27 de mar. de 2009

Is time to say goodbye

23.02.09 Segunda-feira e meu último dia na Upstream. Depois do almoço, Natia me levou ao segundo andar para fazer um tour pela DDB e me despedir das meninas da yoga. Não tinha como ser diferente: foi dia de dizer tchau para todo mundo que esteve presentes nestes últimos meses.

Peguei o ônibus pela última vez, me despedindo daquela paisagem que deixaria de fazer parte da minha rotina. Como o metrô entrou em obras, Claudia e Fabiana pegaram o mesmo e nos depedimos ali mesmo, em movimento. Fiquei arrumando as malas até não aguentar mais e me render a minha última noite de sono em Atenas.

24.02.09 Mesmo sentando em cima da mala várias vezes, tive que deixar algumas coisas por lá. Saí correndo com duas bagagens gigantes, mais duas bolsas até descobrir que o ônibus do aeroporto não para naquele ponto. Então peguei um táxi morrendo de calor, porque vestia todos os casacos possíveis (pois não caberiam em outro lugar) e segui rumo a Paris.

Vicenza Venezia Murano Burano Milano Athina

20.02.09 - Dormi muito pouco esta noite. Fui de mala e cuia pegar o trem para Veneza, onde deixei minhas coisas no locker da estação.

Iniciei meu segundo e último dia por lá seguindo em direção ao gueto, situado em Cannaregio, um dos bairros mais modestos e cuja residência foi imposta e reservada aos judeus antigamente. De lá, um longo caminho até chegar ao ponto de saída do vaporetti, barco que vai até a ilha de Murano, a qual durante algum tempo chegou a ser a maior produtora de cristal da Europa. De lá, mais um vaporetti até Burano, ilha conhecida por suas casinhas coloridas. Hora de voltar a Veneza e pegar o trem para Milano. Só o passeio pela Lagoa Veneziana já vale a pena.

Eu estava exausta e tinha dormido muito pouco, mas os gatíssimos que frequentavam aquele trem eram de tirar o sono. Fortes, grandes, morenos, de olhos claros e estilosos, não faltam adjetivos para descrever um italiano de verdade.

Claudia tinha enviado uma mensagem de manhã cedo, dizendo que minha mãe estava preocupada, pois não havia dado notícias. Como o meu celular não enviava mais nada, e ia demorar até chegar em Milão, vesti minha máscara de cara-de-pau e pedi um celular aleatório emprestado para dizer que estava tudo bem.

Cheguei à segunda maior cidade da Itália completamente perdida. Queria ver o Duomo, então desci de mala escada abaixo até achar o metrô. Antes de saber exatamente onde estava e para onde ir, encontrei quatro brasileiros, que me ajudaram a comprar o ticket da máquina, enquanto encontramos mais dois conterrâneos. Coincidentemente, todos iam pegar a mesma linha e estavam indo para o mesmo lado. Até tiramos uma foto verde-amarela dentro do metrô.

Chegando na estação, a Catedral ia se impondo a cada degrau que subia. A arquitetura externa é estonteante. Mal deu tempo de posicionar a máquina fotográfica e um jovem italiano se ofereceu para tirar uma foto. Ficamos conversando e ele me levou para dar uma volta até o Castello Sforzesco, e como um bom cavalheiro, foi levando a minha mala. Ele estava na missa no Duomo com os amigos, mas como ele tem taquicardia, teve que dar uma saída pra tomar um ar.

Caminhamos pelas ruas de Milão, enquanto ele me contava, com seu inglês esforçado, que é de Udine, na região de Vêneto (lembro que passei por lá de trem). Era perceptível o amor que ele tinha à sua cidade, só estava em Milão por causa da faculdade. Ele dizia que Udine era o máximo, que em Udine ele podia ver as estrelas no céu.

Voltamos para o fim da missa. Me despedi e saí correndo para pegar o metrô de volta ao zentrale station e brincar de procurar o lugar de onde sai o shuttle para o aeroporto de malpensa. Já dentro do ônibus, chegou um senhor perguntando se alguém falava alemão e como ninguém deu sinal de vida, falei que podia ajudar. Ele trazia uma mulher e a sentou próxima de mim, pediu que eu a ajudasse pois o vôo dela era bem mais tarde. Praticamente gritou várias coisas pra moça, o que me fez pensar que devia ser uma filha mimada e reprimida de uma conservadora e tradicional família alemã.

22.02.09 Assim que chegamos ao aeroporto de Malpensa, descobri que a tal moça na verdade tinha 42 anos, uma linda filha de 15, é cantora profissional e estava na Itália a trabalho. Ela só falava alemão e eu tive que pegar uma pá e uma inchada bem grande pra desenterrar essa língua da minha cabeça.

O Terminal 2 do aeroporto estava praticamente lotado de pessoas dormindo. Já tinha visto a dica no site (sleepingatairports.com) que o Malpensa é ótimo para dormir, pois os bancos não tem aquele apoio para os braços, então você pode deitar com todo o conforto. Pelo jeito todo mundo já sabia disso, porque era meia noite e a gente simplesmente não encontrava um lugar para sentar. Entre jovens e velhos esparramados em sono profundo naqueles bancos, encontramos uma região um pouquinho mais afastada que tinha lugar. Haviam pessoas jogando baralho, escutando música, conversando e até mesmo roncando alto. Tirei o sapato, fiz do casaco travesseiro, peguei o lençol, tapa-olhos, ipod, agarrei minha bolsa como se eu tivesse 5 anos e ela fosse meu ursinho de pelúcia predileto e tentei dormir. Consegui tirar um cochilo, entre os barulhos aleatórios que um brinquedo infantil soltava a cada meia hora. Até tentaram tirar da tomada, mas não teve jeito. Devia ser quase 3 horas da manhã, quando ouvi vozes na língua portuguesa. Era Adilson e André, dois brasileiros muito queridos que também estavam indo para Atenas.

Ficamos conversando até abrir a cafeteria. Adilson mora em Torino, dá aulas de informática numa escola e André estuda medicina no interior de São Paulo, estava fazendo um estágio na Europa e naquele momento estava só viajando. Eles são da mesma cidade e se conhecem desde pequenos. Estavam indo a Atenas a turismo e dei todas as dicas possíveis da Grécia. Fizemos o checkin na easyjet, companhia aérea de baixo custo que eu estava experimentando pela primeira vez.

É bem engraçado porque não tem poltrona marcada então todo mundo sai correndo pra pegar lugar. Eles geralmente fazem overbooking, então quem chegar por último corre o risco de ter que esperar o próximo vôo. E convenhamos que quem dormiu no aeroporto pra pegar o vôo das 6h45 da manhã não ia querer perdê-lo de jeito nenhum. Mas o mais engraçado é que todo mundo presta atenção nas orientações de segurança em caso de emergência. Deve ser o medo de voar com essas companhias aéreas. Entre as poltronas mais esprimidas que já experimentei e que sequer reclinam, dormi a viagem inteira. Pelo menos não corri o risco de perder o serviço de bordo, que nesse vôo é claro que também não tinha.

Cheguei em casa quase 11h da manhã, por causa da diferença de fuso horário. Dormi o dia inteiro. Como era meu último fim de semana em Atenas, resolvemos sair. Eu ainda estava morta da viagem, e fomos parar num fim de mundo onde havia uma festa brasileira carnavalesca. Desistimos da idéia de entrar e fomos num bar em Glyfada, com direito a blackout e barraco.

22.02 No dia seguinte, encontrei Anastacia e Despoina no Mamaka's, uma taverna contemporânea e caríssima que fica em Keramikos. O futuro Primeiro Ministro da Grécia estava na mesa ao lado e veio cumprimentpa-las, pelo que elas falaram agora ele é da oposição. Depois de saborear diversos pratos típicos gregos, partimos a pé para um lugar só de sobremesas típicas com sorvete. Deliciosamente doce. Voltei pra casa no fim da tarde, ainda muito cansada e com a missão de colocar uma casa em duas malas.

12 de mar. de 2009

É carnaval em Veneza

19.02.09 Massimo é uma pessoa difícil de descrever. Sua casa e sua vida são constantemente compartilhadas com couchsurfers de todo o mundo. É um vício que começou há 5 meses (ele está próximo de completar seu centésimo hóspede) sem prazo para terminar. Praticamente todo dia tem algum viajante de alguma parte do mundo hospedado em sua casa, quando não 7 pessoas ao mesmo tempo (o recorde, segundo ele). Ele não despreza ninguém, se for necessário, coloca um colchão no chão da cozinha e está tudo resolvido. Seu altruísmo e habilidade em compartilhar sua rotina de trabalho com tantas pessoas diferentes me surpreenderam, assim como a confiança que deposita em todos esses seres desconhecidos que vem parar na porta da sua casa. Por falar em porta, ele tem várias cópias das chaves que deixa com todos os hóspedes, além de vários mapas da região, pilhas de toalhas, pacotes enormes de papel higiênico e sabonete à disposição, tudo bem organizado para nos recepcionar da melhor forma possível.

Acordo cedo para pegar o trem e agradeço ao Universo por estar chegando ao carnaval mais famoso da Europa. Eu mal podia acreditar que estava naquela cidadezinha que tanto ouvi falar, tão poética quanto turística, exibindo o charme de seus numerosos canais, que fazem qualquer um se perder entre paisagens tão lindas quanto melancólicas.

O carnaval de Veneza é conhecido pela beleza das máscaras. É uma delícia se entregar em suas ruelas, contemplando cada detalhe pitoresco que se revela diferentemente belo a cada ângulo. O Sol parecia contente em iluminar aquela cidade e fui caminhando com uma energia sem igual até a Piazza San Marco. Visitei a Basilica di San Marco, e bem ao lado, entrei no Palazzo Ducale, símbolo da cidade de Veneza e uma obra-prima do gótico-veneziano. O palácio atual, construído entre 1309 e 1424, foi a residência do Doge de Veneza e contém os escritórios de várias instituições políticas, entre eles a sala del Maggior Consiglio, que é a principal e é illuminada através de sete grandes janelas ovais. Dentro de suas enormes dimensões de 53 metros de comprimento por 25 de largura (que faz dela uma das mais vastas da Europa) eram realizadas as reuniões do Maggior Consiglio, assembleia soberana do Estado veneziano, onde até 2000 membros compareciam. Além da "Escada de Ouro", projetada por um famoso arquiteto e escultor do Renascimento italiano, os tetos também me surpreenderam, mais uma vez.

Bem próximo ao Palácio, subi na Campanile di San Marco, onde pude apreciar toda a bela Veneza e as ilhas próximas de cima, num visual de encher os olhos naquele dia ensolarado. Em seguida, continuei minha caminhada despretensiosa, explorando cada parte desse lugar mágico, até chegar ao museu Peggy Guggenheim. Colecionadora e sobrinha de Salomon R. Guggenheim, (fundador do museu em Nova York que leva o seu nome - por isso a semelhança), Peggy adquiriu obras dos artistas contemporâneos mais importantes, entre eles Pablo Picasso e Vasili Kandinsky, e hoje é um dos mais importantes museus na Itália, cuja coleção envolve cubismo, surrealismo e expressionismo.

Depois de andar por quase toda Veneza, resolvi seguir o cronograma de eventos carnavalescos que estava acontecendo por todos os cantos. Depois de mais uma longa e prazerosa caminhada, cheguei em uma Piazza, onde pude provar quentão e uma espécie de sonho típico veneziano for free, e de lá saí correndo até a Piazza San Marco novamente, onde havia apresentações de música, teatro e outras atrãções. Já estava escuro quando continuei a completar a segunda volta a pé por toda a Veneza em um dia, correndo desta vez até Dorsoduro, onde havia uma apresentação artística muito interessante, que mistura dança, teatro, acrobacia, pernas de pau e muito fogo. Provei o famoso spirit, drink com martini, e curti um pouco da festa com DJ até o horário do último trem de volta a Vicenza. Para chegar até a estação, fui caminhando junto a uma menina que mora em Veneza e que foi super gentil em me orientar até lá.

No trem havia uma turma de intercambistas que estudavam em Padova, entre eles uma albanesa que estava muito bêbada e não parava de repetir "life is long but life is short as well", que fazia todos rirem.

Cheguei em Vicenza um pouco antes da meia noite sem a menor idéia de como voltar para casa a pé, já que não havia mais ônibus. Estava muito frio, e saí andando na direção que julguei correta, e para minha sorte grande, havia uma menina andando naquela cidadezinha pacata, especialmente neste horário. Pedi informação, e com mais um pouco de sorte, ela falava um ótimo inglês. Ela ama idiomas e trabalha com tradução. Notou que eu estava perdida e fomos juntas conversando. Que sorte - mais uma vez - ela estava indo na mesma direção que eu e tive que andar apenas uma ruazinha sozinha até reconhecer a casa de Massimo.

Chegando "em casa", Massimo havia acabado de jantar com um mexicano e uma sueca que chegaram hoje e estavam me esperando para preparar uma caipirinha, acompanhada de um drink preparado com a melhor tequila mexicana. Ficamos conversando até as 3h da manhã e me despedi de Massimo, pois no dia seguinte iria mais vê-lo.

11 de mar. de 2009

A Torre de Pisa

18.02.09 Troquei a idéia de ir ao outlet das famosas grifes italianas (até porque minha mala não suportaria) e resolvi ir para Pisa. Me despedi de Davide e peguei um ônibus até a estação de trem. O próximo sairia em 5 minutos, o que me impediu de deixar a mala no locker antes de embarcar. Não há sensação igual à liberdade de fazer o que você quer, ir pra onde você tem vontade e fazer do seu destino um spaghetti a carbonara, como se a Itália fosse um grande cardápio de massas.

Saí correndo para pegar o trem com aquela mala enorme, sentei próxima à porta e a um simpático, porém um tanto retraído, casal de ingleses. Chegando na estação, saí em busca da left luggage room e tentei achar o ônibus que me levaria até a Torre. Até achei o ônibus, mas não o lugar para comprar o ticket e eu não estava com a menor vontade de voltar a estação. Então resolvi utilizar meu "rebuscado" italiano com a mulher da padaria da esquina para pedir direções a pé até lá.

Estava um lindo dia de Sol, o que tornou meu passeio por Pisa ainda mais agradável. Passei por uma praça, uma ponte e algumas ruas com pequenos comércios, onde tomei meu café-da-manhã quase em horário de almoço. Mais adiante, comprei um par de luvas e continuei em busca da torre torta mais famosa do mundo. Já não sabia mais se estava indo na direção certa, e em certa altura perguntei a uma Senhora, que apresentava certa dificuldade para andar e um par de óculos de sol um tanto demodé, aonde ficava a dita cuja. Ela me agarrou pelo braço e deu meia volta, desviando-se do seu caminho original. Atravessamos a rua e ela apontou gentilmente para o lado esquerdo, como quem vai mostrar onde está escondido o doce para uma criança: lá estava ela, a Torre de Pisa.

A visão da torre torta, destacando-se entre outras pequenas construções da cidade, foi mágica. Já que tinha ido até lá - pensei - era obrigada a subir, até porque não há nada mais o que fazer por lá. Depois de 292 degraus, estava no topo, o que foi um tanto sem graça, porque lá de cima não dá pra perceber que, de fato, é torto.

Volto andando novamente, porém por outro caminho. Perguntei a um estudante italiano (Pisa é uma cidade universitária) qual o melhor jeito de voltar à estação e ficamos conversando até que nossos caminhos se divergessem.

Chegando em Firenze, pego o próximo trem a Vicenza, onde chegaria por volta das 19h. Liguei para Massimo, meu próximo host do couchsurfing, que gentilmente me buscou na estação. Ele também fala português, pois já morou em Portugal e preparou com capricho para o jantar polenta com carne moida e mushrooms. Bebemos vinho e conversamos até tarde.

Um dia (de chuva) em Firenze

17.02.09 Como Davide trabalha, preciso sair de casa antes de ele sair e voltar depois que ele já estiver em casa, pois não tenho as chaves.

Depois de belos dias de sol, infelizmente estava chovendo no dia de visitar Florença. Peguei o guarda-chuva e um ônibus até a Piazza San Marco, onde tomei um capuccino com panini para acumular energia para um longo dia que estava apenas começando.

Primeiro, uma pequena fila na Galleria dell'Accademia, onde está uma das esculturas mais famosas de Michelangelo - David. O trabalho retrata o herói bíblico com realismo anatômico impressionante e é considerada uma das mais importantes obras do Renascimento e do próprio autor. A escultura é enorme, mede 5,17 m e Michelangelo levou três anos para ser concluida (de 1501 a 1504). O artista foi inovador nesta obra, pois retrata David não após a batalha contra Golias (como outros antes dele fizeram), mas no momento anterior a ela, quando ele está se preparando para enfrentar uma força que todos julgavam ser impossível de derrotar. É o máximo dar uma encarada olho-a-olho na expressão daquele imenso David no meio da galeria.

De lá parti para o Duomo, uma bela catedral, cujo teto (ai esses tetos) são também de impressionar, além do visual externo. De lá, uma fila não muito extensa, porém demorada para entrar na Galleria degli Uffizi, um palácio que abriga um dos mais famosos museus do mundo.

A Uffizi é grande e dividida em salas e ambientes, cerca de cinqüenta, algumas dedicadas aos maiores artistas do Renascimento, como Leonardo da Vinci e Rafael, salas com arte clássica da Roma antiga. A verdade é que tomei um chá de museu e arte renascentista em Florença, o que me levou a exaustão, até porque não é o tipo de arte que aprecio, apesar de ter me encantado com as telas ‘’Primavera’’ e ‘’O Nascimento de Venus’’ de Boticelli. Depois de alimentar meus olhos, eu merecia um crepe de chocolate antes de continuar a explorar essa simpática cidadezinha da Toscana chamada Firenze.

Passei pela Basílica Santa Croce, onde meu guarda-chuva virou do avesso de tanto vento, atravessei a Ponte Vecchio e subi até a Piazza Michelangelo, de onde se tem a mais bela vista de Florença. Já estava escurecendo quando entrei no Pitti Palace e tinha muito pouco tempo para ver tudo antes de fechar. De fato, fui a última a sair, junto a mais um casal, sendo perseguida pelos funcionários do Museu, que iam trancando as portas de cada ambiente que deixávamos para trás, além do alarme que começou a tocar.

Fui a Piazza S. Spirito jantar uma pasta carbonara acompanhada de vinho branco e já era tarde quando vi a mensagem de Davide perguntando se eu queria chegar antes de ele sair pro jantar de trabalho. Só o que me restava era esperar, então resolvi seguir a dica da Sara, uma amiga italiana, e fui ao pop art bar que se localiza na mesma praça.

Era um pouco tarde quando Davide me avisou que já estava em casa, e já não havia mais ônibus até a casa dele. Peguei um que ia até SMN (a estação de trem) e de lá fiquei perguntando para vários motoristas, mas nem eles sabiam que ônibus tinha nesse horário nem onde pegar. Então arrisquei um para a Piazza San Marco, rezando para que de lá ainda houvesse alguma saída. Assim que desci do ônibus, apareceu o 67 que eu tinha visto no mapa ou simplesmente tive o feeling de que poderia passar por perto, e fiquei entre perguntar ou tentar esperar pelo ônibus certo que não ia chegar nunca. A porta estava quase se fechando quando gritei o nome de uma rua próxima a de Davide, com meu forjado sotaque italiano. O motorista entendeu que era um outro lugar e disse que não passava lá, mas para minha sorte, um senhor nos interrompeu. Repetiu claramente o nome e disse que neste horário, só este ônibus passava por perto. Doce anjo que caiu do céu. Pulei dentro do ônibus, mostrei o mapa a ele para me ajudar a descobrir aonde deveria descer. Com um pouco mais de sorte, ele ia parar no mesmo ponto que eu e me mostrou o caminho com toda a boa vontade do mundo. Grazie mille. Chegando em casa, mostrei as fotos para Davide, tomei banho e capotei.

A primeira vez a gente nunca esquece

16.02.09

Último dia em Roma. Já está dando saudade. Logo cedo, entrei na fila do Museu do Vaticano, que hoje estava aberto, e o que posso dizer é que esse lugar é único. O que mais me impressionou foram os tetos, eu praticamente andava olhando pra cima. Depois de um longo percurso lá dentro, finalmente chega-se ao gran finale: a capela sistina. Imagine fazer de quatro paredes e principalmente o teto, quase que várias telas gigantescas, é um lugar inteiramente feito de arte. A capela foi construída entre 1475 e 1483, e as paredes e o teto são todos decorados com diversos afrescos, que remetem ao Velho e ao Novo Testamento. As pinturas mais famosas são de Michelangelo, como as que retratam o Juízo Final.

Depois da cansativa visita ao Musei Vaticani, voltei a maior Basilica do mundo, a de San Pietro, dessa vez para ver as tumbas. É um tanto mórbido ver as numerosas tumbas de Papas entre os quais João Paolo II, e fiquei imaginando que a última coisa que eu gostaria depois de morrer é ser enterrado dentro de uma sala fechada, sendo perturbado por milhares de turistas barulhentos, cujo inspetor não parava de pedir silêncio o tempo todo.

Saindo de lá, segui a via Conzolazione até chegar ao Castelo de Sant'Angelo e à ponte degli angeli. Pausa pra um gelato originalmente italiano e mais uma vez encontrei a mesma família brasileira, que aliás já tinha visto hoje na fila da Basílica. Fui direto pra "casa", terminei de arrumar a mala e parti para Termini para pegar o trem rumo a Firenze.

A viagem seguia tranqüila, exceto pelo fato de eu estar um pouco ansiosa pelo o que iria encontrar pela frente. Resolvi experimentar o couchsurfing, uma espécie de site de relacionamento entre viajantes do mundo inteiro. Quem tem um sofá, uma cama ou um colchão sobrando e tem vontade de conhecer pessoas de todo o lugar do planeta, simplesmente oferecem a sua casa para alguém que eles nunca viram na vida se hospedar. Para um brasileiro pode soar estranho, considerando a desconfiança e a violência que impera no nosso país, mas na Europa está bem na moda eu não imaginava como essas pessoas que estavam a minha espera poderiam me surpreender.

Foi chegando em Florença que o "inspetor" de tickets de trem apareceu e percebeu que uma menina de cabelos vermelhos que viajava sozinha para algum lugar distante dentro de seus fones plugados nos ouvidos tinha esquecido de validar a passagem antes de embarcar. Amadorismo puro, mas eles devem estar acostumados a esses turistas desavisados. Eu dei uma de chinesa, e como ele não falava inglês e eu não falo italiano, ele não deu lá muita importância. O fato é que haviam outras duas meninas italianas por perto, que estavam loucas pra arranjar um motivo para conversar comigo e descobrir daonde eu era. Achado o pretexto, uma delas falava muito bem inglês e ficamos conversando até eu comentar que meu celular não estava funcionando mais e eu precisava entrar em contato com o meu primeiro host do couchsurfing.

As meninas foram mais do que legais e gentis, ligaram para Davide, discutiram qual era o melhor caminho para eu chegar na casa dele, me deram várias dicas e chegando na estação, uma delas saiu correndo pra lá e pra cá até descobrir onde era o ponto do ônibus que eu deveria pegar. Os italianos me surpreendem cada vez mais com a sua fraternidade e gentileza característica. A sensação que tenho é que quando um italiano conhece uma pessoa, ele a adota, nem que seja só por aquele momento e age como se você fosse da mesma família.

Paguei incríveis 2 euros pelo ticket do ônibus e desci com a minha mala na escuridão das 11 horas de uma noite de segunda-feira em Florença, em uma rua completamente inanimada. Segui as direções enviadas pelo site, dei mais alguns passos e encontrei a casa de Davide.

Toquei a campainha. Alguns segundos de silêncio. A porta se abriu. Eu estava num estreito corredor que dava para uma escada à direita. Subi dois lances com certo esforço por causa da mala, até chegar numa porta semi-aberta. Deve ser aqui - pensei. Entre exatos três segundos que antecedem o movimento da porta, confesso que a ansiedade e o medo vieram a tona e eu não sabia mais o que estava fazendo ali. A porta finalmente se abriu e um sujeito um pouco baixinho, magro e com um certo ar melancólico apareceu. Era Davide me desejando boas-vindas e perguntando como foi a minha viagem, num bom português.

Davide é o italiano mais brasileiro que já conheci, ele já morou no Nordeste do nosso país por 5 meses e realmente impressiona com o domínio da língua, das gírias, sem perder, é claro, o sotaque italiano.

Mas algo me fez estremecer. Logo que entrei na sua casa, olho à direita, e ao lado da televisão, havia uma arma. Era uma arma de verdade. E não era nem pequena. Estava ali, do lado do mais comum eletrodoméstico, tão largada quanto um controle remoto. Pensei em perguntar sobre o motivo de aquilo estar ali, mas achei melhor não comentar.

Davide estava cozinhando uma pasta ao pesto para nós, enquanto fui tomar um banho. Percebi então que haviam duas manchas vermelhas, uma na parede e outra no chão do chuveiro. Não deu pra evitar que as cenas de Psicose viessem a minha mente. Peguei um pedaço de papel para ver se estava "fresco". Foi então que percebi que as janelas eram pintadas de vermelho, e provavelmente aquilo era apenas tinta que pingou e ficou por ali mesmo. De qualquer forma, o chuveiro era ótimo, afinal, era finalmente um chuveiro de verdade.

A pasta estava muito boa, mas o vinho com um sabor um pouco estranho. A arma de fogo ainda me incomodava, eu nem conseguia mais olhar para ela, como se isso fosse fazê-la deixar de existir.

Davide é também artista, pinta quadros e uma das telas estava exposta na sala, acima da mesa de jantar. Um simples buraco de fechadura retratado em contraste entre claro e escuro, o que me fez traçar um perfil psicológico um tanto assustador, imaginando que ele poderia trazer hóspedes do mundo inteiro simplesmente para alimentar um possível voyeurismo.

Apesar das minhas suposições talvez injustas, alimentadas por aquele objeto assassino compartilhando o ambiente, tivemos uma noite bem agradável. Davide me mostrou uns vídeos brasileiros no youtube muito engraçados (quando eu ia imaginar que um italiano ia me mostrar algo como "Tapa na Pantera"?) Alguns eu nunca tinha visto, incluindo a última entrevista do Raul Seixas no Programa do Jô Soares, clipes do Cazuza e outras relíquias como mamonas assassinas no Domingão do Faustão. Ele me mostrou também boas músicas italianas e depois chegou a hora de dormir. Como Davide estava a procura de um roomate, eu tinha um quarto só para mim, a cama era bem confortável e o cansaço era tanto que nada me impediu de ter uma boa noite de sono.

O Papa é pop

15.02.09

Mal saí da estação de Otaviano, encontrei a família brasileira que conhecemos no Coliseu e foi assim que fiquei sabendo que, em pleno domingo, o museu que eu queria ir estava fechado. Então parti para o Vaticano, onde finalmente arranjei um mapa de Roma e fiquei ali sentada sob o sol nas escadas, tentando traçar o melhor caminho do dia. Um menino conversava com uma Senhora em inglês, e logo reconheci seu sotaque brasileiro. O gaúcho estava mais perdido do que eu, mas foi gentil em tirar uma foto.

Encarei a fila da missa de domingo na Basílica San Pietro e subi até a cúpula, sem saber que uma vista incrível estava a minha espera. Nunca passei por tantos degraus na vida. Chegando ao topo, só havia uma corda para se apoiar na subida em espiral, mas o que os olhos vêem não deixam mentir que vale a pena o esforço. Por estar na cúpula apreciando a bela Roma de cima, acabei perdendo o que muita gente estava esperando pra ver: o Papa dando "ciao" pela janela.

Combinei de encontrar com a Gi em Termini novamente e de lá fomos a Fontana di Trevi, que mesmo poluída de gente, me encantou naquela linda tarde de sol. Não encontro palavra melhor para descrever: é simplesmente lindo. Joguei a moedinha de praxe e fiz tantos desejos quanto quis, pois tentei perguntar como era a tradição á três pessoas diferentes, mas só havia turista ou chinês que não falava qualquer língua compreensível e ficavam me olhando, pensando o que essa doida está querendo perguntar.

De lá, chegamos ao Quirinale, a residência do Presidente, cargo abaixo do Primeiro Ministro, porém é onde ocorre a clichê troca da guarda para turista ver. Foi bem engraçado, mas no fim acabei chorando só de ouvir a banda tocar.

Mais uma caminhada até o Pantheon, “templo de todos os deuses”, a construção antiga mais conservada de Roma. No topo, uma abertura redonda é a única passagem de luz. Quando chove, um sistema de aberturas no piso canaliza a água pra rua. A arquitetura e engenharia dos romanos são mesmo surpreendentes.

Passamos novamente, porém à luz do dia, pela Piazza Navona, onde tirei uma foto com a nossa querida bandeira verde-amarela na frente da embaixada. Fui então surpreendida por um mar de turistas não-brasileiros empolgados que me viram tirando a foto e resolveram, calorosamente, juntar-se a mim. Tanta gente que mal dá pra me achar na fotografia.

Então caminhamos até a minha praça preferida, a Piazza del Popolo (popolo = povo). Ela é grande, espaçosa e tem estátuas de leões entre os chafarizes. Já era noite quando pegamos o metrô para a Piazza Spagna, que não tem nada demais, e resolvemos fazer mais uma visita a Pizzaria Baffeto.

10 de mar. de 2009

Uma real luta de gladiadores

14.02.09

O apartamento de Natia é muito bem-localizado numa região nobre de Roma e está apenas a uma estação de metrô de Otaviano, pertinho do Vaticano. Paulo foi muito gentil em me levar até a estação, que aliás era bem perto de casa, mas como ele não fala inglês e eu não falo italiano, a única alternativa era mostrar pessoalmente.

Combinei de encontrar com a Gisele em Termini, que está em Roma há apenas uma semana e também quer conhecer todos os pontos turísticos. Ela vai permanecer durante dois meses pois está fazendo um estágio em medicina, então pudemos aproveitar o fim de semana juntas. Como ela estava atrasada, fui comprar minha passagem para Firenze e depois almoçamos e acabei provando um McNapoli bem meia-boca.

De Termini pegamos um ônibus até a Piazza Venezia e fomos andando até o Colosseo, onde tivemos a sorte de presenciar uma real luta de gladiadores. Há varios senhores fantasiados de "Júlio César" para tirar foto ali por perto e um turista albino começou a implicar com um deles. Como não falavam a mesma língua, ficavam se encarando e soltando "murros" tipo: "UMM" cara-a-cara, face-a-face, e a fila do coliseu inteira já estava observando para ver no que ia dar. E não deu outra: partiram para a agressão física e outro "Júlio César" se meteu no meio, soco pra lá, multidão se afastando, nariz sangrando e nenhum segurança ou policial por perto pra acabar com a brincadeira.

Nosso guia falou que o incidente não fazia parte do tour e pediu que entrássemos logo, pois dessa vez a Gi e eu pagamos mais para pular a fila e ter alguém explicando tudo. E pela primeira vez valeu a pena, pois o guia contou histórias e fatos bem interessantes. Segundo ele, se há um lugar no mundo em que mais mortes ocorreram e sangue foi jorrado, este lugar é o Coliseu.

O mais famoso símbolo do Império Romano, o Coliseu era um enorme anfiteatro reservado para combates entre gladiadores ou opondo esses guerreiros contra animais selvagens. Sua construção foi iniciada no ano 72 d.C. e as obras levaram oito anos para serem concluídas. Os primeiros combates disputados para comemorar a conclusão do Coliseu duraram cerca de 100 dias e se estima que, só nesse período, centenas de gladiadores e cerca de 5 mil animais ferozes morreram em sua arena de 85 por 53 metros. As lutas levavam o público ao delírio. Suas arquibancadas, construídas a partir de 3 metros do solo, acomodavam mais de 50 mil pessoas. Um camarote bem próximo à arena era destinado ao imperador de Roma, que era reverenciado pelos gladiadores antes dos espetáculos com uma saudação que se tornaria famosa: "Salve, César! Aqueles que vão morrer te saúdam".

Durante a Idade Média, o mármore e o bronze de sua estrutura foram sendo saqueados aos poucos (o que é bem perceptível) e usados para ornamentar igrejas e monumentos católicos. Algumas peças de mármore foram empregadas até na construção da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

É incrível olhar pra arena e imaginar o que representava esse espetáculo naquela época. Imagine-se vivendo, há tanto tempo atrás, sem comunicação, sem fácil acesso a outros lugares do mundo, e poder ir de graça assistir a centenas de animais ferozes, como leões, panteras, leopardos e elefantes vindos da África e outras partes (animais que jamais haviam visto) sendo primitivamente mortos por gladiadores ou seres humanos reais sendo engolidos por um deles na sua frente. Como disse o guia em relação ao entretenimento, "naquele tempo a realidade se sobrepunha a imaginação e hoje a imaginação está acima da realidade". Um fato bem interessante, é que os animais podiam "aparecer" nos duelos a qualquer momento por um esquema de elevadores que surgiam em alguns pontos da arena.

Logo depois da overdose de informações, conhecemos uma família brasileira, cuja filha mora em Berlim. Muito simpáticos, acabei encontrando-os por acaso quatro vezes em Roma, durante meus singelos 3 dias na cidade.

Roma é belissima e sua grandiosidade, história e beleza me surpreenderam. Ficamos de encontrar Luca e Eleonora, pois faziam questão de nos mostrar um pouco da cidade. Encontramos com eles e seguimos pela via del Fori Imperiale, passando pelas ruínas da Roma Antiga, o circo massimo, onde eram realizadas as corridas de cavalo, boca verita, cujas cópias todo mundo já viu em algum shopping center (aquela cara de pedra que a gente coloca a mão dentro e a máquina "lê" o seu futuro), teatro marcello, ghetto e o Portico di Ottavio.

Depois, pausa para descongelar os dedos e saborear um doce crepe de nutella. Em seguida, caminhamos até o badalado Campo di Fiori e mais além, uma trégua de descanso em plena missa na Igreja Santa Maria Maggiore. De lá, entramos num restaurante árabe, do qual acabamos desistindo da idéia de ficar, mas que serviu de ponto de encontro para o Daniel. Fomos andando até a Piazza Argentina para irmos a um restaurante muito bom, tão bom que tivemos que ficar na lista de espera - do lado de fora - congelando.

Eleonora é muito querida e fez questão de deixar cada um em casa, mesmo de ônibus. Sábado a noite e Valentine's Day: os italianos estavam enlouquecidos dentro daquele meio de transporte coletivo. Era um barulho misturado com alegria, todo mundo interagindo, gritando, rindo e falando alto - um ônibus tipicamente italiano.

Quem tem boca vai a Roma

Sandro foi muito gentil em me buscar no aeroporto, em plena sexta-feira a noite, no trânsito maluco de Roma. Ele é italiano, mora em Florianópolis e é amigo de Natia, a italiana que trabalha comigo na Grécia e que foi também muito gentil em me oferecer a casa dela, mesmo não estando lá.

Quando chegamos ao apartamento, Paulo, o irmão da Natia que deveria estar a minha espera, havia saído. Fomos até o restaurante em que ele estava para buscar as chaves e voltamos. A minha pequena mala pesada de uma semana na Itália foi carregada pra cima e pra baixo. Acho que o Sandro não imaginava que alguém que ele mal conhecia daria tanto trabalho.

Sandro então me levou a melhor pizzaria de Roma, chama-se Bafetto, que significa "bigodinho". Difícil foi encontrar um lugar para estacionar. Roma, assim como Atenas oferece esse desafio constante a quem se atreve a ter um automóvel. Encontramos lá dois amigos italianos, Luca e Eleonora, o namorado brasileiro Daniel, e a amiga dele Gisele, que depois de 10 anos sem se ver no Brasil, foram se reencontrar em Roma.

Provei a pizza capricciosa, com direito a ovo frito e alcachofra, acompanhado de cerveja italiana. A massa é bem fina e ainda assim consistente, da prá dobrar e comer como se fosse calzone, enquanto a combinação absurda e suculenta do recheio escorre a cada mordida: é uma delícia.

De lá, logo ao lado, entramos num barzinho brasileiro chamado clan br. Tomei uma caipirinha clássica e depois encaramos o frio do inverno mais rigoroso da Itália dos últimos anos. Passamos pela Piazza Navona, onde tem o belíssimo edifício da embaixada brasileira. A sensação térmica era de doer os ossos, não conseguir sequer falar direito e só pensar em chegar logo a um lugar cuja temperatura permita a sobrevivência humana.