21 de set. de 2010

Agistri II

Posso dizer que tive o melhor despertar de toda minha vida. A naturalidade com que o Sol atravessava a cortina e iluminava as paredes brancas daquela manhã macia, cuja paz era delicadamente colorida pelo som dos pássaros, compunha junto ao silêncio a mais pura melodia para chamar um novo dia. Foi quando me dei conta da poluição sonora a que estou expondo os ouvidos diariamente ao viver no centro da turbulenta Atenas.

Depois de mais um banho abençoado, do desjejum na sacada e de desejar bom dia aos donos do lugar, paguei a conta, agradeci, devolvi a chave e fui até a igrejinha de Skala para saber do ônibus que me levaria para o outro lado da ilha. Mais sincronizado, impossível. Por sorte, ele estava ali parado à espera da última passageira a embarcar.

Ao chegar no porto, um grupo enorme da terceira idade invadiu o ônibus. Uma senhorinha muito simpática sentou ao meu lado e disse que todo o grupo também estava indo até Aponissos. Ela foi professora de francês e entendia inglês mais do que falava, mas se esforçava muito para se comunicar.

Agistri é uma ilha que esbanja verde comparada às outras ilhas gregas. Aponissos é o ponto final do ônibus e dali mais alguns passos, mal dá para acreditar no que se vê. Uma enorme piscina natural cristalina e transparente que convida o olhar a nadar livremente por entre as tonalidades e nuances daquela paisagem exuberante. Precisei de vários minutos para contemplar tamanha perfeição da natureza até enfim mergulhar naquelas cores irresistíveis. Em Aponissos não existe outra opção além de ficar imersa na transparência de suas águas até cansar os cinco sentidos de tanta beleza ao redor.

Como era de esperar, tive a companhia de várias senhorinhas e senhores simpáticos, inclusive um deles veio gentilmente até mim oferecer torradas. Muitas lanchas param ao redor de Aponissos para tomar banho no local. Encontrei uma espécie de prancha, onde fiquei mais de uma hora estirada sob as águas e me diverti numa espécie de mini piscina suspensa onde é possível ficar sentada, sentindo-se parte de toda aquela criação divina.

Depois de algumas horas de imersão, alimentei o corpo com uma banana solarizada, que literalmente assou dentro da mochila com o calor do Sol. Hora de pegar o último ônibus de volta à Skala.

Tem grego que parece criança pequena tentando sentar no ônibus e guardar lugar pro amigo. A senhorinha com quem tinha conversado na ida também estava lá na volta. Ela disse que na minha idade também vivia viajando sozinha. "Liberdade!" - disse ela. Há momentos em que o ônibus parece passar a menos de um centímetro de distância entre as construções. Definitivamente habilidade é requisito para ser motorista por aqui.

Chegando em Skala, comprei o ticket para o ferry de volta a Atenas e repousei todo o corpo na espreguiçadeira com os pés tocando a água, que por sua vez tocava preguiçosamente a terra. Faltavam dez minutos para as dezoito horas quando o ferry aportou em Agistri.

Subi até o último deck, de onde pude apreciar toda a imensidão do mar. A viagem levou o tempo de o Sol se pôr, de risadas, reflexões, palavras, beijos e carinhos, a soneca dos cãezinhos, o vôo dos passarinhos, várias fotografias, páginas de livro e músicas no fone de ouvido.

Já era noite quando aportamos em Piraeus, onde jantei um gyros pitta de frango antes de pegar o metrô. Ao chegar em Monastiraki, descia a escada rolante da estação para fazer conexão até Syntagma, e eis que olho para o lado e sob exatamente o mesmo degrau em que me encontrava, estava também ela: a senhorinha do ônibus de Aponissos. Nós nos olhamos concomitante e sincronizadamente e as duas não podiam acreditar naquela coincidência. Não tivemos outra reação a nao ser cair na gargalhada. Ela então perguntou se eu tinha celular e trocamos os números. O nome dela é Melina, um dos meus nomes preferidos e disse que qualquer coisa que precisasse em Atenas, poderia ligar pra ela. Linda.

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