O local do seminário era próximo a Praça da Espanya e do Museu de Arte Contemporânea. Foram mais de oito horas com David Icke, das dez da manhã até nove e meia da noite, com alguns intervalos de quinze minutos e um intervalo um pouco maior na parte da tarde - quando aproveitei para caminhar pela região e visitar o Caixa Forum, um local cultural fantástico e gratuito, cheio de exposições interessantes.
A noite, Ton convidou-me para jantar em um restaurante chamado "la paradeta" - uma espécie de imitação de mercado onde você escolhe entre lulas, mariscos, peixes e camarões que ficam ali expostos, alguns ainda vivos - e pede para preparar do jeito que você quiser. Sentamos e esperamos chamar o número de nossa mesa para buscar os pratos prontos, acompanhados de vinho branco espanhol.
Como troquei o sábado de Sol em Barcelona por um dia inteiro dentro de uma sala escura com David Icke, tinha apenas domingo para conhecer a cidade de fato. Acordei cedo e peguei o metrô em Barceloneta rumo ao Parc Guell. Como Barcelona tem uma notável inclinação, me senti quase escalando as ruas para chegar até lá, mas valeu a pena: não esperava encontrar um parque tão lindo de cair o queixo. Explorei todos os caminhos, e me deixei encantar pelos jardins e obras de Gaudi. Por todos os lados do parque, encontram-se músicos tocando diferentes instrumentos que reproduzem as mais belas músicas do mundo que contagiam os ouvidos e tocam o coração de qualquer ser humano. Comprei um cachecol no meio do caminho e já era meio dia quando saí de lá.
Caminhei até La Pedreira, onde pode-se visitar o museu, o terraço e um apartamento. Fiquei impressionadíssima com a ousadia, irreverência e a genialidade de Gaudi. Todo arquiteto deveria conhecer os trabalhos dele de perto. Depois, Casa Batló e de lá segui caminhando até a belíssima Sagrada Família, a obra prima de Gaudi que ainda está em construção e não tem data para ser concluída. O Templo imponente é uma obra de arte gigante formada de várias esculturas combinadas cuja quantidade e graciosidade de detalhes na imensidão da construção é de brilhar os olhos. Infelizmente o Papa estava em Barcelona naquele domingo para consagrar a Sagrada Família pela primeira vez, então não era permitido entrar dentro do Templo. Só se falava nisso na cidade. O Papa não foi muito bem-vindo, havia protestos por todos os lados, das sacadas dos apartamentos até esculturas de areia na praia, pois muita gente não concorda com o sistema da Igreja. Ele foi "calorosamente" recebido por um beijo coletivo gay em protesto contra sua posição em relação à homossexualidade.
De lá peguei um metrô, funicular e um teleférico até o Castell de Montjuic, um forte antigo de onde se tem uma vista incrível de Barcelona. Voltei caminhando, me perdi entre algumas ruas até encontrar uma estação de metrô e chegar em Barceloneta. Caminhei por toda a orla da praia, de ponta a ponta, e fiquei encantada com a infra-estrutura litorânea e das marinas contornadas por veleiros e restaurantes. A certa altura, já não sabia mais pra qual lado era a Marina onde estava hospedada. Fui até o hotel que tem formato de veleiro iluminado dos cartões postais, onde ajudaram a me localizar. No caminho, Ton ligou para jantarmos com mais dois couchsurfers que chegaram, uma americana e um canadense. Na hora que pulei pra dentro do barco, meu anel caiu do dedo e não consegui mais achar. Não sei se foi porque emagreci depois de caminhar feito Forrest Gump o dia inteiro sem parar, mas o fato é que foi muito estranho o anel que nunca cai do dedo cair justamente na hora que estava entrando no barco. Ton e o canadense tentaram me ajudar com a lanterna, mas não teve jeito de encontrar. Deve ter caido na água. Logo em seguida, Ruy enviou uma mensagem dizendo que estava livre para fazermos uma sessão de massagem, mas tive que deixar para depois do jantar.
Fomos super mimados por Ton com pizza, salada agridoce exatamente do jeito que adoro, abacates e tomates regados a vinho tinto espanhol, além de cheesecake e bolo de chocolate de sobremesa. Delícia. Estava super cansada, os músculos das minhas pernas estavam entrando em colapso quando começou a chover forte e acabei cancelando a sessão de massagem.
Segunda-feira de manhã fui até a praia ao amanhecer e tentar encontrar o apartamento de Ruy para nos despedir, mas como entendi o numero da casa errado, acabei não encontrando e tive que ir para o aeroporto.
Uma tristeza tomou conta na sala de embarque, essa viagem a Barcelona parece ter embaralhado todas as minhas cartas. Uma vida inteira parecia rodopiar dentro da minha cabeça. Com sorte, tinha duas poltronas livres ao meu lado e dormi o vôo inteiro.
Ao aterrissar nas terras gregas, achei engraçado o cheiro forte e típico de sarcófago que tem Atenas. Meu cérebro estava tão desorientado, que quando fui comprar uma água no quiosque perto de casa, vi que estava falando espanhol.
Uma felicidade me inundou em estar de volta. Incrivelmente já estava com saudades do clima mais agradável e até de ouvir grego. Nunca foi tão bom chegar em casa. Lar, dulce lar.