19 de mai. de 2009

Versailles e despedida

27.02.09 Na manhã seguinte, fui até a estação de trem, onde me comuniquei quase por mímicas com uma Senhora francesa que estava tentando me ajudar a saber onde deveria esperar o trem que só passaria rapidamente para que quem estivesse por ali embarcasse.

Chegando em Versailles, foi só seguir o fluxo de turistas até o Palácio, sede da sofisticadíssima corte francesa de Luís 15. Fila pra comprar ingresso e uma certa decepção: achei o palácio meio sem graça, exceto os gigantescos jardins que são o principal atrativo. É inacreditável a extensão desse monte de mato bem cuidado. Infelizmente era inverno e estava excessivamente frio para se expor tanto tempo ao ar livre. Andei por horas em meio aos bem recortados jardins até encontrar uma saída e voltei a Paris no fim da tarde.

Queria visitar o Cemitério do Père Lachaise, que dizem ser o mais alegre do mundo. Entre os túmulos mais freqüentados estão o de Jim Morrison, Allan Kardec, Balzac, La Fontaine, Molière, Sarah Bernhardt, Proust, Oscar Wilde, Danton, Edith Piaf, Irmãos Lumiére, Isadora Duncan, e Chopin. Infelizmente tinha acabado de fechar e eu não pude visitá-lo.

Em casa, fizemos as crepes que não comemos na quarta-feira. Romain me ensinou a receita e como jogá-las pra cima para virar as crepes de lado na frigideira. Depois de comermos muito, Romain já estava um pouco atrasado para o ensaio de teatro das sextas-feiras. Mesmo assim me levou até a estação onde eu pegaria o trem para Bruxelas. Os metrôs estavam cheios e Romain e eu ficávamos nos olhando por longos instantes, como várias vezes acontecia durante aqueles três dias. Numa plataforma da estação de Paris, nos despedimos algumas vezes e segui adiante carregando a minha mala e um peso enorme de estar deixando-o para trás. Nessa hora me dei conta que aquele menino francês havia mexido comigo.

O trem era chiquérrimo e veloz. A viagem foi rápida e um tanto triste por estar deixando a cidade Luz. Ao chegar em Bruxelas, Max estava à minha espera e me levou ao apartamento onde ele e a namorada Laurece estão morando. Eu estava tão cansada que já não enxergava nem sentia mais nada. Dormi igual um anjinho naquela noite.

A Torre Eiffel

26.02 Estava frio e nublado no dia de ver a Torre Eiffel bem de perto. Como toda s as manhãs em Paris, fiz o desjejum com os deliciosos, crocantes e macios croissants au berre que parecem derreter na boca.

A estação de metrô próxima da torre estava em manutenção, então desci na próxima e tive que caminhar um pouco, o que acabou sendo ótimo pois cheguei no melhor ponto para se observar e tirar fotografias. Apreciei os jardins e espelhos d’água do Trocadeiro e depois desci em direção à ela. Inaugurada em 1889, a Torre Eiffel foi construída para honrar o centenário da Revolução Francesa. Era para ser uma estrutura temporária, mas acabou ficando lá para sempre. Nem o céu cinza pode tirar o encanto de visualizar esse ícone mundial tão de perto.

Duas pessoas surgiram com o cartaz "free hugs" e eu não perdi a oportunidade de receber um abraço de graça de anônimos bem embaixo da torre de ferro mais conhecida do mundo. Não estava muito empolgada, mas entrei na fila pra ver a vista de lá de cima. Havia brasileiros por todos os lados, atrás e na frente. Tinha até um com medo de altura e só ia subir até o primeiro nível. Estava acostumada a encontrar brasileiros em todo o lugar, porém em Paris a quantidade era exagerada. A sensação que tive foi que estava no Brasil, onde se podia encontrar alguns franceses.

A vista lá do ponto mais alto estava prejudicada pela neblina, como já havia sido avisado antes de subir. Dentro de uma estrutura protegida, deu pra ver Paris em 360 graus e fugir do frio. Após uma longa contemplação por todos os ângulos da cidade Luz, encarei uma extensa fila para descer daquele lugar cheio de gente.

Saí caminhando sem noção de direção e nem exatamente para onde gostaria de ir. Fui perguntando para as pessoas onde ficavam os museus, até que encontrei um que não tinha nada a ver com o que eu queria visitar. Foi então que encontrei o Rio Sena e tive uma prazerosa e longa caminhada ao seu lado, vislumbrada com a beleza daquele conjunto harmonioso de pontes, avenidas e construções antigas que se exibiam ao meu redor.

Depois de uma considerável pernada, avistei à margem esquerda do Rio Sena o museé d'Orsay, que originalmente era uma estação ferroviária. O museu é muito bem organizado e com arte para todos os gostos, cujo destaque são as obras de Van Gogh, Monet e Degas. Estava exausta quando saí de lá e recebi uma mensagem de Romain no celular. Combinamos de nos encontrar em frente ao hotel de ville em meia hora.

Mal sabia eu que mais uma longa caminhada estava a minha espera. Já estava anoitecendo quando cruzei a ponte para chegar ao outro lado do rio e seguir as placas até o ponto de encontro. Eu fiquei pensando por que um Hotel tinha virado ponto turístico e se tornado merecedor de placas indicativas pela cidade.

Chegando lá, Romain me explicou que o tal "Hotel De Ville" era nada mais que a prefeitura de Paris, um centro administrativo e onde está o escritório do prefeito. A construção é de ficar sem ar. Rica em detalhes, linda e imponente. Logo à sua frente havia uma pista de patinação no gelo, onde várias pessoas se divertiam. Romain sugeriu que fossemos patinar juntos. A única vez que fiz isso foi dentro de um shopping center e foi uma experiência um tanto catastrófica. Romain prometeu que me ensinaria e eu até tinha gostado da idéia, imaginando suas mãos segurando as minhas e nós dois patinando juntos como numa cena de um filme francês até eu cair em cima dele. E ali no chão gelado, sentindo seu corpo sobre o meu, não resistiria ao seu olhar de poesia, ele me daria um beijo e começaria uma grande história de amor. Mas uma dor latejante me fez voltar a realidade. Depois de tantos dias consecutivos andando como Forrest Gump, a exaustão das minhas pernas me impediu de entrar na pista.

Então seguimos ao Centre Georges Pompidou, um complexo fundado em 1977, que abriga museu, biblioteca, teatros, entre outros espaços culturais. O projeto, desenhado por dois arquitetos italianos, foi considerado extremamente arrojado e bastante criticado pela sua arquitetura high-tech, observada nas grandes tubulações aparentes como dutos de ar condicionado, nas escadas rolantes externas e no sistema estrutural em aço por sua semelhança aos sistemas industriais. É um grande contraste com o resto da cidade. Achei que Paris precisava mesmo de algo assim para quebrar um pouco a paisagem antiga e preservada.

Naquela noite Romain me levou também a lugares menos turísticos e foi ótimo conhecer este lado de Paris menos tumultuado. Chegamos a uma rua com alguns bares e restaurantes um pouco alternativos, onde jantamos à francesa. Na volta, dois franceses do interior puxaram assunto com Romain e acharam que eu era a esposa dele.

Voltamos pra casa. O elevador do qual já falei, é bem pequeno, então nós ficávamos bem próximos um do outro e eu podia sentir a respiração de Romain até chegar ao quinto andar. Amanhã era meu último dia em Paris. Romain sentou-se ao meu lado e me explicou detalhadamente como chegar na RER, onde pega-se o trem até Versailles.

Aux Champs-Elysées

25.02 Ramain trabalha numa produtora de vídeos. Segundo ele, passa o dia editando aquelas pegadinhas sem graça de televisão. Saí de casa depois que ele já havia saído. Peguei um metrô até o Arco do Triunfo e fui caminhando pelo champs-elysées, o boulevard mais chique e caro de Paris.

Estava uma deliciosa manhã de sol e uma energia sem igual tomou conta de mim enquanto caminhava por aquelas ruas. Cheguei na Place de La Concorde, onde o rei Luis 16 e sua mulher, Maria Antonieta, foram guilhotinados. A praça tinha a belíssima Igreja da Madeleine ao fundo. De lá, segui pelo Jardim das Tulheries, onde já existiu um imponente palácio, derrubado durante a Revolução Francesa. No verão, as Tulheries abriga um parque de diversões e vira uma badalada área de lazer. Mas como era inverno, o lugar era perfeito para sentar, sentir o sol, ver os pássaros e relaxar cercada de uma bela paisagem de tranqüilidade em meio à loucura da cidade grande.

No fim das Tulheries avistei uma pirâmide toda de vidro. Era o Louvre, que tem uma coleção de 300 mil obras de arte e é o maior e um dos mais antigos museus do mundo. A pirâmide faz um contraste gritante com o antigo Palais do Louvre, sede da corte francesa desde o século 13. Passei horas lá dentro, sem deixar de passar pela Vênus de Milo, a Vitória de Samotrácia e o retrato mais famoso e disputado do mundo, La Gioconda, ou Monalisa, de Leonardo da Vinci. O Código de Hamurabi, que instituiu a lei do "olho-por-olho" na Mesopotâmia antiga, também é bem interessante. A imensidão do lugar é incalculável, tornando impossível ver tudo com calma.

Depois da exaustiva visita ao Louvre, fui caminhando até a belíssima arquitetura da Ópera de Paris e dei uma passadinha no famoso shopping Lafayette.

Antes do pôr-do-sol, subi o Montmartre, um dos lugares mais poéticos de Paris. Lá do alto, pude apreciar a vie en rose (a vida cor-de-rosa) do anoitecer, ouvindo música e sentada nas escadarias da Sacre Coeur, uma linda basílica que tem uma vista privilegiada da cidade.




Já estava escuro quando fui andando até Pigalle, berço de cabarés e prostíbulos. Hoje abriga sex-shops, danceterias, bistrôs, bares de strip-tease e casas noturnas como o famoso Moulin Rouge.

De lá, metrô direto para casa, onde Ramain organizou um encontro com alguns couchsurfers. Preparou purê de batatas com carne para o jantar, mas apenas uma convidada compareceu. Muito simpática, Juliet é quase uma controladora de vôos. Nunca tinha conhecido alguém com uma profissão assim e fiquei impressionada com algumas informações sobre os perigos de voar.

Ouvindo bossa nova brasileira, tomamos vinho branco e provamos ouzo que eu trouxe da Grécia. Ramain mostrou as fotos da viagem à Colombia e tocou violão. Talentoso, ele compôs uma música improvisada só para mim, enquanto o seu olhar insistente de poeta Don Juan dava ritmo à melodia. Quase derreti. Estou encantada com a língua francesa, principalmente quando Ra main fala "Sandrine" com o sotaque correto da origem do meu nome. Juliet voltou pra casa de bicicleta e nós assistimos a Little Miss Sunshine antes de dormir.