30 de ago. de 2010

Semanitcha

A semana foi tranqüila, dedicada ao trabalho e a mim mesma. Transformei minha casa num centro holístico de auto cura e reservei esta semana para cuidar de mim.

Quinta-feira tive uma grande surpresa ao voltar do trabalho. Chegando em Syntagma, meus ouvidos logo reconheceram uma linda música do Vangelis. Foi então que me deparei com um grupo enorme de pessoas uniformizadas tocando seus respectivos intrumentos regidos por um maestro e rodeados por muitos curiosos. Era um concerto ao ar livre ali na minha frente. Parei pra assistir. Não há quem tivesse um coração batendo que não se emocionasse de alguma forma. Foi de saltar lágrima do olho e arrepiar até a ponta dos cabelos.

Sexta feira teve o show 360 graus do U2 no estádio olímpico.

*** Uma camiseta em meio a multidão: "Fuck google. Ask me."

Vouliagmenis Limni

Descobri que sempre acordarei cedo aos domingos. O sino da igreja aqui na frente insiste em dar uma série de badaladas estridentes que faz qualquer um levantar da cama.

Depois do desjejum, parti rumo a praça de Syntagma procurar pelo ônibus E22 que leva até Vouliagmenis Limni. Cinquenta minutos depois, a condução cheia de sedentos por litoral me deixou praticamente na porta de entrada.

Fiquei encantada com a maravilha natural de rara formação geográfica que se encontrava diante dos meus olhos. Há muito tempo atrás, o local era uma caverna que por causa de um terremoto se transformou nessa Lagoa linda e misteriosa, que continua no fundo da montanha em uma caverna subaquática ainda não totalmente explorada, pois parece que o fim dela é impossível de rastrear até mesmo com detecção sonar, onde alguns mergulhadores já afundaram em expedições.

Como se não bastasse sua beleza, a lagoa Vouliagmeni é um spa mineral com propriedades curativas para várias doenças. A composição do lago é salobra e cheia de minerais como potássio, sódio, lítio, amónio, cálcio, ferro, cloro, iodo, conhecidos por proporcionar alívio aos ossos e músculos. A água, também ligeiramente radioativa, se mantém em 24 graus C de temperatura o ano inteiro. Era tudo que meu corpo precisava depois da maratona dos útlimos dias. Fiquei quase o dia inteiro imersa na água igual um bonequinho de pebolim sem a menor preocupação de acertar o gol.

O local é dominado pela terceira idade, principalmente na parte da manhã, quando conversei com senhorinhas muito simpáticas na água. Uma vizinha de guarda-sol gentilmente me ofereceu biscoitos de milho e a vizinha do outro lado fez questão de que eu me mudasse para o guarda-sol dela depois que ela foi embora. Lindas.

No período da tarde, mudei para o outro lado para deitar na espreguiçadeira e cutir um outro ângulo da lagoa. Tirei a soneca mais iluminada da minha vida. Estava tudo uma delícia até um grego começar a puxar papo em francês, a comunicação era um horror e ele insistia pra ir até outra praia, pra tomar banho de lagoa com ele, pra sair com ele mais tarde. Chatíssimo. Para concluir a terapia de domingo, um baita trânsito para voltar pra casa.

Não entendo como nunca me falaram desse lugar antes. Disseram que é porque tem muitos idosos mas pra mim isso é só mais um motivo para ir até lá. Sábios velhinhos.

Paraskevi & Sawato

Meus planos de ir ao shopping foram por água abaixo. Sexta-feira trabalhei até 9 pm.

Como a liquidação acaba segunda-feira, reservei o sábado para ir às compras. Embaixo do prédio que moro tem uma boutique cheia de artigos caros e vários acessórios estampados com a bandeira do Brasil. Uma quadra depois, entrei na Zara e saí de lá com uma sacola cheia, três horas depois de provar três andares inteiros. Fui obrigada a voltar pra casa pra deixar o peso das compras. Estou começando a achar que morar a poucos metros da Zara vai me trazer sérias dificuldades para fechar a mala na volta. Como as lojas do centro já tinham fechado, parti para o shopping.

Fiquei até tarde pesquisando sobre o destino do último domingo de verão. Neste calor delicioso tudo o que quero é um banho de mar. Estava entre ir a uma ilha ou uma praia, até descobrir uma tal Lagoa Vouliagmenis a menos de uma hora daqui. E é pra lá que eu vou.

Pro dia nascer feliz

Não sei se o despertador não tocou ou se meus ouvidos recusaram-se a ouví-lo, o fato é que quando abri os olhos estava super ultra atrasada.

Saí correndo para pegar o metrô e nem me dei conta que entrei naquele que não fazia conexão direta. Fiz o caminho mais longo possível pegando 2 metrôs e 1 trem para chegar ao destino.
O dia foi de bastante trabalho, quando vi já estava tarde e nem tinha almoçado. Aliás, estou com a sensação de que meu corpo vive de luz e que comida é desnecessária em dias de calor intenso.

Saí do trabalho um pouco mais tarde e na volta para casa andei pelas ruas próximas a Syntagma e constatei que as lojas ainda estão liquidando a coleção de verão. Era exatamente o que meu guarda-roupa precisava. Depois de visitar alguns provadores, atravessei uma rua, olhei para o lado e de repente vi a Akropoli linda e iluminada lá em cima. Não tinha me dado conta que estava morando tão perto dela. Quando vi já estava em Monastiraki, recheada de turistas, e voltei para casa.

28 de ago. de 2010

Primeiro dia

Nem deu tempo de regenerar o sono nem de me recuperar do jetlag e já tive que partir rumo ao primeiro dia de trabalho. Dia também de relembrar as estações do metrô, de passar calor na rua e de confundir as direções até chegar na empresa. Primeiro dia também é dia de configurar o pc, criar login, senha, email, etc etc. Mas já com várias tarefas a cumprir.

Desta vez estou trabalhando no lado oposto ao que trabalhava, numa sala maior com janelas panorâmicas, onde estão todos os redatores e os respectivos gerentes juntos. A paisagem interna está bem exótica, composta de um redator da Nigéria, da Arábia Saudita, da Tanzânia e uma da Itália.

Angela, a italiana, já morou onde moro e deu algumas dicas sobre a redondeza. Fui ao Carrefour abastecer a geladeira, mas achei um pouco longe e me perdi na volta. Descobri que o melhor jeito de encontrar o caminho de casa é seguir a direção de onde vem as músicas dos bares.

26 de ago. de 2010

A chegada

Aconteceu tudo tão rápido que não tive tempo de pensar nos últimos dias. Estava tão desconectada da realidade que mal senti o gosto do chá de aeroporto até Atenas.

Consegui poupar alguns remédios homeopáticos do raio-x em Curitiba e no Rio, mas em Paris não teve jeito de convencer ninguém a deixar passar. Segundo eles, todos os medicamentos podem receber um banho de raio x sem prejuízo.

Um casal parisiense sentou ao meu lado no vôo para Paris. Ele às vezes vai para o Brasil para trabalhar com pesquisa em desenvolvimento sustentável na Universidade de Campo Grande e junto com sua esposa, já estiveram viajando pelo Brasil e Peru. Não havia muitas opções interessantes de filme para assistir e o avião da Air France é sempre desconfortável, nada fácil de dormir. Para completar, na madrugada do vôo, uma passageira passou mal, foi deitada no chão, as comissárias de bordo correndo pra lá e pra cá até que perguntaram se havia algum médico a bordo para atendê-la. Acredito que ela tenha ficado bem depois. Foi tenso ver a senhora naquele estado, no instante em que o mapa apontava que estávamos exatamente no meio do oceano.

Tudo estava correndo muito bem e pontualmente até se aproximar da "Bahia" da Europa (vulgo Grécia). O último vôo (Paris-Atenas) atrasou quase uma hora. Foi ótimo porque deu tempo de comprar um batom no freeshop e principalmente porque tinha uma espreguiçadeira esperando por mim no portão de embarque, onde pude esticar as pernas.

Desta vez a comida estava exoticamente ruim. Não tinha almoçado mas não deu pra engolir todo aquele prato grego que foi servido a bordo e que eu nem sei o que era. Adotei três poltronas e adormeci.

Chegando à Grécia, a paisagem é muito bonita, passando por várias ilhas recortadas e contornadas em cores contrastantes. Senhores passageiros, hora de sair do ar condicionado direto para a sauna grega. Bem-vindos a Atenas.

Foi então que aconteceu uma das cenas mais lindas que já vi. A esteira de bagagens começou a andar e para minha supresa foi se desenhando uma mala vermelha que eu já conhecia. Mal podia acreditar que ela tinha sido a primeira a chegar. Como se não bastasse, nem tive tempo de ansiar pela segunda mala pois estava ela tão ansiosa que foi a terceira a aparecer. Eyxfaristo poli.

Quase uma hora de atraso mas mesmo assim lá estava o motorista de táxi me esperando no portão de desembarque segurando uma plaquinha com meu sobrenome. Confesso que sempre quis aterrissar com um desconhecido segurando uma placa dessas pra mim.

O carrão do taxista tinha bancos de couro, dvd e teto solar. O motorista não falava muito inglês mas o chefe já tinha explicado a ele em bom grego onde ele iria me levar. Ia relembrando a paisagem grega a cada km rodado que me foram trazendo também muitas lembranças. É muito interessante voltar a um lugar que você viveu depois de um tempo, a visão é sempre diferente.

No caminho, fiquei pensando também em como o Lula ousou dar dinheiro à Grécia, que mesmo em crise, tem estradas e placas de sinalização muito melhores. Os gregos estão em crise mas desfilam nas ruas carros muito superiores aos nossos pagando menos imposto por eles. Demos dinheiro a um país que desvia mais verba do que o Brasil e que vai tomar café gelado enquanto os brasileiros trabalham. A Grécia é o filho rebelde e irresponsável que rouba o dinheiro dos pais, vai toda noite pra balada, gasta mais do que tem e depois sai quebrando tudo para no fim pedir arrego.

O taxista primeiro me deixou no escritório, mas a responsável esqueceu de deixar a chave do apartamento conforme combinado, pois já tinha passado das 7 horas da noite e só o guarda estava lá. Liguei então para Klea, a proprietária, que tinha outra chave e disse a ela que em 20 minutos estaria no local onde ia morar.

Continuamos rumo ao centro e o silêncio dentro do táxi foi quebrado quando o motorista perguntou se eu fumava e se tinha algum problema de ele fumar ali. Disse que tudo bem e pedi pra abrir as janelas de trás. Depois ele perguntou se eu era da Polônia e me deu uma cantada. Isso que ele tinha dito que não falava inglês.

Cinqüenta euros de táxi depois, supostamente estava eu na frente da minha nova residência. Toquei todos os interfones possíveis e nenhum sinal de vida. Liguei para a proprietária que disse então que ela estaria ali em 2 minutos. Passados 15 minutos, ela me ligou para avisar que iria demorar mais 20 minutos. A verdade é que uma hora depois ela ainda não tinha chego. Então comecei a desconfiar que estava no lugar errado. Liguei pra ela novamente e ela disse que acabara de chegar na frente do prédio e eu disse que também estava na frente. Perguntou como era a rua em que eu estava e logo veio me encontrar.

Dessa vez vou morar bem no centro, perto da praça de Syntagma, da Acrópoli, dos lugares turísticos e de vários barzinhos. Fiquei encantada com o local. O prédio fica em cima de uma pracinha que tem uma igreja e entre as duas construções uma porção de sofás, mesas e cadeiras ao ar livre que pertencem aos vários barzinhos que me rodeiam. Na verdade, sempre que chego em casa tenho que passar por entre as mesas e sofás habitadas pela vida noturna, alimentada de pessoas interessantes e música instrumental.

Klea então me apresentou ao apartamento, explicou como tudo funciona e para se redimir do atraso, me convidou para tomar um drink lá embaixo. Depois do banho mais esperado das últimas 24 horas, tirei tudo o que tinha na mala, arrumei algumas coisas e apaguei perto da 1h30 da manhã.

De repente, não mais que de repente.

Foi como num soneto de Vinicius de Moraes que o destino me trouxe novamente à Grécia. Assim de repente, não mais que de repente. Quando me dei conta já estava em Atenas tomando um suco de laranja, como quem acabou de virar a esquina. Acho que preciso de uns dias para medir a o tamanho continental da rua que atravessei.

É fato que a intuição já havia me contado que deixaria Joinville muito em breve, mas não fazia idéia de como isso aconteceria nem que seria tão bruscamente. Confesso que vou sentir falta do aconchego familiar, da comodidade do carro na garagem, das aulas de dança, de desenho, do pilates, do curso de medicina oriental e é claro, das massagens da Marlize. Mas é hora de seguir em frente. Sete ansiosos e tumultuados dias após o primeiro contato da empresa que trabalhei anteriormente, estava subindo a serra para embarcar no aeroporto Afonso Pena.

No caminho para Curitiba, uma única certeza. A Sandrine que foi para Atenas em 2008 não é a mesma que está indo agora. Desde então tenho passado por um longo e precioso processo de descobertas e compreensões. A sensação que tenho é de que minha vida não teria mais sido possível se essa metamorfose não tivesse acontecido. Portanto, se você acha que viajar para o exterior é transformador, experimente viajar para o interior de si mesmo.

Pai, mãe, irmã e sobrinho no aeroporto. Confesso que desta vez a despedida foi mais emocionante em todos os sentidos. Um mix de sensações e muita gratidão transbordaram num adeus em lágrimas. Algo me diz que esta não é uma viagem qualquer.

Bem-vindos de volta!

A pedidos, o blog está sendo atualizado para que vocês possam viajar comigo mais uma vez e tentar responder todas aquelas perguntas que todo mundo faz para quem está longe. Divirta-se!