20 de set. de 2010

Agistri

Acordei no exato instante em que meu corpo físico desejava. Através da janela, o Sol doava todo o seu brilho a mais um dia de sábado sem esperar nada em troca.

Por motivos femininos, achei que fosse melhor ficar em casa este fim de semana. Mas o calor estava tão intenso que não tive outra escolha: preparei a mochila e parti em direção ao Porto de Piraeus, onde comprei um ticket com destino a Ilha de Agistri.

Uma hora e uma parada na ilha de Aegina depois, estava colocando os pés neste pedaço de terra pacato e não muito turístico chamado Agistri. Não tinha a menor ideia de qual lugar da ilha desembarquei. Todos que estavam no ferry faziam fila para entrar no ônibus que estava ali parado. Perguntei para onde ele ia e me responderam com uma pergunta: - Para onde você quer ir? - Não sei - respondi com um sorriso.

Entrei no ônibus e cheguei na praia de Skala, passando pela encantadora vila de Megalochori. Meus olhos mal podiam acreditar na cor daquelas águas contornadas por singelos quiosques de palha e na graciosidade de uma porção de tavernas gregas despretensiosas em receber seus visitantes. Fiquei perplexa e neste momento me dei conta que essa pequena ilha pode ter muito mais a oferecer do que as famosas e visadas como Mykhonos ou Santorini.

Caminhei por entre algumas ruas para reconhecer a área, perguntar por itens de sobrevivência como quanto custava para dormir e comer. Peguei um mapa da ilha, algumas referências e fui com a mochila nas costas para Skliri, uma mini praia lindissima, cujo acesso se dá por uma descida daquelas que você escolhe onde pisar e cuja linha de chegada tem cor de azul e transparência mais gratificantes do que qualquer troféu ou medalha.

Subi e segui as setas que indicavam a direção até Chalkida. O caminho ia se desenhando a minha frente e em alguns momentos o verde da ilha se fechava, como quem queria apagar seus traços para me confundir. Não havia ninguém por perto, apenas algumas barracas de camping vazias.
Foi então que avistei duas pessoas no alto de um morro de pedras e fui até lá. O lugar era incrível, um abismo de cores e contrastes que convida o olhar a se atirar sem medo. Um dos turcos que ali estavam advertiu para ter cuidado, pois era perigoso ali de cima. Conversamos um pouco e cada um fez questão de tirar uma foto comigo antes de ir embora.

Eu queria descer até a praia que se exibia lá embaixo do jeito mais lindo que a água pode encontrar a terra. Não fazia ideia de como chegar até lá, quanto mais andava mais abismos encontrava. Mas se algumas pessoas conseguiram chegar, eu também poderia. Percorri todos os caminhos possíveis e cada vez me distanciava mais de qualquer possibilidade de acesso. Foi então que avistei algumas pessoas descendo do outro lado de onde estava. Voltei até lá, olhei para baixo e não tive certeza se era possível. Mas não havia outra maneira. Coloquei a câmera na mochila e desci cuidadosamente, estudando cada passo para minimizar os riscos de qualquer deslize das havaianas, que em alguns instantes estavam pisando em Chalkida. Nada como a sensação de superação acompanhada de um presente de Deus que é esta praia.

Foi aí que vi algumas pessoas nuas e outras sem a parte de cima do biquini e então me dei conta que estava numa praia nudista. Algumas barracas de camping faziam parte do cenário e neste momento percebi quão abençoado é o mar mediterrâneo. Além das suas cores maravilhosas, da temperatura agradável e da quase ausência de ondas que o transformam numa gigante piscina natural, a maré aqui não oscila. Confesso que deu uma vontade enorme de acampar ali.

Desenrolei a canga, deitei, inspirei e apreciei o degradê da cor verde para o azul da água em contraste com as pedras brancas arredondadas em que meu corpo se apoiava. Até o barulho das ondas soava como o paraíso na Terra. Se Deus tivesse que escolher uma praia para passar as férias, essa praia seria Chalkida.

Estava me sentindo tão à vontade naquele lugar que quando me dei conta estava tirando a parte de cima do biquini. A sensação de liberdade, bem estar e integração com a natureza ao sentir o Sol e se atirar nas águas daquele mar, livre de qualquer pedaço de tecido elástico e de qualquer pressão sob a pele, músculos e ossos não tem preço. De fato, biquini é desnecessário.

Estava vendo, ouvindo, tocando, saboreando e respirando a mais pura paz até um grego vir falar comigo. Uma coisa é você fazer topless, outra completamente diferente é alguém puxar assunto quando você não está vestindo a parte de cima do biquini. Cortei o papo e disse que ia para o outro lado onde havia mais Sol. Poucos minutos depois, o mesmo homem grego e nu sentou-se ao meu lado e começou a conversar.

No fim das contas, a conversa foi agradável, ele já esteve no Brasil e estava com uma lancha ancorada na praia. A sombra tomava conta de Chalkida e então ele me convidou para ver o pôr-do-Sol do outro lado da ilha. Achei melhor não. Ele insistiu e disse que depois me deixaria no Porto. Acabei aceitando, pois estava com vontade de dar uma volta de barco e assim não precisaria escalar aquele morro de pedras para voltar. Kostas trouxe a lancha mais perto da praia e então a personalidade libriana aflorou e mudei de ideia. Disse a ele que nao ia mais, até porque não estava mais com vontade de entrar na água e ainda havia a minha mochila. Ele então voltou e trouxe a lancha ainda mais perto. Neste instante a praia inteira assistia à cena. Levou a mochila com todo o cuidado para não molhar até o barco e eu acabei embarcando.

Ancoramos próximo a Dragonera, uma praia que havia planejado ir no dia seguinte. Foi ótimo porque assim pude descartá-la e tornar o roteiro de domingo mais proveitoso. Próximo ao barco havia uma super mini praia privativa só para nós e o mar inteiro para nadar. Nossa conversa então começou a tomar outro rumo e Kostas começou a me cantar, a me fazer carinho e tentou me beijar. Mas como poderia beijar aquele homem que mal conhecia? O ambiente era propício, a conversa era boa, ele era atraente, tudo estava agradável mas aquilo não teria significado algum. Deixei claro a ele que nada aconteceria. Ele foi persistente, mas resisti mesmo assim. Não sei exatamente onde estava com a cabeça quando aceitei a ideia de subir naquele barco mas no fim das contas valeu a pena. Ele então me deixou no Porto e fui atrás de um lugar para dormir antes que a escuridão predominasse sob o dia.

Sinto que minhas aulas virtuais de grego estão fazendo efeito. Consegui me comunicar com uma senhorinha em grego, já que ela não falava inglês. Ela dizia que em Agistri era muito bom, não tinha aquele monte de carros e barulho que tem em Atenas e que a água é azul e cristalina. É realmente incrível a paixão que alguns gregos alimentam pelo nosso país. Basta dizer que você é do Brasil que parece que um tapete vermelho se estende a sua frente e eles fazem o maior fuzuê para quem estiver por perto "Ela é brasileira!". Quase dá para ouvir o barulho das vuvuzelas de tanta alegria.

Só encontrava lugares para dormir por 30 ou 40 euros, até achar os Studios Green Islands que, custavam 40 euros, mas como estava sozinha, me alugaram um quarto com cheiro de novo, cama de casal, mais cama de solteiro, TV de plasma, sacada e uma ducha maravilhosa por 20 euros. Fiquei feliz da vida. Eu não precisava de tudo aquilo, mas tomei um dos melhores banhos da minha vida, me enxuguei em toalhas brancas cheirosas e fui ao mini mercado próximo comprar bananas, suco e chá para o domingo.

Estava morrendo de fome quando entrei numa taverna onde um garçom vestia a camisa azul do Robinho da seleção brasileira. Ele esperava que fosse pedir o jantar, mas antes perguntei se ele gostava do jogador, e então me contou que a camisa era presente de um amigo. Quando falei que eu vinha do Brasil, ele ficou todo sem jeito, e depois o ouvi todo prosa contando para os colegas "Ela é brasileira".

Depois de passar o dia inteiro com uma torrada no estômago, me presenteei com um delicioso jantar numa taverna encantadora, onde saboreei peixe fresco grelhado com legumes sob o luar e as estrelas, à luz de velas e com a vista de Agistri. Neste momento, só faltou o homem da minha vida sentado na cadeira à minha frente.

De volta ao hotel, descansei o corpo no colchão de densidade perfeita e adormeci entre lençóis brancos e macios, coberta de gratidão. Antes de de cerrar os olhos, uma mensagem especial de aniversário que infelizmente não chegou ao seu destino.

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