Ao sair de casa, fechei a porta e me dei conta que a chave ficou do lado de dentro. Não conseguia acreditar no que tinha feito, porque aqui todas as portas trancam automaticamente e não poderia mais entrar em casa. Imediatamente liguei para Klea, a proprietária. Ela riu e disse que não é a primeira vez que isso acontece neste apartamento.
Ao entrar com Lucci na loja da Louis Vuitton, me senti num circo. Achei graça nos preços dos produtos, nos vendedores formalmente fantasiados dentro do ar condicionado, com seus discursos e coreografias "sofisticados", cujos gestos e palavras minuciosamente selecionados escondem o medo de não receber a comissão das vendas no fim do mês. Como qualquer loja de "grife", o cenário é artificialmente luxuoso e calculado para alimentar a ilusão de seus clientes de que são seres humanos especiais e exclusivos. Mais engraçado, só as pessoas mentalmente manipuladas que pagam fortunas para andar na rua com uma logomarca estampada no corpo, sem se dar conta que estão apenas tentando suprir suas carências e necessidades inventadas e condicionadas de consumir status, com o pretexto de que estão comprando apenas "qualidade".
Depois do circo Louis Vuitton, deixei Lucci na Zara e fui encontrar com Klea para que ela abrisse o apartamento com a chave reserva. Porém, a chave estava virada no lado de dentro, e não teve jeito de abrir. Disse que teríamos que chamar um chaveiro e que ia custar em torno de 100 euros, principalmente porque era sábado e ninguém mais estava trabalhando. Já tinha idéia de que era caro, pois na vez passada que estava em Atenas meu vizinho perdeu a chave e disse que custaria 200 euros para fazer outra.
Ela chegou a sugerir que dormisse na casa de alguma amiga e deixasse isso para segunda-feira, mas não achei uma boa idéia. Então fomos atrás de um chaveiro, com Klea e seus dois filhos pequenos no carrinho, mas todos estavam fechados. Então ela ligou para um que já conhecia e disse que eu era prima do marido dela para que ele cobrasse menos pelo serviço.
Em quinze minutos ele chegou. Foi só desparafusar a tranca, empurrar a chave que estava dentro até cair no chão e usar a chave reserva para abrir. O serviço todo levou um minuto, o tempo de Omar ligar e dizer a ele para esperar em Syntagma. O chaveiro ficou me olhando enquanto eu olhava para ele, porque como ele não fala inglês, eu estava tentando só falar grego para que colasse a idéia de que o marido de Klea era meu primo. Então ele disse "Krímata!" - que significa "dinheiro", e aquele minuto me custou inacreditáveis 40 euros. Bom, poderia ter sido pior. Encontrei com Omar e fomos resgatar Lucci na Zara, que estava carregando duas sacolas enormes e pagando a conta de 400 euros. Omar comprou um perfume e fomos deixar as sacolas de compras lá em casa.
Aproveitei para fazer uma sessão de shiatsu em Lucci, como presente de aniversário, conforme havia prometido, enquanto Omar rezava voltado para a Meca perto da janela. Depois foi a vez dele de receber massagem.
Tinha acabado de esquentar a água para tomar banho e sairmos para jantar quando repentinamente a energia elétrica caiu. Neste momento, Chiara, minha vizinha, estava no skype desesperada porque estava atrasada para uma festa e a luz caiu bem na hora em que secava o cabelo. Omar respondeu por mim, chamando-a para vir até minha porta, mas não tinha a menor idéia de que os meninos estavam lá. Chegou xingando Deus e o mundo quando deu de cara com Omar, e logo em seguida, Lucci surgiu por detrás da parede. Ela ficou mais assustada do que já estava. Perguntei se tinha ouvido algum barulho de queda no disjuntor, mas disse que não e voltou ao apartamento dela.
Importunei novamente Klea e ela pediu pra que fosse até o painel do apartamento de Chiara verificar se todos os pinos estavam voltados para cima. Batia na porta e ela não respondia. De vez em quando ouvia "só um momento!" - e nada de abrir a porta. Dez minutos depois, Klea ligou novamente e disse que ainda não tinha conseguido entrar no apartamento de Chiara. Como pode alguém demorar tanto tempo para vestir uma roupa e abrir a porta? Mais alguns minutos e painel verificado depois, Klea estava indo até lá. Como o técnico estava longe de Atenas, fui com ela até uma espécie de sótão nebuloso que tem em todos os prédios aqui, para verificar os geradores. O local é um cenário perfeito para cena de filme de terror. Klea então chamou o serviço público e depois de me arrumar no escuro, finalmente saímos para jantar.
Encontramos Milena em Syntagma e andamos até Monastiraki. Jantamos num restaurante próximo a Akropoli, à mesa kebab, vinho branco e muita risada. Omar foi muito gentil em pagar a conta como presente aos aniversariantes da semana.
Já era meia noite quando resolvemos ir andando até Psiri, onde o tanzaniano e a polaca beberam várias tequilas. Muçulmano não bebe, mas até Omar bebeu tequila. Eu acabei não resistindo e tomei uma também. Depois partimos para Gazi, entramos em algumas baladinhas e Lucciano não parava de beber. Reclamou a semana inteira que a Grécia inteira fuma e quando vi estava com um cigarro na mão, me chamando de "Santorini". Num dos lugares que entramos, estava tocando Britney Spears e havia aproximadamente dez jovens gregos em catarse coletiva brincando de fazer montinho num sofá e Lucci, é claro, queria se juntar a eles.
Partimos para outro lugar, onde Milena encontrou um mineiro, ele e outro amigo brasileiro moram em Barcelona. Omar já tinha ido embora e Lucci estava trôpego de bêbado. Pedi informações de como voltar pra casa e por sorte um casal super gente boa ofereceu uma carona. Tive que levar Lucci junto. Quis matá-lo quando vi que vomitou na pia do meu banheiro cheiroso, sendo que não se pode jogar nada que não seja puramente líquido nela ou terei sérios problemas com entupimentos. A criatura acabou dormindo lá em casa e não conseguiu levantar da cama até final da tarde de tanta ressaca. Para completar, de manhã cedo o sino da igreja deu sessenta badaladas estridentes, em três séries de vinte que latejavam na minha cabeça. Estava quase conseguindo dormir novamente, quando um alarme que parecia de incêndio gritava incessantemente. Fiquei preocupada pois não sabia de onde vinha, levantei e segui o som até descobrir que era do despertador do celular de Lucci. Quis máta-lo (2).
Saí para almoçar e trouxe um suco de laranja ao ressaquiado, apertei alguns pontos de Lucci para tratar fígado, náuseas e dor de cabeça. Ainda bem que Omar apareceu lá em casa mais tarde para buscar as sacolas e carregou Lucci junto. A primeira coisa que fiz foi faxina no apartamento para purificar as energias deste fim de semana atípico. Depois falei com a família na webcam e só de ver o sobrinho através de som, imagem e movimento, já ganhei o domingo. Fiquei feliz por não estar no Brasil neste dia e não ter que decidir em quem votar nas eleições.
Neste fim de semana teve festa da indepedência da Nigéria. Não sabia que tanto Nigéria quanto Tanzânia só conquistaram sua independência há aproximadamente singelos 50 anos atrás.