Acordamos no escuro. Algumas pessoas ainda frequentavam os barzinhos quando pegamos o ônibus em Syntagma até a rodoviária, de onde partimos para uma viagem de três horas. No caminho, um ferry cheio de cabelos brancos. Bem que nos disseram que era um programa de terceira idade.
Chegando lá, exploramos o tranqüilo e silencioso vilarejo, os hotéis e spas na maioria fechados por causa da baixa estação, até encontrar uma praia, com um cheiro estranho que vinha junto com o vapor da água fervente que brotava do fundo da terra. Um Senhor que estava ali sentado comentou que quando era jovem, junto com os amigos, cozinhava ovos naquela água.
Trocamos de roupa e mergulhamos no mar gelado, onde caçamos
os locais de onde vinha água quente. O adorável Senhor que ali contemplava aquela paisagem abençoada, tem noventa e dois anos de idade. Comentou que Edipsos ainda é uma cidade bastante clássica, comparada com o resto da Grécia e contou sobre a tradição de "comprar" marido para as filhas, em troca de uma casa ou pedaço de terra, que ainda existe por aqui. Ele disse que teve que encontrar um marido para cada uma das três irmãs para que então ele pudesse se casar. Perguntei como ficava o amor nessa história e ele disse "Esqueça. Isso é coisa dos filmes". Sua esposa estava nadando, enquanto perguntei se ele a amava e ele simplesmente respondeu "Amor? Bom... estamos casados há mais de cinquenta anos...." Então perguntei se algum dia havia se apaixonado na vida e ele disse que não. Depois que nos despedimos, foi nadar junto a sua esposa, ambos felizes da vida.
Falando em amor, essa semana tive uma verdadeira aula sobre o tema. Durante um almoço, o nigeriano Emannuel estava falando sobre a visão africana do casamento. Segundo ele, lá é permitida a poligamia, mas como acaba não dando muito certo e precisa ter muito dinheiro pra isso, a maioria opta pela monogamia. Disse que lá, antes de namorar, a amizade é essencial para se conhecer melhor e não se namora alguém sem pensar em se casar com ela. Casamento é coisa séria e é pra sempre. Você nunca deve deixar sua esposa ou esposo, por que não é bom para seus filhos. Por isso é uma decisão que deve ser tomada com muita consciência, pois é a pessoa que você está escolhendo para formar sua família. Segundo ele, a fidelidade é uma questão apenas de caráter e que é perfeitamente possível se manter fiel a sua esposa, bem como nunca deixar de amá-la, assim como não se deixa de amar uma mãe, um pai ou uma irmã. É preciso pensar e agir como duas pessoas, o que sempre vai implicar em renúncias e concessões.
Então me dei conta do significado do que ele e este senhor de noventa e dois anos de idade estavam dizendo. Percebi o quão egoísta é a maioria dos relacionamentos, condicionados por novelas, filmes de hollywood e revistas de comportamento. Vejo que muitas pessoas simplesmente vivem a projetar seus ideais num objeto de desejo ao qual se apaixonam. Amam esta ilusão e criam expectativas, o prime
iro passo para a decepção. Sofrem até encontrar outro objeto de paixão onde podem projetar tudo novamente, sem nunca sair deste ciclo doentio. Percebi que toda paixão é obsessão e passageira e está muito longe da atemporalidade do amor. Entendi o que é o amor ágape, doador e incondicional, descrito na Bíblia como aquele que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". A língua portuguesa não faz esta distinção como faz a língua grega, descrevendo três tipos de amor - ágape, eros e philia.
Gloria e eu almoçamos num restaurante muito simpático, onde um rapaz nascido em Edipsos nos presenteou com um raro atencioso atendimento. Ele está passando um tempo lá para juntar dinheiro e em novembro está voltando para a Thailandia, onde fez curso de massagem. Fiquei super empolgada para fazer o mesmo, e trocamos e-mail de contato. Depois de um banho de mar, nada como saborear beringelas gratinadas com bechamel e um delicioso pão caseiro feito com capricho saindo do forno. Sentamos então à beira-mar, onde Gloria tomou um café e acabamos sendo filmadas para a campanha eleitoral do candidato à Prefeito de Edipsos, que nos cumprimentou em frente à câmera e nós respondemos "Yassas!".
Caminhamos mais um pouco e demos de cara com as piscinas naturais de pedra com as águas termais que tanto estávamos procurando. Ficamos tão empolgadas que não pensamos duas vezes em trocar de roupa e se atirar naquela água naturalmente quente, cheia de minerais e propriedades terapêuticas: a materialização de um banho de amor, perdão e gratidão, com vista para o mar. Não se recomenda ficar mais do que meia hora imersa nessas águas ou no máximo uma hora por dia.
Passeamos, caminhamos e apreciamos toda aquela paisagem pacífica e acolhedora. É uma delícia se entregar às singelas ruas de graciosidade que são as vilas gregas, com todas as suas peculiaridades. Provamos docinhos e gelados caseiros e resolvemos pegar o último ônibus de volta a Atenas. Mais três horas depois, estávamos chegando em casa, quando antes de atravessar a rua, ao esperar o carro que vinha passar, me deparei com quem estava dentro dele: Claudia e Vassilis. Coincidência absurda. Estavam indo ao cinema, que é ali perto, enquanto Gloria e eu estávamos tão cansadas, que nem a insônia dela causada pelo jet lag conseguiu resistir.
Acordei no domingo com uma sensação de descanso nunca antes experimentada, mas não consegui sair de casa o dia inteiro. Talvez as águas de Edipsos tenham também trazido à tona algumas emoções que estavam escondidas.
Trocamos de roupa e mergulhamos no mar gelado, onde caçamos
Então me dei conta do significado do que ele e este senhor de noventa e dois anos de idade estavam dizendo. Percebi o quão egoísta é a maioria dos relacionamentos, condicionados por novelas, filmes de hollywood e revistas de comportamento. Vejo que muitas pessoas simplesmente vivem a projetar seus ideais num objeto de desejo ao qual se apaixonam. Amam esta ilusão e criam expectativas, o prime
Gloria e eu almoçamos num restaurante muito simpático, onde um rapaz nascido em Edipsos nos presenteou com um raro atencioso atendimento. Ele está passando um tempo lá para juntar dinheiro e em novembro está voltando para a Thailandia, onde fez curso de massagem. Fiquei super empolgada para fazer o mesmo, e trocamos e-mail de contato. Depois de um banho de mar, nada como saborear beringelas gratinadas com bechamel e um delicioso pão caseiro feito com capricho saindo do forno. Sentamos então à beira-mar, onde Gloria tomou um café e acabamos sendo filmadas para a campanha eleitoral do candidato à Prefeito de Edipsos, que nos cumprimentou em frente à câmera e nós respondemos "Yassas!".
Passeamos, caminhamos e apreciamos toda aquela paisagem pacífica e acolhedora. É uma delícia se entregar às singelas ruas de graciosidade que são as vilas gregas, com todas as suas peculiaridades. Provamos docinhos e gelados caseiros e resolvemos pegar o último ônibus de volta a Atenas. Mais três horas depois, estávamos chegando em casa, quando antes de atravessar a rua, ao esperar o carro que vinha passar, me deparei com quem estava dentro dele: Claudia e Vassilis. Coincidência absurda. Estavam indo ao cinema, que é ali perto, enquanto Gloria e eu estávamos tão cansadas, que nem a insônia dela causada pelo jet lag conseguiu resistir.
Acordei no domingo com uma sensação de descanso nunca antes experimentada, mas não consegui sair de casa o dia inteiro. Talvez as águas de Edipsos tenham também trazido à tona algumas emoções que estavam escondidas.
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