Aconteceu tudo tão rápido que não tive tempo de pensar nos últimos dias. Estava tão desconectada da realidade que mal senti o gosto do chá de aeroporto até Atenas.
Consegui poupar alguns remédios homeopáticos do raio-x em Curitiba e no Rio, mas em Paris não teve jeito de convencer ninguém a deixar passar. Segundo eles, todos os medicamentos podem receber um banho de raio x sem prejuízo.
Um casal parisiense sentou ao meu lado no vôo para Paris. Ele às vezes vai para o Brasil para trabalhar com pesquisa em desenvolvimento sustentável na Universidade de Campo Grande e junto com sua esposa, já estiveram viajando pelo Brasil e Peru. Não havia muitas opções interessantes de filme para assistir e o avião da Air France é sempre desconfortável, nada fácil de dormir. Para completar, na madrugada do vôo, uma passageira passou mal, foi deitada no chão, as comissárias de bordo correndo pra lá e pra cá até que perguntaram se havia algum médico a bordo para atendê-la. Acredito que ela tenha ficado bem depois. Foi tenso ver a senhora naquele estado, no instante em que o mapa apontava que estávamos exatamente no meio do oceano.
Tudo estava correndo muito bem e pontualmente até se aproximar da "Bahia" da Europa (vulgo Grécia). O último vôo (Paris-Atenas) atrasou quase uma hora. Foi ótimo porque deu tempo de comprar um batom no freeshop e principalmente porque tinha uma espreguiçadeira esperando por mim no portão de embarque, onde pude esticar as pernas.
Desta vez a comida estava exoticamente ruim. Não tinha almoçado mas não deu pra engolir todo aquele prato grego que foi servido a bordo e que eu nem sei o que era. Adotei três poltronas e adormeci.
Chegando à Grécia, a paisagem é muito bonita, passando por várias ilhas recortadas e contornadas em cores contrastantes. Senhores passageiros, hora de sair do ar condicionado direto para a sauna grega. Bem-vindos a Atenas.
Foi então que aconteceu uma das cenas mais lindas que já vi. A esteira de bagagens começou a andar e para minha supresa foi se desenhando uma mala vermelha que eu já conhecia. Mal podia acreditar que ela tinha sido a primeira a chegar. Como se não bastasse, nem tive tempo de ansiar pela segunda mala pois estava ela tão ansiosa que foi a terceira a aparecer. Eyxfaristo poli.
Quase uma hora de atraso mas mesmo assim lá estava o motorista de táxi me esperando no portão de desembarque segurando uma plaquinha com meu sobrenome. Confesso que sempre quis aterrissar com um desconhecido segurando uma placa dessas pra mim.
O carrão do taxista tinha bancos de couro, dvd e teto solar. O motorista não falava muito inglês mas o chefe já tinha explicado a ele em bom grego onde ele iria me levar. Ia relembrando a paisagem grega a cada km rodado que me foram trazendo também muitas lembranças. É muito interessante voltar a um lugar que você viveu depois de um tempo, a visão é sempre diferente.
No caminho, fiquei pensando também em como o Lula ousou dar dinheiro à Grécia, que mesmo em crise, tem estradas e placas de sinalização muito melhores. Os gregos estão em crise mas desfilam nas ruas carros muito superiores aos nossos pagando menos imposto por eles. Demos dinheiro a um país que desvia mais verba do que o Brasil e que vai tomar café gelado enquanto os brasileiros trabalham. A Grécia é o filho rebelde e irresponsável que rouba o dinheiro dos pais, vai toda noite pra balada, gasta mais do que tem e depois sai quebrando tudo para no fim pedir arrego.
O taxista primeiro me deixou no escritório, mas a responsável esqueceu de deixar a chave do apartamento conforme combinado, pois já tinha passado das 7 horas da noite e só o guarda estava lá. Liguei então para Klea, a proprietária, que tinha outra chave e disse a ela que em 20 minutos estaria no local onde ia morar.
Continuamos rumo ao centro e o silêncio dentro do táxi foi quebrado quando o motorista perguntou se eu fumava e se tinha algum problema de ele fumar ali. Disse que tudo bem e pedi pra abrir as janelas de trás. Depois ele perguntou se eu era da Polônia e me deu uma cantada. Isso que ele tinha dito que não falava inglês.
Cinqüenta euros de táxi depois, supostamente estava eu na frente da minha nova residência. Toquei todos os interfones possíveis e nenhum sinal de vida. Liguei para a proprietária que disse então que ela estaria ali em 2 minutos. Passados 15 minutos, ela me ligou para avisar que iria demorar mais 20 minutos. A verdade é que uma hora depois ela ainda não tinha chego. Então comecei a desconfiar que estava no lugar errado. Liguei pra ela novamente e ela disse que acabara de chegar na frente do prédio e eu disse que também estava na frente. Perguntou como era a rua em que eu estava e logo veio me encontrar.
Dessa vez vou morar bem no centro, perto da praça de Syntagma, da Acrópoli, dos lugares turísticos e de vários barzinhos. Fiquei encantada com o local. O prédio fica em cima de uma pracinha que tem uma igreja e entre as duas construções uma porção de sofás, mesas e cadeiras ao ar livre que pertencem aos vários barzinhos que me rodeiam. Na verdade, sempre que chego em casa tenho que passar por entre as mesas e sofás habitadas pela vida noturna, alimentada de pessoas interessantes e música instrumental.
Klea então me apresentou ao apartamento, explicou como tudo funciona e para se redimir do atraso, me convidou para tomar um drink lá embaixo. Depois do banho mais esperado das últimas 24 horas, tirei tudo o que tinha na mala, arrumei algumas coisas e apaguei perto da 1h30 da manhã.