banana solarizada, que literalmente assou dentro da mochila com o calor do Sol. Hora de pegar o último ônibus de volta à Skala.

Tem grego que parece criança pequena tentando sentar no ônibus e guardar lugar pro amigo. A senhorinha com quem tinha conversado na ida também estava lá na volta. Ela disse que na minha idade também vivia viajando sozinha. "Liberdade!" - disse ela. Há momentos em que o ônibus parece passar a menos de um centímetro de distância entre as construções. Definitivamente habilidade é requisito para ser motorista por aqui.

Chegando em Skala, comprei o ticket para o ferry de volta a Atenas e repousei todo o corpo na espreguiçadeira com os pés tocando a água, que por sua vez tocava preguiçosamente a terra. Faltavam dez minutos para as dezoito horas quando o ferry aportou em Agistri.

Subi até o último deck, de onde pude apreciar toda a imensidão do mar. A viagem levou o tempo de o Sol se pôr, de risadas, reflexões, palavras, beijos e carinhos, a soneca dos cãezinhos, o vôo dos passarinhos, várias fotografias, páginas de livro e músicas no fone de ouvido.

Já era noite quando aportamos em Piraeus, onde jantei um gyros pitta de frango antes de pegar o metrô. Ao chegar em Monastiraki, descia a escada rolante da estação para fazer conexão até Syntagma, e eis que olho para o lado e sob exatamente o mesmo degrau em que me encontrava, estava também ela: a senhorinha do ônibus de Aponissos. Nós nos olhamos concomitante e sincronizadamente e as duas não podiam acreditar naquela coincidência. Não tivemos outra reação a nao ser cair na gargalhada. Ela então perguntou se eu tinha celular e trocamos os números. O nome dela é Melina, um dos meus nomes preferidos e disse que qualquer coisa que precisasse em Atenas, poderia ligar pra ela. Linda.

20 de set. de 2010

Agistri

Acordei no exato instante em que meu corpo físico desejava. Através da janela, o Sol doava todo o seu brilho a mais um dia de sábado sem esperar nada em troca.

Por motivos femininos, achei que fosse melhor ficar em casa este fim de semana. Mas o calor estava tão intenso que não tive outra escolha: preparei a mochila e parti em direção ao Porto de Piraeus, onde comprei um ticket com destino a Ilha de Agistri.

Uma hora e uma parada na ilha de Aegina depois, estava colocando os pés neste pedaço de terra pacato e não muito turístico chamado Agistri. Não tinha a menor ideia de qual lugar da ilha desembarquei. Todos que estavam no ferry faziam fila para entrar no ônibus que estava ali parado. Perguntei para onde ele ia e me responderam com uma pergunta: - Para onde você quer ir? - Não sei - respondi com um sorriso.

Entrei no ônibus e cheguei na praia de Skala, passando pela encantadora vila de Megalochori. Meus olhos mal podiam acreditar na cor daquelas águas contornadas por singelos quiosques de palha e na graciosidade de uma porção de tavernas gregas despretensiosas em receber seus visitantes. Fiquei perplexa e neste momento me dei conta que essa pequena ilha pode ter muito mais a oferecer do que as famosas e visadas como Mykhonos ou Santorini.

Caminhei por entre algumas ruas para reconhecer a área, perguntar por itens de sobrevivência como quanto custava para dormir e comer. Peguei um mapa da ilha, algumas referências e fui com a mochila nas costas para Skliri, uma mini praia lindissima, cujo acesso se dá por uma descida daquelas que você escolhe onde pisar e cuja linha de chegada tem cor de azul e transparência mais gratificantes do que qualquer troféu ou medalha.

Subi e segui as setas que indicavam a direção até Chalkida. O caminho ia se desenhando a minha frente e em alguns momentos o verde da ilha se fechava, como quem queria apagar seus traços para me confundir. Não havia ninguém por perto, apenas algumas barracas de camping vazias.
Foi então que avistei duas pessoas no alto de um morro de pedras e fui até lá. O lugar era incrível, um abismo de cores e contrastes que convida o olhar a se atirar sem medo. Um dos turcos que ali estavam advertiu para ter cuidado, pois era perigoso ali de cima. Conversamos um pouco e cada um fez questão de tirar uma foto comigo antes de ir embora.

Eu queria descer até a praia que se exibia lá embaixo do jeito mais lindo que a água pode encontrar a terra. Não fazia ideia de como chegar até lá, quanto mais andava mais abismos encontrava. Mas se algumas pessoas conseguiram chegar, eu também poderia. Percorri todos os caminhos possíveis e cada vez me distanciava mais de qualquer possibilidade de acesso. Foi então que avistei algumas pessoas descendo do outro lado de onde estava. Voltei até lá, olhei para baixo e não tive certeza se era possível. Mas não havia outra maneira. Coloquei a câmera na mochila e desci cuidadosamente, estudando cada passo para minimizar os riscos de qualquer deslize das havaianas, que em alguns instantes estavam pisando em Chalkida. Nada como a sensação de superação acompanhada de um presente de Deus que é esta praia.

Foi aí que vi algumas pessoas nuas e outras sem a parte de cima do biquini e então me dei conta que estava numa praia nudista. Algumas barracas de camping faziam parte do cenário e neste momento percebi quão abençoado é o mar mediterrâneo. Além das suas cores maravilhosas, da temperatura agradável e da quase ausência de ondas que o transformam numa gigante piscina natural, a maré aqui não oscila. Confesso que deu uma vontade enorme de acampar ali.

Desenrolei a canga, deitei, inspirei e apreciei o degradê da cor verde para o azul da água em contraste com as pedras brancas arredondadas em que meu corpo se apoiava. Até o barulho das ondas soava como o paraíso na Terra. Se Deus tivesse que escolher uma praia para passar as férias, essa praia seria Chalkida.

Estava me sentindo tão à vontade naquele lugar que quando me dei conta estava tirando a parte de cima do biquini. A sensação de liberdade, bem estar e integração com a natureza ao sentir o Sol e se atirar nas águas daquele mar, livre de qualquer pedaço de tecido elástico e de qualquer pressão sob a pele, músculos e ossos não tem preço. De fato, biquini é desnecessário.

Estava vendo, ouvindo, tocando, saboreando e respirando a mais pura paz até um grego vir falar comigo. Uma coisa é você fazer topless, outra completamente diferente é alguém puxar assunto quando você não está vestindo a parte de cima do biquini. Cortei o papo e disse que ia para o outro lado onde havia mais Sol. Poucos minutos depois, o mesmo homem grego e nu sentou-se ao meu lado e começou a conversar.

No fim das contas, a conversa foi agradável, ele já esteve no Brasil e estava com uma lancha ancorada na praia. A sombra tomava conta de Chalkida e então ele me convidou para ver o pôr-do-Sol do outro lado da ilha. Achei melhor não. Ele insistiu e disse que depois me deixaria no Porto. Acabei aceitando, pois estava com vontade de dar uma volta de barco e assim não precisaria escalar aquele morro de pedras para voltar. Kostas trouxe a lancha mais perto da praia e então a personalidade libriana aflorou e mudei de ideia. Disse a ele que nao ia mais, até porque não estava mais com vontade de entrar na água e ainda havia a minha mochila. Ele então voltou e trouxe a lancha ainda mais perto. Neste instante a praia inteira assistia à cena. Levou a mochila com todo o cuidado para não molhar até o barco e eu acabei embarcando.

Ancoramos próximo a Dragonera, uma praia que havia planejado ir no dia seguinte. Foi ótimo porque assim pude descartá-la e tornar o roteiro de domingo mais proveitoso. Próximo ao barco havia uma super mini praia privativa só para nós e o mar inteiro para nadar. Nossa conversa então começou a tomar outro rumo e Kostas começou a me cantar, a me fazer carinho e tentou me beijar. Mas como poderia beijar aquele homem que mal conhecia? O ambiente era propício, a conversa era boa, ele era atraente, tudo estava agradável mas aquilo não teria significado algum. Deixei claro a ele que nada aconteceria. Ele foi persistente, mas resisti mesmo assim. Não sei exatamente onde estava com a cabeça quando aceitei a ideia de subir naquele barco mas no fim das contas valeu a pena. Ele então me deixou no Porto e fui atrás de um lugar para dormir antes que a escuridão predominasse sob o dia.

Sinto que minhas aulas virtuais de grego estão fazendo efeito. Consegui me comunicar com uma senhorinha em grego, já que ela não falava inglês. Ela dizia que em Agistri era muito bom, não tinha aquele monte de carros e barulho que tem em Atenas e que a água é azul e cristalina. É realmente incrível a paixão que alguns gregos alimentam pelo nosso país. Basta dizer que você é do Brasil que parece que um tapete vermelho se estende a sua frente e eles fazem o maior fuzuê para quem estiver por perto "Ela é brasileira!". Quase dá para ouvir o barulho das vuvuzelas de tanta alegria.

Só encontrava lugares para dormir por 30 ou 40 euros, até achar os Studios Green Islands que, custavam 40 euros, mas como estava sozinha, me alugaram um quarto com cheiro de novo, cama de casal, mais cama de solteiro, TV de plasma, sacada e uma ducha maravilhosa por 20 euros. Fiquei feliz da vida. Eu não precisava de tudo aquilo, mas tomei um dos melhores banhos da minha vida, me enxuguei em toalhas brancas cheirosas e fui ao mini mercado próximo comprar bananas, suco e chá para o domingo.

Estava morrendo de fome quando entrei numa taverna onde um garçom vestia a camisa azul do Robinho da seleção brasileira. Ele esperava que fosse pedir o jantar, mas antes perguntei se ele gostava do jogador, e então me contou que a camisa era presente de um amigo. Quando falei que eu vinha do Brasil, ele ficou todo sem jeito, e depois o ouvi todo prosa contando para os colegas "Ela é brasileira".

Depois de passar o dia inteiro com uma torrada no estômago, me presenteei com um delicioso jantar numa taverna encantadora, onde saboreei peixe fresco grelhado com legumes sob o luar e as estrelas, à luz de velas e com a vista de Agistri. Neste momento, só faltou o homem da minha vida sentado na cadeira à minha frente.

De volta ao hotel, descansei o corpo no colchão de densidade perfeita e adormeci entre lençóis brancos e macios, coberta de gratidão. Antes de de cerrar os olhos, uma mensagem especial de aniversário que infelizmente não chegou ao seu destino.

Dia-a-dia

Quarta-feira ao chegar em casa uma energia sem igual tomou conta de mim. Aproveitei para arrumar a casa, lavar roupa e organizar o guarda-roupa, ao som de músicas felizes.

Quinta-feira Giorgos ligou, mas não escutei. Percebi que tenho sérias dificuldades em ouvir o toque do celular. Giorgos é alguém que não conheço, mas conheci a irmã dele numa loja chamada "Feng Shui House", que vende artigos esotéricos entre outros apetrechos interessantes. Ela me passou o contato dele, para que eu pudesse encontrar alguém aqui em Atenas a fim de trocar ideias sobre terapias orientais. Como trabalhei até mais tarde, ficamos de nos encontrar em outra ocasião.

A sexta-feira foi de bastante trabalho, cheguei em casa exausta e exclusivamente disponível para minha cama. Queria ir a uma ilha no fim de semana e Lucciano desistiu de ir junto quando falei que tinha que acordar cedo. Como eu também não estava com vontade de acordar com despertador, resolvi simplesmente dormir e deixar amanhã no seu devido tempo: amanhã. Um dia de cada vez.

15 de set. de 2010

A Saga de cada dia

Terça-feira poderia trabalhar mais tarde, o que eu não sabia era que o metrô estaria em greve neste horário em alguns trechos e eles só avisaram em grego na estação. Resultado: fui até Plakentias, uma estação antes de onde trabalho, onde me disseram que teria que voltar até Halandri para pegar um ônibus. Chegando lá, recebi o aviso para voltar mais três estações. Ao menos não estava sozinha, pois antes um casal argentino havia me pedido informações para chegar ao aeroporto, e nós três acabamos indo pra lá e pra cá juntos. Depois de quinze minutos de espera em Ethnyki Amina, entramos no ônibus que vai até o aeroporto, cheio de desesperados e atrasados para pegar seus respectivos vôos, sendo esprimidos pela porta que não fechava, caindo que nem boliche em cima das suas bagagens enormes. Isso sim é Grécia. Tinha acabado de tomar banho e minha perna já escorria de suor.

A partir de então, tudo parecia correr bem. Entre malas e axilas, pedi para o ônibus parar no ponto onde eu deveria sair. Por incrível que pareça o ônibus passou reto, eu não conseguia acreditar. Só restou curtir o passeio e torcer para que houvesse ainda alguma parada antes do aeroporto. Então atravessei a avenida sob o Sol escaldante e peguei outro ônibus para voltar. Ufa.

Mesmo assim o dia foi divertido. Confesso que às vezes sai lágrima do olho de tanto dar risada com esse menino da Tanzânia. Acho que ele é o único que tem um senso de humor parecido com o meu por aqui.

Depois do trabalho, o metrô continuava em greve e entrei no primeiro ônibus que apareceu na minha frente escrito "Athina", pois tinha marcado de encontrar com Despina na estação Megaro Moussikis. O ônibus não era circular, mas desses de viagem, por isso tive que pagar um euro e quarenta cents. O motorista me deixou muito longe de onde eu desejava e tive que andar alguns quilômetros até chegar ao ponto de encontro.

Foi muito bom rever Despina, uma amiga grega que fala português. Tomamos chá num barzinho especialmente lindo, depois a acompanhei até a academia de capoeira. Assisti um pouco da aula e voltei pra casa.

*** Um diálogo entre um argentino e uma brasileira:
- Where are you from in Brazil?
- Joinville.
- Oh... most known as "Chuvaville"?

14 de set. de 2010

Busy day

Esqueci de dizer que quarta-feira passada surgiu uma oportunidade incrível através do Couchsurfing de viajar por dois dias para cidades do Norte da Grécia. Tudo de graça, organizado por uma ONG, incluindo transporte de ônibus, workshop sobre agricultura alternativa em Edessa, pernoite em sacos de dormir, refeições (naturais) e banhos terapêuticos nas águas quentes de Aridaia. Fiquei super empolgada e na mesma hora pedi dois days off para a chefa, pois seria na quinta e sexta-feira, mas infelizmente não foi possível. "This is impossible Sandrine, sorry". Ok, fica para próxima. Descobri que provavelmente não poderei pegar os dois dias de folga a que tenho direito por mês porque dessa vez só tem eu de brasileira por aqui. De qualquer forma, quem foi adorou e o projeto dessa organização parece super interessante, tomara que aconteçam outros eventos como este.

Inacreditavelmente trabalhei até quase uma hora da manhã na segunda-feira. Pelo menos foi divertido, pude voltar de táxi pra casa e ir trabalhar só ao meio dia no dia seguinte.

13 de set. de 2010

Saronida

Mesmo com as badaladas do sino da igreja, não tem nada melhor do que acordar sem despertador. Fiz um desjejum caprichado e fiquei pensando o que fazer deste domingo. Lucciano tinha comentado em ir no cinema assistir a "Step up 3d" e lá de fora vinha um vento com ares de chuva e um céu que estava perdendo suas cores. Foi então que lembrei que mesmo quando o tempo está cinza no centro, o Sol sempre se mantém insistente no litoral, com a vantagem de que o ônibus até lá está mais vazio porque ninguém se arrisca a ir a praia. Não exitei e logo estava na rua me sentindo um ET com os lacinhos do biquini a mostra enquanto alguns gregos vestiam casacos. Foi chegar no ponto de ônibus e o meu amigo E22 apareceu. Foi só fazer a curva para a avenida das Praias, que o Sol intenso parecia desdenhar de todas aquelas nuvens carregadas que ficaram para trás.

Desta vez fui até Saronida, o ponto final desta linha, que fica depois de Varkiza e antes de Sounion. O caminho é longo, porém agradável, daqueles que cansam as vistas de tantas paisagens bonitas e praias diferentes.

Um mar azul contrastando com as cores da palha dos quiosques estava a minha espera. O lugar é lindo e tinha pouquíssima gente. Estiquei a toalha e deixei os raios solares livres para penetrar a epiderme. Tomei um banho delicioso de mar mediterrâneo, cuja transparência permite ver perfeitamente até a ponta do dedão. A impressão é de que é possível cruzar o oceano andando pelas águas, pois você anda, anda, anda e continua dando pé. Entre as curvas e o horizonte, fica uma forte e real sensação de fazer parte de toda aquela imensidão oceânica.

Estava indo embora quando me ofereci para tirar uma foto para um casal que estava próximo. Inacreditavelmente, eles eram brasileiros. Jamais ia imaginar encontrar um conterrâneo em Saronida, ainda mais que a praia estava quase deserta. Eles eram de São Paulo e por coincidência, tinham amigos da maçonaria em Joinville. Ganhei uma conversa interessante e uma carona de volta.

Depois de um bom banho, já era hora de matar a fome. Spaguetti a moda da casa e gaufres de sobremesa.

Akropoli

Nove e meia da manhã, a chefa me ligou para ir trabalhar as 11h. Como era sábado, disse que poderia ir e voltar de táxi.

Chegando em casa, pensei ainda em ir a praia mas logo o céu ficou cinza e por incrível que pareça a previsão do tempo estava certa e choveu em Atenas, com direito a trovoada. Abri as janelas para deixar o cheiro gostoso de chuva invadir o ambiente. Chuva em Atenas é como ver neve pela primeira vez e não durou muito tempo. O Sol, ainda que intimidado por algumas nuvens, logo voltou a brilhar. Resolvi então calçar meu par de tênis e fazer uma caminhada pela Akropoli.

Acho que fiz o caminho mais alternativo possível até lá. Andei por plaka e deixei o Universo me conduzir por algumas ruelas entre casinhas brancas, cercadas de vasos azuis com flores rosa-púrpura, seguindo placas artesanais com setas indicando o caminho. Por um momento pensei que poderia ser até uma pegadinha. Em outros momentos, jurei estar dentro de um cenário de filme. Até que enfim cheguei ao morro de pedras que tem uma vista incrível de Atenas. Fiquei lá até anoitecer, admirando a imponente Akropoli mais iluminada do que a Lua crescente, enquanto ela olhava para mim.

Duas horas depois, cheguei em casa. Era sábado a noite e as meninas italianas queriam sair. Depois de um dia cansativo, preferi dormir cedo para aproveitar o dia de domingo.

8 de set. de 2010

Ramadhan und Deutsch sprechen

Um dia desses no trabalho, fui buscar água e me deparei com o árabe ajoelhado no chão. Levei um susto, pensei que ele estava passando mal. Logo percebi que estava apenas praticando uma das orações diárias voltado para a Meca que se espera de todo muçulmano. O Ramadhan acabou nesta semana e então ele finalmente pôde juntar-se a nós na hora do almoço. Perguntei a ele como era almoçar depois de tanto tempo, enquanto os braços dele tremiam. Parecia fraqueza, resultado de um mês se privando de algumas refeições e fiquei um pouco constrangida de presenciar a cena.

Quinta-feira Claudia ligou para tomarmos um café depois do trabalho, mas tinha marcado de encontrar um pessoal do Couchsurfing em Syntagma para um CS Deutsch meeting em Atenas. Definitivamente não foi a melhor idéia do mundo tentar falar alemão, mas foi divertido e interessante conhecer novas pessoas. Mais tarde, a praça encheu de gente para assistir a um show ao ar livre. Esses gregos são meio malucos. Sexta-feira saí do trabalho as 20h e provavelmente terei que ir trabalhar neste sábado.

7 de set. de 2010

7 de setembro

Feriadão no Brasil é dia de ir trabalhar por aqui. Angela foi até o centro comigo segunda-feira, a acompanhei em algumas lojas, onde tentei convencê-la a não usar só roupas escuras.

Depois ela me mostrou onde fica o melhor gyros (suvlaki) de Atenas, segundo ela, do lado de casa. Realmente é uma delícia. Ficamos conversando até depois das 11 pm, uma conversa bem interessante e agradável. Fiquei louca para conhecer a cidade de 2 mil habitantes ao norte da Itália de onde ela veio. É incrível como as pessoas as vezes passam uma impressão bem diferente do que elas são.

No dia seguinte ela me passou vários links para me mostrar algumas coisas que a gente tinha conversado. Aliás terça-feira tive uma aula de música grega com Angela e de música nigeriana com o Emannuel. Está começando a ficar mais divertido no escritório. Apesar do silêncio estranhíssimo que predomina por aqui, me divirto com o Lucciano, da Tanzânia, pelo msn. O romeno Alex que sempre ia almoçar comigo foi embora sexta-feira. Hoje chegou Chiara, a italiana que agora também é minha vizinha. Isso quer dizer que o vizinho da Califórnia que encontrei por acaso na lavanderia já deve ter ido embora.

Uma das coisas mais legais de ir trabalhar com o metrô que vai até o aeroporto é que todo dia ele está cheio de gente dos mais variados lugares do mundo com suas respectivas bagagens. Certo dia fui conversando com uma senhorinha grega muito simpática que mora na Austrália há 40 anos. Hoje tinham alguns brasileiros que estavam indo embora, um deles trabalha na Nestlé, na Suíça.

De acordo com Emannuel, apesar de o inglês ser a língua oficial da Nigéria, existem três "tribos", ou seja, três dialetos diferentes: yoruba, hausa e ibo. Vale a pena ouvir essa música lindíssima em yoruba: http://youtu.be/-XEKOW51nkc

Letra: Asa Eye Adaba

Oju mo ti mo
Oju mo ti mo mi
Ni le yi o
Oju mo ti mo
Mo ri re o

Eye adaba ye adaba
Eye adaba ti n fo lo ke lo ke
Wa ba le mi o o
Oju mo ti mo
Mo ri re o

Tradução:
I wake up at dawn
As it dawn’s upon me
I wake up to the sun
Shining upon me
I see doves in the sky
Birds flying high
Then in silence
I pray for peace
For my people

6 de set. de 2010

Fds

Não sabia o que inventar no fim de semana. Preguiça de viajar, vontade de descansar.

Sábado então fiz faxina em casa, organizei algumas coisas e quando fui almoçar já eram umas 15h. Claudia ligou para encontrar ela e Mariana no café do Shopping Attica, que é aqui pertinho de casa. Depois fomos ao restaurante de sushi e caminhamos por plaka e Akropoli até a casa da Claudia, onde fizemos sessão de manicure e de shiatsu. Acabei tomando banho por lá mesmo e fomos jantar numa taverna com o Vassilis, a irmã dele e mais uns amigos. Carne de coelho com beringelas, salada grega, etc.

Fazia tempo que não ia dormir tarde. O sino da igreja no domingo até me acordou por alguns milésimos de segundo, mas logo voltei a dormir. Mais tarde encontrei o pessoal em Sygrou e fomos na marina Flasvos tomar café (suco) e uma bola de haagen dazz. A Marina é enorme e lindíssima, cheia de iates gigantes e bem estruturada com restaurantes, lojas e barzinhos.

Segui com a Mari até a casa dela em Varkiza, uma das regiões nobres daqui. A casa tem 3 andares e todas as casas ao redor são muito tipicamente gregas. A praia é muito bonita, fica no caminho para Sounion. Depois de um banho de mar revigorante, aproveitamos o sol deitadas na espreguiçadeira até umas 7 pm. Tomei banho enquanto Mari preparava um strogonoff de frango delicioso para nós. Peguei o ônibus das 9 pm e chegando em Syntagma, resolvi visitar a feira do livro, tudo em grego, claro. Mesmo assim, saí de lá com um livrinho infantil para o sobrinho aprender as letras do alfabeto.

30 de ago. de 2010

Semanitcha

A semana foi tranqüila, dedicada ao trabalho e a mim mesma. Transformei minha casa num centro holístico de auto cura e reservei esta semana para cuidar de mim.

Quinta-feira tive uma grande surpresa ao voltar do trabalho. Chegando em Syntagma, meus ouvidos logo reconheceram uma linda música do Vangelis. Foi então que me deparei com um grupo enorme de pessoas uniformizadas tocando seus respectivos intrumentos regidos por um maestro e rodeados por muitos curiosos. Era um concerto ao ar livre ali na minha frente. Parei pra assistir. Não há quem tivesse um coração batendo que não se emocionasse de alguma forma. Foi de saltar lágrima do olho e arrepiar até a ponta dos cabelos.

Sexta feira teve o show 360 graus do U2 no estádio olímpico.

*** Uma camiseta em meio a multidão: "Fuck google. Ask me."

Vouliagmenis Limni

Descobri que sempre acordarei cedo aos domingos. O sino da igreja aqui na frente insiste em dar uma série de badaladas estridentes que faz qualquer um levantar da cama.

Depois do desjejum, parti rumo a praça de Syntagma procurar pelo ônibus E22 que leva até Vouliagmenis Limni. Cinquenta minutos depois, a condução cheia de sedentos por litoral me deixou praticamente na porta de entrada.

Fiquei encantada com a maravilha natural de rara formação geográfica que se encontrava diante dos meus olhos. Há muito tempo atrás, o local era uma caverna que por causa de um terremoto se transformou nessa Lagoa linda e misteriosa, que continua no fundo da montanha em uma caverna subaquática ainda não totalmente explorada, pois parece que o fim dela é impossível de rastrear até mesmo com detecção sonar, onde alguns mergulhadores já afundaram em expedições.

Como se não bastasse sua beleza, a lagoa Vouliagmeni é um spa mineral com propriedades curativas para várias doenças. A composição do lago é salobra e cheia de minerais como potássio, sódio, lítio, amónio, cálcio, ferro, cloro, iodo, conhecidos por proporcionar alívio aos ossos e músculos. A água, também ligeiramente radioativa, se mantém em 24 graus C de temperatura o ano inteiro. Era tudo que meu corpo precisava depois da maratona dos útlimos dias. Fiquei quase o dia inteiro imersa na água igual um bonequinho de pebolim sem a menor preocupação de acertar o gol.

O local é dominado pela terceira idade, principalmente na parte da manhã, quando conversei com senhorinhas muito simpáticas na água. Uma vizinha de guarda-sol gentilmente me ofereceu biscoitos de milho e a vizinha do outro lado fez questão de que eu me mudasse para o guarda-sol dela depois que ela foi embora. Lindas.

No período da tarde, mudei para o outro lado para deitar na espreguiçadeira e cutir um outro ângulo da lagoa. Tirei a soneca mais iluminada da minha vida. Estava tudo uma delícia até um grego começar a puxar papo em francês, a comunicação era um horror e ele insistia pra ir até outra praia, pra tomar banho de lagoa com ele, pra sair com ele mais tarde. Chatíssimo. Para concluir a terapia de domingo, um baita trânsito para voltar pra casa.

Não entendo como nunca me falaram desse lugar antes. Disseram que é porque tem muitos idosos mas pra mim isso é só mais um motivo para ir até lá. Sábios velhinhos.

Paraskevi & Sawato

Meus planos de ir ao shopping foram por água abaixo. Sexta-feira trabalhei até 9 pm.

Como a liquidação acaba segunda-feira, reservei o sábado para ir às compras. Embaixo do prédio que moro tem uma boutique cheia de artigos caros e vários acessórios estampados com a bandeira do Brasil. Uma quadra depois, entrei na Zara e saí de lá com uma sacola cheia, três horas depois de provar três andares inteiros. Fui obrigada a voltar pra casa pra deixar o peso das compras. Estou começando a achar que morar a poucos metros da Zara vai me trazer sérias dificuldades para fechar a mala na volta. Como as lojas do centro já tinham fechado, parti para o shopping.

Fiquei até tarde pesquisando sobre o destino do último domingo de verão. Neste calor delicioso tudo o que quero é um banho de mar. Estava entre ir a uma ilha ou uma praia, até descobrir uma tal Lagoa Vouliagmenis a menos de uma hora daqui. E é pra lá que eu vou.

Pro dia nascer feliz

Não sei se o despertador não tocou ou se meus ouvidos recusaram-se a ouví-lo, o fato é que quando abri os olhos estava super ultra atrasada.

Saí correndo para pegar o metrô e nem me dei conta que entrei naquele que não fazia conexão direta. Fiz o caminho mais longo possível pegando 2 metrôs e 1 trem para chegar ao destino.
O dia foi de bastante trabalho, quando vi já estava tarde e nem tinha almoçado. Aliás, estou com a sensação de que meu corpo vive de luz e que comida é desnecessária em dias de calor intenso.

Saí do trabalho um pouco mais tarde e na volta para casa andei pelas ruas próximas a Syntagma e constatei que as lojas ainda estão liquidando a coleção de verão. Era exatamente o que meu guarda-roupa precisava. Depois de visitar alguns provadores, atravessei uma rua, olhei para o lado e de repente vi a Akropoli linda e iluminada lá em cima. Não tinha me dado conta que estava morando tão perto dela. Quando vi já estava em Monastiraki, recheada de turistas, e voltei para casa.

28 de ago. de 2010

Primeiro dia

Nem deu tempo de regenerar o sono nem de me recuperar do jetlag e já tive que partir rumo ao primeiro dia de trabalho. Dia também de relembrar as estações do metrô, de passar calor na rua e de confundir as direções até chegar na empresa. Primeiro dia também é dia de configurar o pc, criar login, senha, email, etc etc. Mas já com várias tarefas a cumprir.

Desta vez estou trabalhando no lado oposto ao que trabalhava, numa sala maior com janelas panorâmicas, onde estão todos os redatores e os respectivos gerentes juntos. A paisagem interna está bem exótica, composta de um redator da Nigéria, da Arábia Saudita, da Tanzânia e uma da Itália.

Angela, a italiana, já morou onde moro e deu algumas dicas sobre a redondeza. Fui ao Carrefour abastecer a geladeira, mas achei um pouco longe e me perdi na volta. Descobri que o melhor jeito de encontrar o caminho de casa é seguir a direção de onde vem as músicas dos bares.