Assim que começamos a navegar, escutei alguém falando português do outro lado. Fui até lá falar com Paula e Ivy, duas brasileiras que moram em Londres. Sentei com elas pra conversar, e Paula estava contando de uma viagem de ferry cruzando as águas da Argentina, onde ela viveu praticamente uma cena de Titanic. Do terceiro andar, se via água nas janelas, mesas indo de um lado para o outro, portas de vidro quebrando, tripulação aos berros de desespero, dizendo que não queriam morrer e botes salva-vidas insuficientes para todos. Neste momento olhei embaixo do banco e vi que o nosso não tinha nem colete salva-vidas. Ficamos ali conversando e depois fui procurar um lugar bom pra dormir, afinal era o tempo que eu tinha para isso. O ferry é bem grande, e como tinha pouca gente, quase haviam 4 poltronas por pessoa. Quando vi já estavam todos deitadões ocupando as poltronas e dormindo pesado. Fiz a mesma coisa.
Aportando em Creta, ouvi berros vindos do outro salão. Alguma coisa deve ter caído ou caiu alguém no chão, pois percebi que o ferry estava balançando horrores. Chegamos as 4h30 em Heraklion, a vila mais "cidade" de Creta, e fomos atrás de um telefone público. As meninas ligaram para o hostel onde elas pretendiam se hospedar, mas o quarto só iria liberar mais tarde. Então fomos juntas pegar o ônibus para Chania, as 5h30 da manhã e chegamos no Hostel que eu tinha "semi reservado" as 8h da manhã. Constantino foi nos buscar na estação de ônibus, muito gente boa e atencioso. As meninas foram realmente um achado, pois dividimos aquela diária que eu teria que pagar só para tomar banho e escovar os dentes.
Depois fomos dar um giro pela praia que era muito perto, e almoçamos num restaurante à beira-mar. O garçom não falava inglês, e como se não bastasse, era um mala. Dava vontade de sair correndo dali. Comi um greek plate saboroso e sugeri que alugássemos um carro para aproveitar o dia, já que a Ilha de Creta é enorme, estava ventando muito e de vez em quando chuviscava.
Aluguei um Getz azul da Hyundai e saímos para nos perder em Chania. Entramos numas ruazinhas sinuosas que não nos levavam a lugar nenhum. As ruas são estreitas e o trânsito é meio louco, mas chegamos a Old Town. Além do Old Harbour, dá pra ver uma arquitetura muito fofinha, que lembra uma pequena Veneza, cheia de cafés, restaurantes e lojinhas. Tomamos um café e seguimos rumo à highway para conhecer algumas praias.
De mapa na mão e música grega no rádio, chegamos 40 minutos depois em Kolimbari. Não ficamos muito tempo e fomos para Kissamou, mas a ventania estava fora do comum e o mar de ressaca. De qualquer forma, valeu pela paisagem das estradas e das praias, lógico.
Na volta, sem querer, pegamos um caminho alternativo para Chania, a "old road", que nada mais é do que uma estradinha sinuosíssima que vai subindo pelas montanhas de Creta, com curvas piores do que a subida da serra para Campo Alegre, com uma pequena diferença: só cabe um carro na estrada e ela é de duas mãos! Sim, a qualquer momento podia vir um carro na direção contrária, por isso tinha que ir devagar. Estávamos ficando desesperadas, porque além da possibilidade de estar no caminho errado, a highway não parecia estar nem um pouco próxima.
Não havia uma alma para pedir informação, até que passou um carro e graças a Deus a mulher falava um pouco de inglês. Disse que tínhamos mesmo que seguir aquela estradinha, porque já tínhamos andado bastante e que depois devíamos pegar mais informações para tentar chegar a highway.
Seguimos em frente até achar que tínhamos pego uma rua errada e tive que fazer a volta numa dessas curvinhas estreitas de duas mãos. Acabamos descobrindo que o caminho era mesmo aquele. Continuamos andando e eu já não agüentava mais ter que prestar tanta atenção, porque qualquer descuido podia provocar um acidente. Pelo menos a civilização estava ficando mais próxima, mas nada de aparecer a highway.
Pedimos milhares de informações, mas todo mundo fala grego em Creta. Até que alguém disse para seguirmos reto numa estrada de barro, porém ela acabou em cones de obras de manutenção. Tinha uma vendinha neste local, mas o senhor só falava grego. Ele se esforçava pra explicar, mas a gente não entendia lhufas. Até que ele fechou a vendinha, pegou o carro dele, e falou para segui-lo. Era inacreditável a bondade daquele senhor. Segui o carro dele, e eu definitivamente jamais iria fazer aquele caminho se ele não estivesse na frente. Entramos num atalho (nem dá pra chamar de rua) no meio do mato até chegar numa estrada (que ainda não era a highway, mas já era um grande passo). Não sabíamos como agradecer tamanho esforço, então pedimos para tirar uma foto. O sorriso mal cabia no rosto dele.
Continuamos a estrada até chegar numa bifurcação que tinha pixado "Chania" com uma flecha para a esquerda. Acho que era pegadinha porque acabamos voltando para o mesmo lugar. Fomos pedir informações em tudo quanto é estabelecimento até achar alguém que falasse inglês e descobrimos que haviam 2 caminhos para a highway. Seguimos um que demorou, mas chegou lá. A essa altura já tínhamos andado a maior parte do caminho por ruas alternativas. Dá pra imaginar a euforia que sentimos ao finalmente entrar na highway, depois de horas vagando perdidas. Deixei as meninas no Hostel e resolvi ir de carro para o aeroporto pegar meu vôo para Atenas. Constantino me explicou o caminho e disse que era tranqüilo, só 20 min de carro.
Ainda bem que eu tinha tempo para me perder. Porque me perdi muito, e levei 1 hora para chegar no aeroporto. Pedia informações, mas só ouvia grego, grego e grego. E era muito mais longe do que eu pensava, não chegava nunca e tinha que subir muitas ruas até lá.
Estava andando muito tempo sem ver nenhuma placa, então parei o carro no acostamento, liguei o pisca-alerta e pedi para que alguma alma em alta velocidade tivesse a boa vontade de parar. E logo parou um mais a frente. Fui até lá e ele disse que realmente eu devia seguir em frente.
Anoiteceu, começou a chover e as placas ficavam cada vez mais difíceis de ler. Minha lente estava embaçada de maresia pra ajudar. Não consegui ler uma placa e segui reto. Achei que devia voltar e por sorte, alguém no meio do nada, estava chegando em casa, e eu entrei junto no portão para pedir informação. Um grego muito bonito me disse que realmente eu havia passado reto. Voltei e segui o caminho certo, porém estava andando demais novamente e não via placa alguma. Achei que tinha algo errado e parei o carro novamente, liguei o pisca-alerta e implorei pra que alguém parasse. Me senti uma idiota no acostamento, de havaianas amarelas, à noite, na chuva, totalmente perdida, fazendo gestos de "me ajude por favor". Ninguém parou dessa vez. Resolvi então ir em frente e achei um boteco de beira de estrada. Me disseram para ir adiante. Algum tempo depois, finalmente achei o aeroporto. Larguei o carro no estacionamento e fui fazer o check-in. Então descobri que meu vôo não era às 20h35, e sim às 20h55. No fim das contas, tive que esperar mais um pouco. Quando cheguei em casa, ainda estava no balanço do ferryboat.
3 comentários:
ei, cade a foto da alma bondosa que ajudou vcs a chegar à highway? Mostra aí!
Dine, seu destino é mesmo o mundo!!! Não tem pessoa melhor para descobrir coisas, encarar o inusitado e tirar tudo de letra. Bjos, aproveita aí!
Meu deus ...
Incrivell a tua coragem dinoca ...
Nunca q num lugar que ningueim fala a minha lingua e poukissimos falam o ingles, eu iria me aventurar a passear de carro e conquistar novos horizontes!!!
Xou de bola.... estou louca para ver todas as fotos!
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