24 de mar. de 2011

Goodbye Hazar

A próxima a deixar a Grécia era Hazar. A despedida foi regada a lágrimas num restaurante italiano em kolonaki. Além de mais heranças culinárias, Hazar me surpreendeu com um presente. Disse que quando viu na loja, teve certeza que era para a "Sun dream", como carinhosamente chama. Quando ela colocou o bracelete no meu pulso, tive uma forte sensação de que já tinha visto ele antes.

 Sou muito grata por encontrar Hazar no caminho, assim como cada um dos presentes desembrulhados em forma de gente que Deus coloca do nosso lado. Vou sentir falta dos nossos "sun and oxygen breaks" durante o trabalho entre as lavandas do jardim lá fora. Ela diz que sente como se tivesse sido minha mãe em outra vida.

Estou aprendendo uma palavra nova em grego por dia com o Gianni da cafeteria. Os dias parecem estar passando cada vez mais rápido, a sensação é de que acordo na segunda e quando vou deitar para dormir já é sexta-feira.

23 de mar. de 2011

Idas e Vindas

Esta semana chegou uma nova redatora italiana que está morando no apartamento onde morava antes.

Quarta-feira, no caminho ao trabalho, um carro bateu no ônibus há duas paradas e meia do escritório. Estava concentrada lendo um livro quando percebi a brusca freada e os gritos de algumas pessoas que cairam no chão. Prato cheio para grego fazer escândalo dentro do ônibus, gritar e xingar por cinco minutos sem parar. Pareciam ter saído de casa naquela manhã não para pegar o ônibus, mas para participar do acidente que lhes dava a oportunidade de despejar todo o descontentamento alheio. Embora não parecia ter se machucado, um senhor que caiu não conseguiu se levantar, como se o peso das palavras ao redor bloqueasse as suas pernas. No momento do acidente, estava justamente lendo um livro que explicava como as palavras criam as emoções e o exemplo estava ali na minha frente. Compraram água para o Senhor e estavam ligando como quem chamava a ambulância. Desci do ônibus parado contaminado de palavras e segui caminhando. Era uma linda quarta-feira de Sol que inspirou a comprar flores no meio do caminho. É incrível como a singela presença de suas cores transforma o ambiente de trabalho. Quando contei a Milena sobre o acidente do A5 ela mal podia acreditar que tinha perdido a chance de vivenciá-lo. Segundo ela, estava esperando todos esses meses em Atenas pelo dia em que o ônibus ia colidir - pois a cidade é como um grande parque de diversões em que os ônibus mais parecem carrinhos de choque. 

No meio da tarde, eis que surge Lucciano no escritório com sua bagagem de mão. Sim, ele está de volta pela segunda vez. Quando nos tocamos levamos um baita choque e prometi que nunca mais vou me despedir dele porque ele sempre acaba voltando.

Dibeh voltou de um fim de semana prolongado no Líbano na quinta-feira, trouxe docinhos e souvenir. Faz uma diferença enorme ter Dibeh e Lucci de volta.

Sexta-feira de manhã foi dia de acordar mais cedo e ir até onde Judas perdeu as botas para lá de além da última estação de metrô para levar a câmera no suporte da Casio e verificar se vale a pena consertá-la. Quando cheguei no trabalho, a chefinha perguntou se eu era louca porque tinha enviado uma mensagem informando que estava viva após a aventura da manhã e acho que a escolha das palavras a deixou preocupada.

Domingo no parque

Angela havia comentado de um grupo que faz caminhadas por Atenas e no domingo resolvemos nos juntar a ele. Como nos atrasamos um pouco, acabamos perdendo o ponto de encontro. Segundo Angela, considerando que estamos na Grécia, é possível que eles estivessem ainda mais atrasados do que nós. O fato é que estávamos num lindo parque no alto da montanha, com quadras de esportes e um adorável café que nos convidava a apreciar a vista a cidade. O Sol estava radiante num domingo de inverno que mais parecia primavera e decidimos ficar por ali mesmo. Angela e eu somos gregas no que diz respeito a arte de não fazer nada e ficar horas tomando um café ou suco, jogando conversa fora. Estava maravilhada com aquele local, apreciando a vista, a energia das alturas e o melhor suco de laranja natural da Terra. Ficamos ali até o Sol tatuar o contorno da blusa nos nossos braços.

A mochila caiu quando fui ao banheiro e a câmera fotográfica - companheira de cinco anos de quilômetros e paisagens - que estava dentro quebrou. A verdade é que ela escutou meus pensamentos cheios de tentação em comprar uma câmera nova quando fui na loja de eletrônicos essa semana e decidiu se retirar. Aconteceu a mesma coisa com a Milena essa semana na Polônia. A mãe dela falou em trocar de carro e não deu outra: o carro pifou no dia seguinte.

Depois de apreciar a vista, o Sol e o ar tão fresco quanto o suco de laranja, finalmente retomamos os planos iniciais da caminhada e exploramos a região montanhosa por uma hora e meia. As flores já começavam a adornar as estradas que nos levaram a bairros peculiares que faz você se sentir no campo em plena cidade, com a simplicidade das casinhas gregas em contraste com o requinte da riqueza de uma vista panorâmica exuberante e inacreditável de Atenas. Que dia delicioso. No meio do caminho, uma Senhora nos parou e desandou a esbravejar em grego enquanto apontava para as minhas pernas. Do jeito que ela falava achei que algum cachorro ou animal perigoso se aproximava, mas Angela explicou que ela estava elogiando as  pernas e perguntou onde tinha comprado a calça que estava usando. Era a última coisa que eu podia imaginar que ela estava falando naquele momento.

Depois da caminhada sem rumo, achamos o nosso destino final: uma taverna verdadeiramente grega para almoçar as cinco e meia da tarde. Nenhum garçom falava inglês e cardápio só em grego - o que não nos impediu de ter uma refeição maravilhosa. Entre garfadas, o telefone de Angela tocou e ela voltou super empolgada dizendo que o irmão dela tinha acabado de ligar da Itália para contar em primeira mão que vai se casar em maio. Ela estava radiante de felicidade. "Nessas horas a gente percebe como a vida é maravilhosa" - disse ela com um sorriso autêntico e bonito de ver. O mais incrível é que alguma horas antes estávamos conversando exatamente sobre isso - o desafio de morar em outro país quando os irmãos começam a casar e ter filhos e não poder acompanhar de perto.

Já era noite quando voltamos para casa. Apesar da noite mal dormida seguida de um domingo intenso, havia prometido que acompanharia Milena assim que voltasse da Igreja no último souvlaki dela antes de voltar a Polônia.

Segunda-feira, ao chegar do trabalho, encontrei na frente da porta a herança que Milena tinha deixado - mais arroz e chá polonês, além de algumas cervejas, especiarias e outros condimentos. Fiquei super feliz com as novas aquisições para se divertir na cozinha e brincar de novos sabores.

Encontros & Despedidas

Lucci na Tanzânia, Dibeh no Líbano e Milena em casa antes de voltar para Polônia. Não havia trazido o livro para ler e por um instante desejei que na escuridão daquele ponto de ônibus deserto houvesse alguém com quem conversar no caminho para casa. Eis então que surge um senhorzinho grego perdido estudando os horários dos ônibus, os quais veio me perguntar. Hesitou por um momento quando disse que não falava grego, e então disparou a falar inglês. Perguntou se eu estava há muito tempo esperando o Alfa Pende - A5 - e lhe disse que tinha acabado de chegar. A partir de então não paramos mais de conversar. O ônibus chegou, sentamos juntos e descobrimos que somos quase vizinhos - portanto descemos no mesmo ponto. Ele acabou de se aposentar como controlador de tráfego aéreo do aeroporto de Corfu e é divorciado. Um filho mora com a mãe em Thessaloniki e o outro mora com ele agora em Atenas, pois sua mãe está doente e não sobreviveria a umidade da ilha de Corfu. Ele não quis falar muito sobre o divórcio, percebi que ainda o machucava e me aconselhou a não casar tão cedo. Disse para casar só quando quisesse ter filhos, como se o matrimônio só servisse para isso. Conversamos além do clichê brasil-ronaldinho-rivaldo-amazonas-carnaval-crise grega-corrupção-greves-etc e no fim ele já estava me chamando de "Santorini" e riámos como bons velhos amigos. Pegou meu telefone e quis andar comigo até em casa e convidou para tomar um café. De vez em quando a gente encontra uns greguinhos simpáticos e que não falam sozinhos.

Sábado acordou uma linda manhã de Sol e céu azul. Depois de yoga e meditação, um chá de frutas vermelhas, banana com linhaça dourada e iogurte, fui com a toalha de praia deitar no parque aqui do lado de casa. Há tempos estava sentindo a necessidade de verde, ar puro e, principalmente, de encostar os pés na terra, pois em tudo que encosto levo choque. Incrível que morei por cinco meses neste prédio há dois anos atrás e nunca tinha explorado este parque de verdade. Não é muito grande, nem popular e não é super organizado, faz mais o estilo selvagem e ainda é pouco freqüentado - o que faz dele perfeito. Além de ser bem maior do que imaginava, descobri também que tem pôneis, patos, galinhas e outras aves e animais que não sei o nome.

Depois de passear por tudo, escolhi um local por onde os raios solares atravessavam as árvores, estiquei a toalha e deitei. Senti a terra tocando todo o meu corpo, olhando o céu azul, as folhas das árvores que se mexiam como se fossem meu cabelos ao vento, enquanto os pássaros cantavam. Juntei-me a eles e comecei a cantar como se não houvesse mais ninguém no Planeta Terra naquele instante, além do Sol, das árvores, dos passarinhos e o coração cheio de gratidão, encantada com a simplicidade de existir.

Depois de uma ou meia hora, escuto latidos de cachorro e um deles se aproxima. Levanto da toalha e ele deita e se esparrama em cima dela. Aparentemente, eles moram no parque, pois haviam casinhas de cachorro mais ao longe. Como ele era grande, pesado e não conhecia suas intenções, não ousei puxar a toalha. Conversamos, pedi desculpas por ter invadido o território dele, tentei fazê-lo se interessar por qualquer outra coisa que não fosse a toalha, convidei pra correr e brincar comigo, mas ele estava muito bem ali deitado aninhado no meu cheiro sem fazer nada como um típico cachorro grego. Quando pensei em deixar a toalha com ele e depois voltar para buscar, ele se deitou de lado e tive a oportunidade de puxá-la, mas o peso do cachorro ganhou a batalha. Ao menos, ele então percebeu que eu queria a toalha e resolveu se levantar. Agradeci, me despedi e fui ao mercadinho próximo antes de comprar um souvlaki e voltar para casa. O destino da toalha então foi a máquina de lavar e do meu corpo um longo banho de banheira.

Mais tarde, despedida da Milena. Fomos em um café em Panormou, perto de casa, e quando chegamos descobrimos que o Olimpiakos estava jogando contra Larissis. Todo mundo vidrado no jogo de futebol na TV, porém ao invés de cerveja, muito café e frappe em cima das mesas. O jogo terminou e em seguida chegou Kat, a americana e Angela, a italiana. Experimentei dois coquetéis de café que eram sonhos de sabor que se transformaram em pesadelo a noite. Apesar do cansaço e do sono, o excesso de cafeína não permitiu meu corpo a desligar e tive uma noite um tanto quanto psicodélica e esquisita - daquelas que quando você acorda não sabe dizer exatamente se dormiu de verdade. Vou sentir falta de brincar de falar português com a Milena, da risada dela que me é tão familiar e das nossas conversas em grego com os taxistas para ir ao trabalho em dias de greve.

22 de mar. de 2011

Mudança

Um dia desses algo interessante aconteceu no trabalho. Estava sentindo uma pressão na cabeça, atrás das orelhas, como se usasse aqueles arcos de cabelo que incomodam. Olhei para Dibeh, que senta ao meu lado, e ela estava usando um. Pedi a ela para tirar e ver o que acontecia e então o incômodo passou. Depois do almoço, comecei a sentir denovo. Olhei para o lado, e ela tinha voltado a colocar o arco. Tive que pedir para ela tirar, foi um tanto engraçado. Falei pra ela cuidar com o que ela sentia porque eu podia sentir também.

Outro dia, comecei a ter sensações esquisitas e saí do escritório. Senti uma dormência que começou pelos braços, fiquei gelada e todo meu corpo começou a tremer. Veio então uma vontade incontrolável de chorar sem o menor motivo, um choro que sequer parecia ser meu. Queriam que eu fosse a um Hospital, mas sabia que nenhum médico entenderia o que estava acontecendo. Pedi para Dibeh chamar Hazar e chorei que nem uma criança. O trabalho me parecia tão pequeno naquele momento que não fazia o menor sentido voltar a olhar para uma tela de computador naquele dia. Pegamos um taxi e quando cheguei em casa já estava me sentindo melhor. No dia seguinte, Elena que trabalha na administração veio falar comigo, dizendo que podia ver meus chakras e que era pra cuidar pois estavam abertos demais. Hazar já havia comentado, mas nunca imaginei que ela podia ver essas coisas.

Na sexta-feira resolvi que não ia trabalhar simplesmente porque sabia que meu corpo precisava de descanso. Parecia que toda minha energia tinha sido sugada por um ralo. Aproveitei o dia para empacotar a casa e fazer a mudança para outro apartamento. Não sobreviviria mais um dia sequer morando no centro, com toda aquela conturbação, a música e borburinho. Esperei Dibeh chegar do trabalho para me ajudar com as malas. Não sei como nós duas e todas aquelas bagagens e sacolas entraram dentro do pequeno elevador. Tanto que quando chegamos no térreo, não conseguimos sair e o elevador subiu denovo. Por sorte, Yan era quem tinha chamado e quando abriu a porta, mal conseguiu ver a gente lá dentro. Desceu pelas escadas e nos ajudou a levar tudo para rua e achar um táxi.

Voltei a morar no mesmo prédio que morava há dois anos atrás. Milena, que agora era minha vizinha, estava esperando para ajudar a subir com as malas. O apartamento é tão branco e iluminado que achei que tinha morrido e ido para o céu. Era tudo o que eu precisava. O silêncio acariciava os ouvidos, enquanto o amor das plantas do jardim circulavam nos meus pulmões cor-de-rosa. Coloquei o celular no silencioso para que nada perturbasse aquela noite de sono. Mal sabia que uma das experiências mais estranhas de toda a minha vida estava por vir.

Eram oito horas da manhã quando acordei com a porta do apartamento aberta e um homem estranho saindo por ela e dizendo "sorry", com sotaque grego. Levantei em um pulo e fui até o olho mágico, mas não vi ninguém. A porta de entrada do apartamento fica exatamente em frente a cama, o que tornou a situação ainda mais esquisita. Tudo o que vi foi ele fechando a porta, portanto não sabia há quanto tempo podia ter estado ali. Verifiquei a bolsa, a carteira e estava tudo lá. Ainda desorientada com os acontecimentos da semana e a mudança, fiquei pensando em quem poderia ter a chave e em certo momento já não sabia mais se aquilo tinha mesmo acontecido, se tinha sido só um sonho ou se estava vendo espíritos. Milena ficou apavorada com a história. De quaquer forma, aproveitei o sábado inteiro para descansar e curtir a nova casa. No dia seguinte, quando acordei, fui verificar a hora no celular e vi que tinham cinco chamadas não atendidas e mais uma mensagem de texto. Era o proprietário do apartamento pedindo desculpas, pois o pai dele tinha vindo trocar as lâmpadas queimadas e não sabia que eu já tinha me mudado. E eu tinha esquecido o celular no silencioso desde sexta-feira.

Seja bem vindo, 2011!

O ano começou tranqüilo. O inverno convidando para uma viagem interior, curtindo os fins de semana em casa, cozinhando, cantando e lendo livros debaixo do edredom. Nunca apreciei tanto a minha companhia. O que me tirou de casa foi a liquidação de inverno nas lojas, mas o centro estava tão tóxico e doentio que não consegui ficar por muito tempo. A rua principal parecia um bar a céu aberto de tanta fumaça de cigarro. Saltos altos desfilavam com as bolsas de marca que guardavam a carteira de couro com a qual as unhas pintadas comprariam tantas coisas de que ninguém precisava, em meio às senhoras que dormiam na rua e imploravam por alguns centavos.

Hazar convidou para ir a um centro de meditação de raja yoga, o qual tenho ido de vez em quando. A  meditação de olhos abertos é um tanto psicodélica, mas a gente sempre sai de lá com a energia recarregada e se sentindo super bem.

Chiara voltou para a Itália e Lucciano para Tanzânia. Além de jantares de despedida, junto com Milena e Dibeh, fomos até o aeroporto dar o último tchau para o menino da selva.

Gloria descobriu um café zen maravilhoso perto de casa que se chama "Bliss". Tem três andares, almofadas para sentar no chão e é todo decorado em cores e objetos tão selecionados quanto seus produtos. Tudo no cardápio é orgânico, e no próprio local pode-se adquirir uma variedade de produtos naturais. Fiquei encantada por aquele lugar e voltamos lá antes da Gloria ir para os Eua. A despedida de verdade foi numa taverna em Monastiraki, com vista para Akropoli. Achei super bonitinho quando ela disse que depois de uma vida inteira nômade, fazia tempo que não chorava ao se despedir de alguém. No fim de janeiro, chegou Kat, da Califórnia, para dar continuidade ao trabalho e Yan, da Alemanha.

18 de mar. de 2011

Natal e Reveillon

No fim de ano fomos mimados com uma festa da empresa e outra de despedida de um gerente que está se mudando para Dubai.

Na véspera de Natal, saí do trabalho às 15h e fui ao supermercado para garantir que não passaria fome no feriado, pois tudo permaneceria fechado. O tráfego maluco de carrinhos de compras refletia o trânsito de Atenas, pois mais pareciam kamikazes suicidas.

George foi muito gentil em convidar a passar o Natal com a sua família e a noite foi de fato muito especial. Os presentes não estavam debaixo da árvore, mas na energia, companhia, alegria e no amor que preenchia as moléculas da comida do jantar. George e Lara nos presentearam com voz, violão e lindas canções.

Dibeh e Milena passaram o Natal em casa e voltaram com presentes depois do feriado. Milena trouxe sabonetes coloridos de banheira para aromatizar o banho. Dibeh trouxe um chale e mel orgânico produzido pela criação de abelhas do irmão, tão saboroso que parecia de desenho animado - me senti o Ursinho Puff.

A idéia era passar a virada do ano próximo da Akropoli, mas acabamos dando boas vindas a 2011 no meio do caminho.

Doce dezembro

Domingo, onze de dezembro. Nevava quando Dibeh chegou no dia mais frio do inverno de Atenas. Ela seria vizinha da Glória e agora estávamos em quatro no prédio. Lucci e eu nos equipamos com casaco, gorro e luvas para nos proteger da neve lá fora e ajudar a nova redatora libanesa com direções, supermercado, etc. Descobrimos uma Delikatesse maravilhosa perto de casa, com produtos tão selecionados quanto os preços.

Dibeh trabalhou no Comitê Internacional da Cruz Vermelha por oito anos, sempre em locais de guerra, sendo que sua última missão foi como porta-voz da Cruz Vermelha no Iraque. Ela está muito longe de aparentar seus 33 anos, tem um coração tão grande e bonito quanto seus olhos de Jasmin, testemunhas de muitas histórias que ela teria para contar, se não fosse proibida de compartilhar a maioria delas. Em pouco tempo aqui, ela já entrou para a "família". As vezes fica até difícil focar no trabalho quando estamos rodeado de amigos e irmãos. É surreal o grau de intimidade a que chegamos, a atmosfera de amor, carinho, cuidado e os momentos impagáveis de rir até sair lágrimas dos olhos. As nossas semelhanças como seres humanos falam mais alto do que as diferenças étnicas e culturais e as peculiaridades da realidade grega que experienciamos neste país e no dia-a-dia do trabalho cria uma forte conexão, pois nos vemos impotentes ao tentar compartilhar a vida na "cápsula do tempo" com quem está fora dessa "matrix".

Para completar, uma nova redatora originalmente Palestina que mora em Dubai chegou em dezembro. Hazar tem o olhar mais forte e intenso que já cruzei em toda a minha vida. A primeira vez que conversamos me senti constrangida, como se ela pudesse enxergar até o fundo da minha alma. Algumas semanas depois, descobri que era verdade.

16 de mar. de 2011

Brasil relâmpago

Na quinta-feira fiquei sabendo que estaria indo ao Brasil no dia seguinte para renovar o visto. Fiz as malas rapidamente sem fazer sequer idéia do que colocar dentro e na sexta-feira após o trabalho fui direto ao aeroporto. Depois da maratona de conexões super apertadas que felizmente deram certo, no sábado de manhã já estava chegando em Curitiba.

Depois de uma surreal semana para matar as saudades em meio a correria com papeladas, burocracias e viagens relâmpago a Brasília, estava novamente em Atenas. O vôo de volta foi peculiar. Me vi rodeada por poloneses semi-embriagados. Enquanto um deles tentava pegar na minha mão, do outro lado um tentava me beijar, e o que estava sentado na frente virava para trás o tempo todo, piscando para mim. É verdade que recentemente sequer tenho certeza que estou de fato viva, mas aquela situação era irreal demais. Não sabia se aquilo estava acontecendo de verdade, se era uma pegadinha ou um filme de terror. Enquanto a comissária de bordo dizia que o vôo era não fumante, um deles pegou a carteira de cigarros e ficou se exibindo dizendo que sabia como fumar naquele avião, que segundo ele também iria cair. Não parava de falar um minuto. Sugeri a ele que se quisesse continuar a conversar com o amigo dele, que mudasse de lugar comigo ou ficasse quieto. Não deu certo. O avião nem tinha decolado ainda e eu já sabia que naquela poltrona não viajaria de jeito nenhum. Levantei e fui até os comissários de bordo, que disseram que infelizmente a classe estava lotada e não havia outro lugar que eu poderia sentar. Então tive que ser mais incisiva na colocação - a esta altura já estava disposta a ir para a primeira classe se fosse preciso - e então eles conversaram com outro passageiro que aceitou trocar de lugar comigo e a viagem seguiu tranqüila. Do aeroporto de Atenas direto para o trabalho.

A Visita

Na sexta-feira, Fernando já me esperava em casa quando cheguei do trabalho. É muito bom receber amigos e revê-los depois de muito tempo. Jantamos com a Gloria uma salada com abacates e meu sanduíche preferido de proschiutto. Depois fomos a um café embaixo de casa.

O fim de semana foi de guia turístico. Descobrimos que domingo a akropoli e muitos pontos turísticos estariam fechados por causa das eleições. Então no sábado fizemos o estádio de mármore Panathinaiko, Templo de Zeus e depois da Akropoli, pausa para a ciesta. O dia estava lindo, Sol e e céu azul. A noite, jantamos em Exarchia, que é a parte antiga e agora alternativa da cidade, numa taverna tipicamente grega. Voltamos para casa e fomos com a Gloria para Psiri, depois Keramikos e voltamos para casa.



Domingo visitamos o novo Museu da Akropoli - sem dúvida um dos mais bonitos que já estive - depois uma volta por plaka, souvlaki com Formula 1 na TV e hora da soneca. A noite uma longa e agradável conversa acompanhada de cappucino e frappe no café embaixo de casa e Féfis ganhou uma massagem antes da última noite em Atenas.

Einstein, mathematiko

Noite estranha de sonhos esquisitos. O relógio do celular ainda no horário de Barcelona me fez correr para pegar o metrô.

Na volta para casa, uma situação peculiar aconteceu no ônibus. O Senhor que estava sentado ao meu lado disparou a falar. Até aí, normal. Depois de cinco minutos esbravejando seu discurso, ele olhou para mim e então me dei conta que talvez estivesse falando comigo. Disse que não falava grego, mas ele nem deu bola. Continuou falando, falando, enquanto tentei, sem sucesso, explicar que não estava entendendo nada. De repente uma senhora que estava de pé entrou na discussão que só terminou quando ela saiu do ônibus. Tentava entender o que aquele Senhor falava com tanta conviccção, como se a missão da sua vida fosse convencer as pessoas daquilo que dizia. Pesquei algumas palavras como "Einstein", "mathematiko", e nomes de alguns lugares da Grécia. Quando percebeu que eu estava prestes a desembarcar, fez sinal para esperar, e rapidamente pegou um pedaço de papel e começou a escrever sem parar em grego com uma letra de médico-apressado-no-balanço-do-busão. Entregou o papel que aparentemente tinha até um número de telefone, agradeçou com ternura nos olhos e me desejou uma boa noite.

Quarta-feira estava transbordando energia depois do pilates, canalizada para faxina e maquinadas de lavar roupa. Na quinta-feira, depois da abençoada yoga, supermercado para abastecer a geladeira e receber o Fernando que estava chegando em Atenas no dia seguinte.

Mais uma vez, bem-vindos!

Nos últimos quatro meses, a vontade de viver o presente somada a uma fase produtiva de trabalho me impediram de atualizar o blog. Confesso que é um grande desafio expressar os cada vez mais ricos detalhes desse longa-metragem sem fim que é o dia-a-dia aqui. De qualquer forma, vou tentar recapitular alguns episódios que permanecem vivos na memória. Sejam bem-vindos mais uma vez!